sábado, 13 de janeiro de 2018

Carta a Gabriel o Pensador - "Matei o presidente parte 2"


Olá, Gabriel o Pensador, meu nome é Eduardo e já faz muitos anos que escuto tuas músicas e as aprecio. Em minha humilde opinião, uma das músicas que mais aprecio da tua obra é “Até Quando” e sua letra arrebatadora. Também gosto de “Nádegas a declarar” (música essa que depois de 20 anos continua bem atual, diga-se de passagem, tendo em vista o recente clipe da Anitta, “Vai malandra”, que é uma verdadeira ode à mulher enquanto mero objeto de satisfação sexual dos homens), “Dança do desempregado”, “Mais uma dose”, as duas partes do “Retrato de um Playboy”, “Lavagem Cerebral”, “Futebol”, “Matador”, “Porca Miséria”, entre tantas outras.
E recentemente, pude ver a segunda versão da música “Matei o presidente”, com Michel Temer (vulgo Mi$hell Temer, ou se preferir Conde Drácula) no lugar de Fernando Collor de Mello. Eu, particularmente, gostei da música e do clipe. Concordo plenamente com você que existem certos políticos que são chamados por aí de mitos, mas que em realidade são ridículos (haja vista que certo político que é comumente chamado de mito votou a favor do impeachment fraudulento e vergonhoso da ex-presidente Dilma e do projeto de lei 4567/2016, de autoria do tucano José Serra, que contempla a privatização da Petrobrás, entre tantas outras coisas lesivas à maioria da população). Mas não é sobre isso que gostaria de falar com você.
Pelo que li na entrevista que você concedeu ao O Globo a respeito dessa música, você fez essa música por causa do decreto da Renca, onde o presidente ladrão tentou extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados, no que ia liberar a exploração privada de uma área de 4 milhões de hectares da floresta amazônica. Entretanto, o Temer não está só entregando a Amazônia para os estrangeiros pintarem e bordarem em cima do Brasil. Está é entregando o país inteiro para os gringos tomarem não só a Amazônia como também outras riquezas do nosso país, em especial o Pré-Sal que foi descoberto durante a gestão Lula e que agora está sendo vendido a preço de banana aos gringos interessados no nosso petróleo (vale lembrar que enquanto o petróleo do Oriente Médio leva de 40 a 45 dias de viagem de navio para chegar até as refinarias norte-americanas, o petróleo brasileiro leva muito menos para lá chegar dada a maior proximidade geográfica). Recentemente, o presidente ladrão deu uma isenção fiscal de R$ 1 trilhão à Shell para que ela explore os poços do pré-sal. Ou seja, o equivalente a cerca de 20 mil malas do Geddel em isenção fiscal a uma petroleira internacional (que certamente depois de sugar e explorar todo o petróleo do pré-sal e mandar o máximo de dinheiro possível para sua filial na Inglaterra irá abandonar o país a mingua e o devastar até não poder mais, tal como feito na Nigéria antes) o presidente ladrão deu. E isso sem contar que a Petrobrás teve que pagar de indenização a credores estadunidenses quase R$ 10 bilhões. Foi para isso que a Lava Jato em realidade serviu: não para acabar com a corrupção, e sim para tirar o PT do poder e abrir o caminho para a hipoteca do país nas mãos do capital estrangeiro.
E me diga uma coisa, caro e estimado Gabriel o Pensador: por um acaso você acha que basta matar o presidente ladrão e seus asseclas no Congresso e em outras instâncias de poder que os problemas do país se resolvem? Eu acho que não. O problema está muito mais em baixo do que você e a maioria da população pensam. O Temer e a canalha do Congresso nada mais são que a ponta do iceberg, visível a todos nós. Ele não passa de um pulha, um fantoche da mesa que você menciona no começo do clipe. Ele foi colocado no poder pelos representantes da mesa (dando nome aos bois: do capital financeiro e suas diversas frações [agrária, comercial, industrial, bancária, fundos de investimento e outros]), que manda na política por trás das cortinas por meio de expedientes como a compra de políticos e da imprensa com o poder e os recursos que eles têm e que se locupletam do verdadeiro assalto que é feito ao Estado brasileiro por meio das altas taxas de juros com que se paga o serviço das dívidas interna e externa. Assalto esse que a grande mídia sistematicamente oculta, já que essa mesma mídia tem bancos e fundos de investimento como anunciantes e patrocinadores. Agora, nesse momento de crise estrutural do sistema capitalista eles querem um representante orgânico deles, que não tenha o menor pudor em aplicar as mais draconianas políticas de austeridade e retirada de direitos e assim garantir seus superlucros de sempre. Quando estoura algum caso de corrupção o político é utilizado como “boi de piranha” e o verdadeiro assalto assim é ocultado à população (em outras palavras, a verdadeira corrupção está é em casos como a já citada isenção fiscal dada à Shell e a isenção de R$ 25 bilhões ao Itaú de dívidas de imposto renda, não na mala do Geddel ou nos 3% de propina do Sérgio Cabral que suposta teria levado o estado do Rio de Janeiro à ruína [e assim ocultando a todos nós o papel da Lava Jato nisso tudo por meio da destruição da infraestrutura da Petrobrás]). Como também se oculta à população quem são os senhores e quem são os fantoches: quem está no topo da pirâmide de poder de fato não é o presidente, e sim essa gente ligada ao sistema financeiro.
E para que Mi$hell Temer foi colocado no poder por aquilo que Jessé Souza chama de a “elite da rapina” e Nildo Ouriques de a “república rentista”? Para não só entregar o país para os estrangeiros como também fazer coisas como retirar os direitos trabalhistas da população, privatizar a Petrobrás e outras empresas estratégicas ainda sob controle estatal, fazer a reforma da previdência (que na prática é entrega-la aos bancos), a já citada entrega do pré-sal aos estrangeiros e rasgar a CLT, e assim desempenhar o papel que uma vez Nicolás Maduro chamou de “assassino político”, o mesmo papel que em Honduras foi desempenhado por Roberto Micheletti. Trata-se do mesmo Micheletti que deu o golpe em Manuel Zelaya no país caribenho em 2009 (golpe esse que junto com o golpe no Paraguai em 2012 e as manifestações de junho de 2013 foi o prelúdio para o golpe que levou Michel Temer ao poder). Você pode matar o Temer, mas logo a mesa vai substitui-lo por outro para continuar levando a cabo as barbaridades que o presidente ladrão vem conduzindo. Como por exemplo, o Rodrigo Maia ou o Romero Jucá. É ai que não vai mais sobrar bala ou flecha. Do que adianta matar o Temer, o Romero Jucá ou o Rodrigo Maia sem virar a mesa e botar esse sistema todo abaixo? A meu ver, nada. Talvez, só com uma revolução para acabar com essa pouca vergonha. Não é só matando o presidente ladrão que o pesadelo que o povo brasileiro vivencia no presente momento chegará ao fim. Agora, nesse presente momento de crise estrutural capitalista internacional querem um representante orgânico deles, o sistema financeiro quer no poder alguém que não tenha o menor pudor em aplicar as mais draconianas políticas de austeridade e retirada de direitos. Não querem mais saber dos petistas e suas políticas de redistribuição de renda, que até certo ponto foram interessantes a eles (ou será que o cerco jurídico-policial ao Lula é só por causa de tríplex, sítio em Atibaia e outras frívolas acusações que a ele são atribuídas? Não, muita politicagem envolvida nisso há, e acreditar que é só por causa de corrupção que ele e outros políticos estão sendo defenestrados é o mesmo assinar um atestado de burrice).
E concordo com você que, por exemplo, o foro privilegiado é um absurdo (como você disse em uma parte que se passa em Brasília). Mas e os privilégios da casta jurídica, de juízes, desembargadores e outras figuras da aristocracia do serviço público, esses que não raro se posam como as pessoas que estão fazendo a “higiene moral do país”, como esses ficam? Pois como o Osvaldo Bertolino disse no vídeo “CPMI da JBS, que desnudou os corruptos da Operação Lava Jato, marcou 2017”, “antes de nós pensarmos em foro privilegiado deveríamos pensar nos privilegiados”. Ou seja, antes de falarmos em acabar com o foro privilegiado, deveríamos primeiro acabar com os supersalários e outros privilégios de juízes como Sérgio Moro, Marcelo Bretas e Gilmar Mendes (os quais sairão lucrando com o fim do foro privilegiado na medida em que essa gente terá ainda mais poder para atacar seus inimigos políticos). Salários esses que geralmente são inflados por auxílios dos mais variados tipos (tais como moradia, luz, educação, terno, carro e tantos outros), que nós ajudamos a pagar por meio dos impostos que pagamos todo santo ano, que tornam a justiça brasileira a mais cara do mundo em comparação com o PIB e que os torna tão ou mais quanto corruptos e venais quanto o Temer e sua laia. Após o impeachment fraudulento, tal casta, que vive em uma realidade completamente distinta da maioria da população, recebeu um obsceno aumento de seus já elevados salários da parte do governo Temer.

Por fim, queria dizer algumas coisas ao Nando Moura, que dias após o lançamento do clipe postou um vídeo falando sobre o clipe. Nando Moura, apenas duas coisas: e daí que o Gabriel o Pensador não fez um matei o presidente do Lula e/ou da Dilma? Pelo menos o PT nunca ousou fazer as maldades que o Temer e sua quadrilha agora estão fazendo em nome dos superlucros dos representantes do capital financeiro. Segundo que ninguém vota em vice-presidente como se votava nos tempos de JK e Jango. E muito embora ele tenha sido de fato vice de Dilma, com quem ele está fazendo o pacote de maldades que está fazendo agora, que é o que é bem mais importante no presente momento? Está fazendo ao lado do PSDB, outro partido orgânico da classe dominante nacional, e não do PT.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A estratégia liberal para as eleições de 2018 em três etapas (por Lucas Novaes)

2018 já começou e promete ser um ano de intensa agitação política. Afinal de contas, teremos as eleições gerais onde serão escolhidos novos deputados, senadores, governadores e presidente. Mas também existem outros fatores que tornam este ano bastante peculiar: estamos vivenciando o governo mais impopular e ilegítimo do curto período supostamente democrático do país. A impopularidade do governo Temer é justificada pelos diversos ataques aos direitos trabalhistas, privatizações, entrega do pré-sal para empresas estrangeiras, ameaças de reforma na previdência e, é claro, o fato do mesmo ter se estabelecido por meio de um golpe constitucional elaborado em conjunto por diversos partidos políticos, grandes meios de comunicação, setores empresariais e o sistema judiciário.
As eleições de 2018 então poderiam servir como um meio para que a população brasileira tenha o poder de escolher melhores representantes e coloque para fora do poder aqueles que atualmente controlam o país. Mas será que a população realmente terá poder de escolha? O Brasil, em termos geopolíticos, é um país intermediário. Não é nem de um país completamente aliado aos interesses dos países imperialistas (Estados Unidos, França e Inglaterra) nem um país que luta diretamente contra os desmandos das grandes potências, como fazem a Síria e a Coreia do Norte. Portanto, a situação política nacional é marcada por muitas contradições. Por mais que estejamos sob o domínio do capital nos impondo liberalismo econômico e da grande mídia os impondo liberalismo cultural, existem variáveis de cunho político muito difíceis de serem completamente controladas: as mudanças de cunho cultural ocorrem de maneira muito mais lenta do que o esperado (perceba as recentes mobilizações contra o banco Santander e o Museu de Arte Moderna) e o liberalismo econômico ainda é uma visão muito impopular no Brasil. O Brasil, portanto, é sempre um país alvo de uma intensa disputa entre grupos altamente dispares. 
Agora, em se tratando das eleições de 2018, particularmente as eleições presidenciais, temos um cenário muito fragmentado, comparável ao de 1989 que deu vitória a Fernando Collor de Melo. São ao todo 6 ou 7 possíveis candidatos com um certo poder de mobilização. Mas a maioria deles não são realmente interessantes para os donos do poder. O que vai tentar se impor no país em 2018 será um candidato tipicamente liberal: centrista, avesso a posições “extremadas” e aliado de grandes grupos econômicos ou da mídia monopolista. Pessoas como Geraldo Alckmin, Marina Silva ou mesmo Luciano Huck são as possibilidades que mais se adequam a este perfil. Mas dado a desmoralização do governo atual e ao fato de que todos os candidatos apoiam direta ou indiretamente o que vem sendo feito pela turma de Michel Temer, eleger um candidato liberal não será uma tarefa fácil. Apesar de não existir no Brasil um candidato viável completamente iliberal, existem diversos obstáculos que deverão ser vencidos para a vitória de um candidato puramente liberal em 2018, como ocorreu em 2017 na França, quando Macron venceu Marine Le Pen e o candidato socialista sequer chegou ao segundo turno. Para vencer esses obstáculos, será necessário o cumprimento de 3 objetivos que serão explicados abaixo.
Etapa 1 de 3: Inviabilizar a candidatura de Lula
Lula é, sem dúvidas, a maior ameaça atual para o liberalismo tupiniquim. Ele é um político com capacidade de mobilizar grandes contingentes de pessoas, é apoiado por numerosas bases sociais e sindicais importantes e é o principal nome do Partido dos Trabalhadores, que é o menos liberal dentre os 3 grandes partidos (PSDB, PMDB e PT).  Com Lula nas eleições, fica mais difícil para um candidato do PSDB ou apoiado pela Globo vencer as eleições. Mesmo que o anti-lulismo ainda seja muito forte, só o fato de Lula participar das eleições já garante que haverá uma intensa mobilização contra o candidato adversário, e isso é algo que a os antilulistas de direita querem evitar a todo custo, pois mesmo que tentem esconder, serão facilmente vistos como cúmplices de tudo o que de ruim existe no governo atual. Tirar Lula da jogada é o passo mais importante para garantir a vitória de um liberal “puro” em 2018. É também o passo mais arriscado pois poderia acarretar uma grande revolta popular.
Etapa 2 de 3: Enfraquecer ou invalidar a candidatura de Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro é um político direitista de matriz neoconservadora que ascendeu junto ao crescimento do “olavismo cultural” e da nova direita que saiu do armário. Apesar de ser de direita (ou seja, anticomunista, contra movimentos sociais, em favor do capitalismo e entreguista), Bolsonaro não é um candidato ideal por dois motivos principais: 1 - está diretamente ligado a interesses corporativistas militares (o que suja a sua imagem de liberal, principalmente por ter defendido diversas vezes a memória do período militar) e 2 – tem posições muito conservadoras com relação aos costumes (vide acusações constantes de racismo, machismo e homofobia). Bolsonaro defende o liberalismo econômico com conservadorismo social. Portanto, poderia ser considerado um republicano nos Estados Unidos. Este perfil se contrasta com os políticos do Partido Democrata, que são progressistas ou, no máximo, moderados na questão moral e moderadamente liberais na economia. Portanto, ele também se contrasta com os políticos que ainda dominam o PSDB. Além disso, os eleitores de Bolsonaro são, em sua maioria, pessoas que votavam ou votariam nos tucanos pela falta de uma opção mais alinhada com suas opiniões. Portanto, apesar de parecer contraditório, Bolsonaro é uma ameaça para o liberalismo. Não só por ser muito mais conservador social do que os liberais estão dispostos a aceitar, mas porque, caso ele vá para um eventual segundo turno contra um candidato de esquerda, seria muito incoerente da grande mídia, depois de passar anos promovendo progressismo social apoiar alguém tão conservador. Uma disputa entre Bolsonaro e Lula seria o pior cenário, pois a grande mídia não teria um candidato para apoiar (vide recentes capas da Istoé e Veja colocando Lula e Bolsonaro como extremistas).
Etapa 3 de 3: Garantir a vitória do candidato mais liberal no segundo turno
Caso a retirada de Lula das eleições tenha de fato ocorrido e a candidatura de Bolsonaro tenha se desidratado ao longo do ano a ponto de não colocá-lo no segundo turno, teríamos o seguinte cenário provável: um candidato liberal contra algum candidato de centro-esquerda que teria apoio de Lula e do PT. Ciro Gomes é um nome provável que se encaixaria nesse cenário. A etapa final do liberalismo seria garantir a derrota deste candidato de centro-esquerda em favor de um liberal puro que teria chegado ao segundo turno. Claro que só o fato de termos um candidato do sistema no segundo turno e Lula não estar nas eleições já seria uma grande vitória independentemente do resultado. Mas a cereja do bolo seria, de fato, a vitória de um candidato que não tem relações com a esquerda econômica nem com a direita cultural.
Se todas essas etapas se cumprirem, o liberalismo terá, de fato, triunfado em 2018. Será que os brasileiros deixarão que isso aconteça?
Fontes:

domingo, 7 de janeiro de 2018

Anatomia da rendição de Jair Bolsonaro ao liberalismo econômico.


Foto – Usina do Senhor Burns x Kwik-E-Mart do Apu.
Em 11 de agosto de 2015, Jair Bolsonaro foi entrevistado pelo canal voz da cidade Xaxim a respeito do PL 3722/2012 na cidade de Chapecó. Nessa entrevista ele solta algumas pérolas, sintomáticas do fato de que há tempos o político carioca aderiu ao liberalismo econômico que ele outrora abominava (a ponto de ter votado a favor do projeto de lei 4567/2016, que contempla a privatização do Petrobrás, velho sonho dos tucanos privatistas. E assim contradizendo o próprio Bolsonaro que 20 anos antes disse que FHC deveria ser fuzilado por ter privatizado a Petrobrás). Tendo em vista que recentemente li o livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, de Jessé Souza, no embalo resolvi falar a respeito dessa curta entrevista e tecer algumas considerações a respeito.
Após ser perguntado pelo repórter sobre os protestos da esquerda, o político carioca afirmou que “eles sofrem uma lavagem cerebral de décadas. Professores sempre demonizando o capitalismo e endeusando o socialismo”. Diz em seguida que em países como Cuba, Coreia do Norte e China não há qualquer liberdade, que o povo está lá para ser sugado e explorado pelo Partido governante, e que a esquerda não admite a propriedade privada por supostamente nunca terem trabalhado, que sempre foi preguiçosa e sem vergonha e que por isso eles ódio de quem trabalha e tem propriedade privada.
O que será que Bolsonaro entende por propriedade privada? Propriedade privada do que, para começo de conversa? O que Marx e Engels falam em suas obras é acabar com a propriedade privada dos meios de produção. Ou seja, que indústrias, usinas, bancos teriam de ser estatizados. Não o mercadinho ou a banca da esquina ou a tua casa. Ou seja, coisas completamente distintas e que pessoas como Bolsonaro ajudam a confundir a cabeça das pessoas ao jogar tais ideias de forma vaga, imprecisa e indefinida. E como se essas tais “pessoas que trabalham e tem propriedade privada” não fossem o sujeito que não raro vampiriza e torna um inferno a vida daquelas pessoas que não tem simpatia alguma por elas. Como se o ódio que essas pessoas que não tem simpatia alguma por esses endinheirados seja algo gratuito e sem motivo algum de existir. Talvez justamente por causa desses vampiros que concentram a maior parte da renda global em suas mãos que hajam pessoas que não gostem do capitalismo e prefiram o socialismo.
O fato é que quando uma pessoa de esquerda fala em capitalismo não se está falando da padaria, do mercadinho ou da banca mais próxima da casa onde você mora, e sim de pessoas infinitamente mais poderosas, que acumulam em suas mãos fortunas milionárias ou mesmo bilionárias. No universo Simpsons, está se falando não do Kwik-E-Mart do Apu, e sim da usina nuclear do Senhor Burns. E no mundo real, de pessoas como o João Paulo Leman da Ambev, os barões do agronegócio, do rentismo financeiro, dos fundos de investimento e da indústria farmacêutica, da família Marinho que comanda a Rede Globo, o Joesley Batista da JBS e o Roberto Setúbal do Itaú a nível nacional. Ou mesmo os donos do poder mundial, tais como o clã Rothschild, os irmãos Koch, o Rupert Murdoch, o J.P. Morgan, o George Soros e o clã Rockefeller a nível internacional. Em outras palavras, aqueles que pertencem ao 1% que controlam a maior parte da riqueza mundial e que mandam na política por trás das cortinas do poder.
Ao final dessa entrevista, Jair Bolsonaro, após ser perguntado sobre o que acha do liberalismo econômico, solta a seguinte pérola, aquela que para mim é a fala mais emblemática e interessante: “O Estado, só o essencial, nada mais, além disso. O resto tem que deixar para a iniciativa privada e que para o mercado aqui se acomode. Tem que ser assim. Quanto mais Estado, mais corrupção, mais tristeza para o povo brasileiro e menos esperança”. Tal fala nos sugere que para Jair Bolsonaro apenas há corrupção na esfera pública e que o “impoluto” mercado é o espaço virtuoso por excelência. Sendo que na realidade o real assalto ao Estado, que movimenta quantias bilionárias para cima, é feito por agentes privados. Afinal, o que são os 51 milhões da mala do Geddel, os 3% de propina do Sérgio Cabral e os dólares na cueca do José Adalberto Vieira da Silva perto dos R$ 25 bilhões que o governo Temer deu de isenção fiscal ao Itaú de dívidas do imposto de renda, dos US$ 10 bilhões da Petrobrás doados aos fundos abutres dos EUA pelo governo Temer e dos R$ 1 trilhão que o mesmo governo Temer deu de isenção fiscal à Shell na exploração do pré-sal? Ou do tanto que os super-ricos brasileiros sonegam anualmente de imposto e/ou remetem a paraísos fiscais? Achar que o centro da corrupção está em coisas como a mala do Geddel é assinar atestado de burrice. Atestado esse que Bolsonaro assina ao pensar e olhar a questão da corrupção dessa forma. Tais didáticos exemplos mostram que os políticos nesses casos de corrupção são os sócios menores dessas figuras do “impoluto” mercado que ficam com as sobras do espólio e que quando estoura o escândalo são as peças do esquema que são descartadas e posteriormente trocadas por novas.
E o curioso disso tudo é que nessa maneira de se ver a questão da corrupção ele bebe do conceito do patrimonialismo, postulado por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, publicado originalmente em 1936. Algo no mínimo paradoxal e irônico, tendo em vista que Jair Bolsonaro em seus discursos se mostra um raivoso anti-petista e anti-esquerda de modo geral e que no final de sua vida Sérgio Buarque de Holanda foi membro fundador do PT, que cujo nome é o do salão nobre e de um dos centros de pesquisa da Fundação Perseu Abramo (espécie de think thank petista, fundado em 1996 em homenagem ao jornalista homônimo) e que é o pai de Chico Buarque de Holanda, uma figura simpática ao partido de Lula, Dilma, José Dirceu, Gleisi Hoffmann e José Genoíno.
Segundo o conceito de patrimonialismo, haveria uma elite política incrustrada no Estado e que dele se apodera em benefício próprio, a ponto de privatizá-lo e gerar uma má delimitação entre as esferas pública e privada. De acordo com o pai de Chico Buarque, esse é o grande problema que tem afligido o Brasil ao largo de sua história. Entretanto, tal ideia é errônea e imprecisa. Parte de uma premissa verdadeira, de que há uma elite que se apropria do aparato estatal em benefício próprio, mas chega a uma conclusão errônea e imprecisa ao atribuir tendências patrimonialistas (no sentido de se apropriar do aparato estatal em benefício próprio e em prejuízo do resto da sociedade) apenas entre políticos e nunca em agentes do setor privado. Isso acaba implicando em um sistemático ocultamento do papel do “impoluto” mercado nos esquemas de corrupção da parte de veículos como a grande mídia (a qual tem como anunciantes justamente frações do capital envolvidas no verdadeiro assalto ao Estado, entre eles bancos e fundos de investimentos). No que acaba sendo muito conveniente para aqueles que comandam esse processo, na medida em que a corrupção envolvendo políticos acaba servindo de cortina de fumaça para esconder o verdadeiro assalto ao Estado.
E assim políticos entram e saem de cena, as peças da engrenagem são trocadas em meio à esses escândalos e essa gente continua assalto o Estado impunemente, sem ser importunada por ninguém e sem dar satisfação alguma à população. Assim como é junto com a noção de populismo usado como porrete linguístico e cavalinho de guerra para desmoralizar eventuais governos populares perante a opinião pública, na medida em que eles são associados a tudo de ruim que existe em matéria de política. Assim foi na história do Brasil com Getúlio Vargas, Jango, Lula e Dilma. Dessa forma, graças a toda essa operação, o cidadão médio tende a olhar como bandidos apenas os políticos envolvidos em escândalos de corrupção, ao passo que de modo geral o mesmo olhar de reprovação não é destinado ao presidente do Itaú ou ao dono da Ambev, que por sua vez podem muito se posar de pessoas respeitáveis perante a sociedade.
Segundo Jessé de Souza em sua obra “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, a Operação Lava Jato e a maneira como seus juízes e procuradores olham a questão da corrupção igualmente provêm do conceito de patrimonialismo de Sérgio Buarque de Holanda. E igualmente bebem dessa concepção do patrimonialismo na maneira de ver essa mesma questão muitos dos liberais brasileiros da atualidade, entre eles o MBL e Rodrigo Constantino. Gente essa que advoga, entre outras coisas, que o Estado deveria ser o menor possível e que a solução para a economia do país é “mais mercado” (sendo não foi com “mais mercado e menos Estado” que as grandes potências chegaram ao patamar que chegaram). Talvez, noções como a do patrimonialismo e do populismo ajudaram a criar o terreno fértil para que as ideias de pensadores como Ludwig von Mises e outros da chamada Escola Austríaca de Economia proliferem no país (a ponto de haver pessoas falarem em “mais Mises, menos Marx”).

Foto – Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982).
Fontes:
Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.
Jair Bolsonaro Estado Mínimo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=07cmQvXuONs&ab_channel=JohnReilly