sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A morte do dublador Caio César, a hipocrisia maconhista e a insensatez da politicalha carioca.


Foto – O dublador Caio César e alguns de seus personagens.
Hoje, 30 de setembro de 2016, completaram-se um ano do falecimento do dublador e PM carioca Caio César. Caio César deu sua voz a personagens como Harry Potter na série de filmes baseada na obra de J.K. Rowling, Diego Bustamante em Rebelde, Sokka em Avatar e TK em Digimon, entre outros tantos trabalhos. Caio César tinha apenas 27 anos de idade (nasceu em 28 de setembro de 1988), e morreu em decorrência de ferimentos ocasionados por uma bala de fuzil durante uma operação policial no Morro do Alemão. Caio César foi levado ao hospital Getúlio Vargas e foi atendido pelos médicos, porém não resistiu aos ferimentos. O que dizer sobre isso?
Por um lado, muito triste. Muito triste ver que uma pessoa que tinha toda uma vida pela frente e com esposa e filho morrer desse jeito. Fica aqui minha homenagem e espero que agora no além esteja junto com muitos outros dubladores que também já se foram tais como Newton da Matta (dublador do Lion em Thundercats e de atores como Bruce Willis e Dustin Hoffman), Eleu Salvador (pai da Bulma em Dragon Ball Z, Doutor Brown em De volta para o futuro, Rei Tut em Batman anos 1960), Darcy Pedrosa (Higgins em Magnum, Ricardo Montalban, Coringa em várias produções do Batman), Paulo Flores (Taz Mania, Doutor Hibert da temporada 2 a 14 em Simpsons, Simiano em Thundercats), Aldo César (Bender nas duas primeiras temporadas de Futurama, Doutor Maki Gero em Dragon Ball Z, Rex Harrison), Daoiz Cabezudo (narrador de Dragon Ball Z, Lula Molusco nas quatro primeiras temporadas de Bob Esponja, Tohru em As aventuras de Jackie Chan), Sônia Ferreira (Doutora Blight em Capitão Planeta, Rainha Marlena em He-Man, Luna em Thundercats), João Batista (Cell em Dragon Ball Z, Shendu em As Aventuras de Jackie Chan, Thundarr em Thundarr o bárbaro), Borges de Barros (Moe Howard em Três Patetas, Edin em Jaspion, Gigars em Cavaleiros do Zodíaco), Mário Vilela (Seu Barriga em Chaves, personagens interpretados por Edgar Vivar em Chapolin, Pirata Espacial Buba e Gyodai[1] em Changeman), Chico Borges (narrador de seriados como Batman anos 1960, Jaspion, Changeman e os 10 primeiros episódios de Flashman), Marcelo Gastaldi (primeira voz do Chaves e do Chapolin Colorado), Helena Samara (Dona Clotilde em Chaves, Vovó Uranai em Dragon Ball Z, Mamãe em Futurama), Miguel Rosenberg (Senhor Burns nas temporadas 2 a 8 e 18 a 27 em Simpsons, Zé Colméia em algumas produções da Hannah Barbera), Sílvio Navas (Mumm-Ra em Thundercats, Papai Smurf, Vaidoso e Fazendeiro em Smurfs, Rei Cold e Rei Cutelo em Dragon Ball Z, Bender na 3ª e 4ª temporadas de Futurama), entre tantos outros. A própria J.K. Rowling deixou uma mensagem no Twitter em homenagem a Caio César na ocasião:


Foto – “Desesperadamente triste de ouvir que Caio César, a voz brasileira de Harry Potter, morreu com a idade de 27 anos. Meus sentimentos estão com sua família” (tradução do Inglês para o Português da mensagem da criadora de Harry Potter). Print da postagem no Twitter da autora de Harry Potter quando soube da notícia do falecimento de Caio César.
E por outro, revoltante. Revoltante pelo fato de ele ter morrido nas mãos dos traficantes que a playboyzada carioca, do alto de sua estupidez e de seu hedonismo sem limites, vive dando dinheiro quando sobe o morro para comprar a maconha que eles fumam em suas casas nos bairros nobres do Rio de Janeiro. É essa mesma playboyzada que muitas vezes defendem bandidos tratam a polícia como se fosse uma instituição composta só de homens corruptos que argumenta a favor da legalização de drogas como a maconha falando que a “guerra contra as drogas” que o sistema promove falhou e que agora é hora de se adotar uma nova política para com drogas, similar às experiências da Holanda e do Uruguai. Mas, será que a guerra contra as drogas foi perdida mesmo ou o sistema na verdade nunca quis vencê-la, ainda mais tendo em vista que o tráfico de drogas, dentro do mundo capitalista em que vivemos, é um dos negócios mais lucrativos que existem? Pensando por esse prisma, a guerra contra as drogas, pelo que se propôs a fazer realmente, não fracassou de forma alguma. Muito pelo contrário.
E segundo que, de forma análoga a elementos como Jean Wyllys de um lado e Marco Feliciano de outro na questão dos direitos e militância GLBT, a guerra contra as drogas e esses drogadistas inconseqüentes são que nem o Yin e o Yang[2] do Taoísmo, as duas faces do deus Janus[3] na mitologia romana e os personagens Piccolo e Kami Sama de Dragon Ball: dois elementos opostos entre si, mas que se completam um ao outro ao ponto de um não existir sem o outro e vice-versa. Em outras palavras, duas faces da mesma moeda, na medida em que um justifica a existência do outro e vice-versa. Como disse o escritor russo Maksim Gorkiï em sua obra “Humanismo Proletário”, em 1934: “Unichtozhte[4] gomoseksualizm – Fashism ischesnet/Уничтожьте гомосексуализм – Фашизм исчезнет (Destrua o homossexualismo[5] – Fascismo desaparecerá)”.

Foto – A máxima de Gorkiï.
Nessa frase em questão, o que Gorkiï quer dizer? Imaginemos uma moeda. Uma moeda tem dois lados. Se um dos lados é destruído, o outro é automaticamente destruído junto e vice-versa, já que a dialética que retroalimenta os dois lados é destruída. Se um dia a guerra contra as drogas acabar e em seu lugar for efetuado um verdadeiro combate a essa chaga (como o feito na China durante o governo de Mao Tsé Tung [1949 – 1976], que resolveu com o problema do ópio que assolava com o antigo Império do Meio em poucos anos destruindo ao mesmo tempo com a demanda, a fabricação e a comercialização da droga, assim como a eliminação dos traficantes e o tratamento dos drogados. Ou seja, acabou com o problema pela raiz), os drogadistas não terão mais a guerra contra as drogas para ficar soltando suas patranhas. E vice-versa.
Entretanto, o tráfico de drogas não é o único responsável pelos problemas sociais do Rio de Janeiro. Desde pelo menos os tempos da República Velha (1889 – 1930) a questão social é tratada como caso de polícia por parte da politicalha carioca. Episódios como o da Revolta da Vacina em 1904 e a Reforma Urbanística promovida pelo então prefeito Pereira Passos entre 1904 a 1906 (apelidada de “Bota Abaixo” pelo povo na época e inspirada na reforma urbanística feita pelo Barão Haussmann[6] em Paris) ilustram muito bem isso. E essa mentalidade higienista persistiu com o tempo até chegarmos aos dias de hoje, ainda que tenha assumido roupagens mais modernas com o passar do tempo. Encontra-se presentes em políticos como Moreira Franco, Pezão, Eduardo Paes, Saturnino Braga, Sérgio Cabral Filho, Pezão, Marcelo Crivella e tantos outros. Os mesmos que abandonaram com o projeto dos CIEPs (Centros Integrados de Educação Pública) de Brizola e Darcy Ribeiro sob a alegação de que eram muito caros. E esses são os políticos que os pais da playboyzada maconheira carioca vivem votando e ajudando a perpetuar no poder no Rio de Janeiro, ao passo que esses jovens maconheiros ajudam a perpetuar na política carioca elementos tão ou mais execráveis como Jean Wyllys, Fernando Gabeira e Carlos Minc (que nada mais são que a cara-metade político-ideológica dos primeiros).
E que interesses a politicalha carioca e seus associados têm na perpetuação dessa situação de verdadeira guerra civil no Rio de Janeiro? Interesses de ordem político-eleitoreira (quando um candidato para prefeito ou governador usa o problema como forma de conseguir votos, afirmando que o outro candidato foi displicente com o problema, mas que quando chega no poder apenas faz algumas pedidas paliativas), econômica (da parte da indústria armamentista, interessada na violência urbana, e de empresas de segurança particular, com interesse em vender seus planos e produtos para as pessoas. Essa mesma indústria também financia políticos e até tem sua representação no Congresso com a Bancada da Bala), midiática (notícias desse tipo para seus noticiários sensacionalistas), policiais corruptos (através de esquemas de extorsão das comunidades mais carentes) e outros conspiram para isso. Alguém que queira realmente resolver o problema terá de enfrentar isso tudo, além do fato de essa gente toda ter a seu favor o poder midiático local. O próprio Brizola, quando foi governador do Rio, sofreu e muito com isso através de histórias falaciosas como a de que ele não queria que a polícia subisse o morro para prender traficantes (sendo que o que ele realmente queria é que a polícia não se misturasse com os traficantes).
Algo também sintomático dessa notícia é o fato de o morto em questão ser PM e dublador ao mesmo tempo. Assim como acontece com os professores do nosso país e outras tantas profissões, os profissionais da dublagem muitas vezes são mal remunerados. Não raro é comum os dubladores passarem mais da metade do dia trabalhando para conseguir algum dinheiro para se sustentar. Ou então exercerem mais um de uma profissão. E o pior de tudo é ver a propaganda governista ficar falando em “Brasil – Pátria Educadora”, sendo que um título muito mais adequado seria “Brasil – Colônia de Banqueiros” (clara alusão à obra homônima do historiador Gustavo Barroso, publicada originalmente em 1934), ou então “Brasil – Pátria Rentista”. Esses são os elementos que nadam na grana no Brasil enquanto que o povão passa fome.
Espero que um dia esse problema da violência no Rio de Janeiro um dia venha a ser solucionado, de forma que notícias como essas não venham mais a aparecer nos Datenas e Marcelos Rezendes da vida. O que percebo nessas operações da PM é que eles arrancam a erva daninha do solo, mas não fazem questão de arrancar fora sua raiz junto. De nada adiantará a polícia pacificar o morro sem ao mesmo tempo fazer uma política de inclusão social que, entre outras coisas, afaste os jovens do tráfico e lhes dê oportunidades na vida. E não será com medidas paliativas como Bolsa Família e Fome Zero que esse problema será resolvido (as quais tem o perverso efeito de criar no seio da juventude mais humilde uma geração de jovens fúteis e consumistas que não raro vão aos shoppings centers fazer seus rolezinhos), e sim através da cidadania e da educação das massas. Isso é o que Brizola e Darcy Ribeiro queriam com os CIEPs. Em outras palavras, para o bandido já formado, a devida repressão e a força da lei. E para os bandidos ainda em formação, as escolas e os programas de verdadeira inclusão social.
Sem arrancar a raiz da erva daninha do solo, cedo ou tarde ela crescerá novamente e voltará a causar problemas, gerando um círculo vicioso que continuará a ceifar mais e mais vidas com o problema da violência urbana no Rio de Janeiro. Do contrário, no momento em que os traficantes se organizarem, em poucas horas eles, com o armamento pesado que eles têm em mãos, sairão de suas tocas, tocarão o terror e dominarão a antiga capital federal. E esse problema jamais será resolvido se o Rio de Janeiro continuar sendo governado por esses políticos que tratam a cidade da mesma forma que Pereira Passos a tratava na virada do século XIX para o XX: como um espaço destinado para o desfrute único e exclusivo das elites abastadas. E se um dia o Rio de Janeiro estiver todo dominado pelas quadrilhas de criminosos do morro, que as elites cariocas e os políticos que eles tanto votam não venham com choradeira e não se incomodem de serem vítimas dos mesmos monstros que eles tanto criaram e alimentaram durante todo esse tempo.

Foto – Frase sobre a miopia dos jovens cariocas de bairros abastados como a Zona Sul quanto às consequências de seus atos.
Fontes:
J.K. Rowling lamenta morte de PM dublador de Harry Potter: “Triste”. Disponível em:
Morre Caio César, dublador do Harry Potter. Disponível em: http://omelete.uol.com.br/filmes/noticia/morre-caio-cesar-dublador-do-harry-potter/
“Morreria feliz em combate”, disse à família policial que dublou Harry Potter. Disponível em:
RW: How Maoist Revolution wiped out drug addiction in China (Em Inglês). Disponível em: http://revcom.us/a/china/opium.htm.
Teoria: Humanismo Proletário. Disponível em:
“Уничтожьте гомосексуалисм – Фашизм исчезнет” (em Russo). Disponível em:


NOTAS:

[1] Leia-se “Guiodai”, pois no japonês, assim como em idiomas como o alemão e o russo, a pronúncia da partícula g não muda em função da vogal seguinte tal qual nos idiomas latinos e no inglês.
[2] Leia-se “Yan”, pois no mandarim, assim como no francês, quando uma palavra termina em consoante esta é muda.
[3] Leia-se “Ianus”. No latim, assim como em idiomas como o alemão, o holandês, o húngaro, o polonês, o servo-croata, as línguas escandinavas e bálticas, o tcheco, o eslovaco e outros tantos, a partícula j tem valor de i.
[4] Leia-se “Unitchotojte”. No russo as partículas zh (cirílico ж) e ch (cirílico ч) tem o mesmo valor do j e do tch no português.
[5] Quando Gorkiï fala em homossexualistas nesse trecho em questão, ele está se referindo não aos homossexuais enquanto pessoas, e sim ao ativismo GLBT.
[6] Leia-se Ôssmann, pois no Francês a partícula h é muda como no Português e no Espanhol e a partícula au tem valor de ô.

sábado, 24 de setembro de 2016

A ingenuidade petista e o partidarismo da República de Curitiba


Foto – Os esquemas de corrupção envolvendo a figura do ex-presidente Lula, de acordo com Deltan Dallagnol.
O ex-presidente da República, Luiz Ignácio Lula da Silva, foi denunciado no dia 14 de setembro de 2016 por corrupção passiva e lavagem de dinheiro por parte do Ministério Público Federal e acusado pelo procurador Deltan Dallagnol, chefe da força-tarefa da Operação Lava Jato, de ser o “comandante máximo dos crimes de corrupção na Petrobrás”, que incluiriam, entre outras coisas, sua participação no petrolão e classificou tal esquema de “propinocracia”. Lula, sua esposa e ex-primeira dama Marisa Letícia, Paulo Okamoto (presidente do Instituto Lula), José Aldemário Pinheiro (ex-presidente da OAS), Agenor Franklin Magalhães Medeiros (ex-executivo da OAS), Fábio Hori Yonamine (ex-presidente da OAS Investimentos), Roberto Moreira Ferreira e Paulo Roberto Valente Gordilho (funcionários da OAS) foram denunciados formalmente pela Lava Jato. O que falar a respeito das últimas ações da República de Curitiba?
Primeiro de tudo, uma pirotecnia barata e de quinta categoria para baixo, feita com o intuito de gerar notícias de teor sensacionalista para a grande mídia (com a qual a República de Curitiba, em seu esforço de guerra jurídico-policial-midiática contra o Partido dos Trabalhadores, é mancomunada) e acima de tudo desgastar a imagem pública de Lula de forma a torna-lo inelegível para o pleito presidencial de 2018 (quer seja através de sua prisão e/ou da invalidação de sua candidatura o tornando ficha suja). Como já dito anteriormente, Lula e os petistas (os quais pelo que seus pronunciamentos nos sugerem não se dão conta disso) perderam toda a utilidade que tinham para a classe dominante nacional e agora estão sendo descartados como se fossem peões de um jogo de xadrez. Em outras palavras, são cartas queimadas. Agora, ante a nova conjuntura econômica internacional de crise, a classe dominante nacional, do alto de sua típica voracidade pelos lucros de seus negócios e seu reacionarismo, não quer mais Lula ou Dilma como gerentes do Estado burguês brasileiro, e sim seus representantes-puro sangue ocupando a cadeira presidencial no Palácio do Planalto, os quais não terão o menor pudor em levar adiante as políticas de arrocho e retirada de direitos trabalhistas que seus patrões desejam (algo que o PT já fazia, diga-se de passagem, mas não na intensidade e na velocidade que eles queriam). Em outras palavras, eles querem que um político de um partido de corte elitista como o PSDB ou o PMDB e não de um partido de corte popular como o PT ocupe a cadeira presidencial no Palácio do Planalto gerenciando o Estado burguês brasileiro em seu nome.
E o pior de tudo é ver alguns petistas, como no caso de um vídeo postado na página do Facebook da senadora gaúcha Gleisi Hoffmann, demonstrando espanto e surpresa por causa da atuação extremamente partidária dos juízes e promotores da República de Curitiba. Sendo que em realidade o tribunal, enquanto instituição, sempre teve um fortíssimo caráter classista e partidário em favor das elites (como já foi abordado no artigo “Escola sem Partido – do que se trata? Parte 4”). O que a ação dos promotores paranaenses tem feito desde o início da Operação Lava Jato é nada mais que escancarar tal fato a todos nós. E são os mesmos petistas que nomearam 10 dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do alto de seu republicanismo nunca ousaram tocar na carreira do judiciário. Isso para não falar do fato de que em momento algum eles se dão conta, entre outras coisas, do fato de que a democracia vigente em um país como o Brasil nada mais é que a ditadura de classe enrustida dos grandes capitalistas e que Lula e Dilma, tal como seus antecessores, não passaram de gerentes que administraram o Estado burguês brasileiro em favor da classe dominante nacional (que por sua vez para fazer valer seus interesses de classe e manter seu status quo privilegiado não tem o menor pudor em se valer dos mais baixos expedientes, incluindo a instauração de um regime de exceção como o que foi feito em 1964, retirar direitos do povo, forjar as mais absurdas e fantasiosas acusações contra seus adversários e assim promover uma espécie de virada de mesa no jogo político nacional ou mesmo virar a mesa do jogo democrático).
E segundo, sintomático do fato de que a máscara da Operação Lava Jato está gradativamente caindo e revelando ao mundo as reais intenções de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e companhia limitada. O que eles realmente querem não é combater corrupção, e sim inviabilizar o Lula 2018. Impressiona-me muito o fato de muita gente (em especial os coxinhas da classe média que vivem do senso comum que os grandes veículos de comunicação vendem) ver esses juízes e promotores como os salvadores e moralizadores do país. Sendo que em realidade trata-se de pessoas que levam uma vida nababesca, alheia aos problemas dos setores menos abastados da sociedade, cheia de mordomias e que não raro ganham salários superiores a R$ 50 mil (no Paraná há casos de juízes que ganham por mês mais de R$ 100 mil).
Entretanto, tal comportamento da parte da classe média é compreensível. Como disse Marilena Chauí em seus pronunciamentos a respeito da classe média, essa vive um drama: ao mesmo tempo sonha em tornar parte da classe dominante e morre de medo de se tornar proletária. E o que a professora e ideóloga petista (figura essa com a qual não nutro grande simpatia) quer dizer com isso? Que a classe média (que não raro pensa que é rica só porque tem um ou dois carros e um apartamento ou uma casa em um bairro nobre da cidade onde vive) quer é se misturar com a alta sociedade (assim como poder desfrutar de um padrão de consumo from United States), e não com aqueles que eles consideram como a ralé da sociedade. Ou seja, aquilo que eu chamo de Complexo de Dona Florinda (a mesma Dona Florinda que depois que seu marido veio a falecer passou a ter que morar em um cortiço. Em outras palavras, se proletarizou). Dai que vem a ojeriza e o ranço da classe média para com as políticas sociais dos governos petistas, a inclusão social dela decorrente (por mais limitadas que tenham sido) e o incômodo com o fato de ter que passar a dividir espaços com essa gente, as quais olham de forma tão ou mais esnobe quanto a Dona Florinda olhava o Seu Madruga, a Chiquinha, o Chaves[1], a Dona Clotilde ou qualquer outro morador do cortiço onde ela vivia junto com seu filho Kiko. E esses juízes, representantes da classe dominante com a qual essa gente se identifica e tanto quer se misturar e se tornar parte, ao atacar o partido que promoveu a inclusão dessa gente toda acabam naturalmente recebendo todo o apoio desses elementos.
Além disso, também é sintomático da dupla moral da República Curitiba. Lula está sendo investigado por causa de um tríplex no Guarujá e um sítio em Atibaia. Isso ao mesmo tempo em que eles fecham os olhos para imóveis como o apartamento de Fernando Henrique Cardoso na Avenue Foch em Paris (avaliado em cerca de R$ 11 milhões). Certamente para Moro e sua trupe tal imóvel “não vem ao caso”. E, se eles fazem tanta questão de investigar o Lula (que mesmo sendo o “chefão” de que os promotores da República de Curitiba pensam, conseguiu não mais que um tríplex no Guarujá e míseros R$ 4 milhões em propina), por que não investigar também, por exemplo, o José Serra, que segundo o livro “A Privataria Tucana” foi o cérebro das privatizações do governo FHC? O mesmo José Serra que hoje é o ministro das relações exteriores do governo Temer e que certamente será o candidato tucano ao pleito presidencial de 2018. Entre tantos outros casos que aqui poderiam ser listados.
E isso para não falar do fato de que nunca vi Sérgio Moro, Dallagnol e sua trupe fazerem questão de investigar os mais altos níveis da corrupção brasileira, em especial aqueles que anualmente assaltam impunemente o Estado brasileiro através do sistema de multiplicação de dívida. Corrupção essa que é perpetrada não por políticos ou qualquer outro agente do setor público, e sim por agentes do setor privado. Ali é onde está aquilo que Nildo Ouriques chama de a República Rentista e Jessé de Souza de a elite de rapina. Gente da mesma classe dominante que, na condição de máquina de governar[2] do Estado brasileiro, condicionam a política do Estado burguês brasileiro em seu favor e dele fazem seu balcão de negócios particular (parafraseando Marx e Kadaffi ao mesmo tempo). Ou mesmo os super-lucros dos bancos brasileiros e todas as falcatruas com as quais estão envoltas.
Por fim, gostaria de falar sobre mais uma coisa. Nas ruas já vi adesivos estampados em carros dizendo que são favoráveis a autonomia total da Polícia Federal. Em outras palavras, que a PEC 412/2009 seja aprovada. Certamente são pessoas que são favoráveis às ações da República de Curitiba e que tem um ódio visceral ao Lula e seu partido, assim como a todo e qualquer político ou partido de corte popular. O que estamos vendo no Brasil é que o Poder Judiciário está se transformando em um verdadeiro Estado paralelo. Pode fazer o que quiser (incluindo tripudiar e passar por cima de leis e condenar alguém sem provas) que não precisa dar satisfação a ninguém e ainda por cima terá multidões apoiando estas ações. Mal eles sabem o monstro que nascerá caso a PEC 412/2009 venha a ser aprovada. Entretanto, para essa gente isso lhes é conveniente. Afinal, com essa toda autonomia e poder, a Polícia Federal poderá punir sem pudor algum e da forma mais truculenta possível qualquer governante que resolva alterar a ordem social vigente no país e assim ruir de vez com o sonho da classe média de se tornar parte da classe dominante.

Foto – A dupla moral da imprensa e da equipe do juiz Sérgio Moro quanto aos imóveis de Lula de um lado e de outro lado políticos e juízes com os quais ambos os órgãos são ideologicamente mais afinados.
Fontes:
Al-Kadaffi, Muammar. O Livro Verde. Gráfica Renascença: Lisboa, 1984.
A necessária superação da esquerda decorativa. Disponível em: http://iela.ufsc.br/noticia/necessaria-superacao-da-esquerda-decorativa
A Privataria Tucana. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-9mflDtyue0
Com Paulo Pimenta, Lindbergh Farias e Wadih Damous indo ao encontro de Lula. Disponível em: https://www.facebook.com/gleisi.hoffmann/videos/633075380203052/
“Lula é o comandante máximo do esquema investigado na Operação Lava Jato”, diz procurador. Disponível em: http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2016/09/14/lava-jato-aponta-lula-como-o-comandante-maximo-do-esquema-de-corrupcao.htm
Lula era o “comandante máximo” do esquema da Lava Jato, diz MPF. Disponível em: http://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2016/09/mpf-denuncia-lula-marisa-e-mais-seis-na-operacao-lava-jato.html
Marilena Chauí e a classe média paulistana. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ofTcY6dDIRE
Nildo Ouriques – os três níveis da corrupção. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=n%C3%ADveis+corrup%C3%A7%C3%A3o
Nildo Ouriques – Tema: Situação da UERJ – manifestação. Disponível em: https://soundcloud.com/programafaixalivre/fl-15092016_2-nildo-ouriques-tema-situacao-da-uerj-manifestacao
Sem provas, mas convicto, Dallagnol é a nova cara do autoritarismo jurídico. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Sem-provas-mas-convicto-Dallagnol-e-a-nova-cara-do-autoritarismo-judiciario


NOTAS:


[1] Don Ramón, La Chilindrina e el Chavo (leia-se “Tchavo”) no original em espanhol, respectivamente.
[2] Conceito utilizado por Muammar al-Kadaffi no Livro Verde para designar o individuo, grupo ou classe social que assume o poder em determinado país e passa a governa-lo de acordo com seus interesses particulares e em prejuízo do resto da população (al-Kadaffi, 1984: 5-6).

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O feminismo desvirtuando instituições.

Em plena época onde a Terceira-Via ideológico política tenta popularizar nomes e propostas nacionalistas ignoradas pela quase totalidade da população, o nome "Júlio Castilhos" foi repercutido num contexto deletério e absolutamente diferente do que gostariam os que pretendem reavivar a memória de seu legado. Trata-se do caso ocorrido na cidade sulista que leva seu nome, sobre o "promotor que humilhou vítima de estupro".
Diferente do que fizeram a grande maioria das nossas fontes "jornalísticas", vamos no ater diretamente ao relatório da Desembargadora Jucelana Lurdes Pereira dos Santos, que obtive no link
do Estadão 01, até onde vi o único a disponibilizar o Acórdão em seu inteiro teor, em PDF, no que merece ser elogiado por estar um tanto acima do baixíssimo nível jornalístico geral. Também estou disponibilizando cópia da decisão, na íntegra, em meu próprio site 02.
Vejamos então os fatos básicos, a quase totalidade deles por completo omitidos nas notícias mais populares na internet, com especial e honrosa exceção do jornal Zero Hora 03, que forneceu uma visão mais ampla do ocorrido, com reportagens bem mais detalhadas, e com um enfoque diferente da cobertura da maior parte do restante da mídia.
O QUE DE FATO OCORREU
Em Novembro de 2012 o Conselho Tutelar da comarca de Júlio de Castilhos - RS, município cujo nome remete ao inspirador do Castilhismo 04, descobriu por meio de denúncia anônima que uma jovem de então 12 anos vinha sofrendo abusos sexuais há cerca de ao menos um ano. Grávida, teve acesso ao aborto legal pelo SUS, visto que seria vítima de estupro presumido e com isso implicou seu próprio pai, que já tinha antecedentes de más condutas sexuais com outras moças da família. Formalmente a denúncia foi recebida pela justiça em 05/03/2013, o réu foi autuado por meio de provas testemunhais em 08/09/2014, e teve prisão efetivada em 27/04/2015. 05
Originalmente, o pai havia sido condenado a 27 anos de prisão, mas recorrendo da decisão, a pena foi posteriormente reduzida a 17 anos. No julgamento desse recurso, e em 20/02/2014, o promotor Theodoro Alexandre da Silva Silveira (que tinha como objetivo condenar o réu) foi surpreendido pelo fato de que a principal testemunha de acusação, a própria menor vítima do fato, simplesmente voltou atrás, dizendo que o pai não era realmente o culpado, o que implicaria no fato óbvio de que a justiça condenara um inocente. Pressionada, a jovem alegou que o verdadeiro pai da criança abortada teria sido outro jovem, um namorado da escola, mas se recusou a fornecer o nome.
Alegou também ter se arrependido de ter feito o aborto. O promotor se enfureceu ao ponto do descontrole e proferiu uma série de gravíssimas ofensas e ameaças contra a jovem de então 14 anos, que por algum estranho motivo estava desacompanhada de um responsável.
Como se segue em transcrição de trecho da gravação 06, onde o nome da vítima foi abreviado para 'A.', e 'MP' é abreviatura de Ministério Público, que no caso trata-se do promotor Theodoro em questão.
Juíza: Amanda tem uma acusação aqui contra o J. L. S, ele é teu pai? Diz aqui que entre o mês de janeiro de 2011 até o mês de outubro de 2012, por várias vezes, ele teria te estuprado. Inclusive, tu já foi ouvida e foi autorizado o aborto em relação a isso. Eu queria que tu contasse o que aconteceu, se é verdade isso, como tudo aconteceu, até porque teve uma morte também né, foi autorizado um aborto, que foi feito em Porto Alegre (...) disso.
Vítima:  eu vim aqui eu falei o que aconteceu...
Juíza:  fala mais alto
Vítima:  ...e depois de um tempo eu falei pra mãe e contei pra ela que não tinha acontecido nada disso, que eu acusei ele sem ter feito nada pra mim, por causa que eu fiquei com medo, porque eu tinha ficado grávida e eu não queria a criança, queria prosseguir meus estudos, e aí ele ia ser preso por uma coisa que não fez.
Juíza:  tu tá dizendo que.... pelo Ministério Público
MP: A. tu tá mentindo agora ou tava mentindo antes
Vítima: ... mentindo antes, não agora
MP: tá, assim ó, tu pegou e tu fez, tu já deu um depoimento antes (...), tu fez eu e a juíza autorizar um aborto e agora tu te arrependeu assim? tu pode pra abrir as pernas e dá o rabo pra um cara tu tem maturidade, tu é auto suficiente, e pra assumir uma criança tu não tem? Sabe que tu é uma pessoa de muita sorte Amanda, porque tu é menor de 18, se tu fosse maior de 18 eu ia pedir a tua preventiva agora, pra tu ir lá na FASE, pra te estuprarem lá e fazer tudo o que fazem com um menor de idade lá. Porque tu é criminosa... tu é. (silêncio).... Bah se tu fosse minha filha, não vou nem dizer o que eu faria.... não tem fundamento. Péssima educação teus pais deram pra ti. Péssima educação. Tu não aprendeu nada nessa vida, nada mesmo. Vai ser feito exame de DNA no feto. Não vai dar positivo nesse exame né?..... ou vai?... Vamo A. tu teve coragem de fazer o pior, matou uma criança, agora fica com essa carinha de anjo, de ah... não vou falar nada. Não vai dar positivo esse exame de DNA, vai dar negativo né!? Vai dá o quê nesse exame Amanda?
Vítima: negativo
MP: tá e quem é o pai dessa criança?
Vítima: é um namorado que eu tinha no colégio.
MP: como é o nome desse namorado?
Vítima: ah, isso não vem ao caso agora
MP: como não vem ao caso Amanda? Tu fez a gente matar uma pessoa e agora diz que não vem ao caso, quem tu pensa que tu é...quem é esse cara?
Vítima: eu não quero envolver ele
Juíza:  tu não tem....
MP: tu não tem querer, tu fez a gente matar uma pessoa. Tu vai dizer o nome desse cara. Quem é esse cara?
Vítima: eu não quero responder
MP: tu vai responder em outro processo. Eu vou me esforçar o máximo pra te por na cadeia A. se não for pronunciar o nome desse piá. Tô perdendo até a palavra. Tu vai pro CASE se não der o nome desse piá. Como é o nome desse piá... (silêncio).... vamo A. além de matar uma criança tu é mentirosa? Que papelão heim? Que papelão... só o que falta é aquele exame dar positivo, só o que falta! Agora assim ó, vou me esforçar pra te “ferrá”, pode ter certeza disso, eu não sou teu amigo.
Posteriormente o resultado do exame de DNA feito no feto abortado iria comprovar que este era mesmo do pai da menina, mas na época do julgamento em questão, como fica claro nos autos, tal resultado ainda não era conhecido. Ou seja, a jovem estava de fato mentindo e tentava inocentar o pai, provavelmente, como a própria desembargadora Jucelana deixa claro 07:
...verifica-se que ela negou a prática do estupro na intenção de proteger o ofensor pelos laços familiares que os unem, por se sentir culpada pela prisão dele, por destruir a família, o que se mostra compreensível, tendo em vista a ambivalência sentimental da criança/adolescente, a qual fica dividida entre o amor que sente pelo genitor e a raiva pela violência física ou emocional exercida por ele.
Ademais, não é raro em delitos desta espécie, os próprios parentes atribuírem à vítima a responsabilidade pela desestruturação da família, hipótese em que a criança/adolescente procura se retratar das acusações, visando a restabelecer a unidade familiar antecedente à descoberta dos abusos.
Em seguida a magistrada até mesmo cita as pesquisadoras Maria Helena Mariante Ferreira e Maria Regina Fay de Azambuja autoras de Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, e prossegue explicando a situação de precariedade e manipulação por parte da própria familiar, destacando inclusive a mãe, que explicariam sua mudança de depoimento. Concluindo categoricamente que 08:

Destarte, não convence a retratação da vítima, tampouco a negativa de autoria (CD, fl. 207), pois o conjunto probatório é robusto para demonstrar que o réu manteve relações sexuais com a própria filha.
Assim, a retratação terminou desconsiderada, até por ter sido ainda mais nulificada pelo resultado positivo do exame de DNA. O motivo da redução da pena de 27 para 17 anos foi basicamente técnico, como explicado nas páginas 9 a 11 do Relatório, resultando de uma correção de aparente erro nos cálculos de agravantes. No mais, todos os elementos acusatórios foram preservados, e 17 anos num país famoso por sua impunidade e penas leves não é algo a ser desconsiderado.
Por fim, a conduta do Promotor foi severamente repreendida nos autos, tanto pela desembargadora Jucelana quanto especialmente por parecer aditivo do Desembargador José Antônio Daltoé Cezar, que declara 09:
O que se percebe, em relação ao Dr. Promotor de Justiça, que além de não ter lido atentamente o processo, embora se disponha a participar de feito em que se investiga a prática de violência sexual contra crianças e adolescentes, não tem conhecimento algum da dinâmica do abuso sexual, bem como confunde os institutos de direito penal, além de desconsiderar toda normativa internacional e nacional, que disciplina a proteção de crianças e adolescentes.
E prossegue então corroborando a visão de que a retratação da vítima obedecia a uma manipulação sentimental que se aproveitou de sua situação de vulnerabilidade. Mais adiante, o desembargador até mesmo reverbera conceitos bastante caros às feministas, ao declarar 10:
Equivocou-se também o Dr. Promotor de Justiça, gravemente, quando referiu à vítima que ela seria uma criminosa, teria matado uma pessoa, como se ela tivesse praticado um homicídio.
O feto humano, embora seja protegido, por institutos de direito civil e penal, ainda não é uma pessoa, o que somente ocorrerá quando vier a nascer, com vida.
O que apesar de estar em desacordo com nossa ordem jurídica que trata sim o feto como pessoa detentora de direito à vida, caso contrário a mera rejeição ao aborto incondicional não faria sentido, termina sendo relevante diante do fato de que neste caso há um excludente de penalidade previsto no código penal. Se o aborto neste caso é um homicídio ou não é uma outra discussão, mas efetivamente o Procurador em questão se excedeu ao ofender a vítima uma vez que seu procedimento foi autorizado pela justiça. O que espero, fique claro, é que há aqui um ponto controverso no qual o desembargador em questão se posiciona de modo bastante favorável ao enfoque feminista e abortista.
E mais declarou o desembargador Daltoé Cezar 11:
Fosse o pai da vítima quem nela provocou a gravidez, o que efetivamente se confirmou, fosse outro homem, qualquer fosse ele, teria a vítima direito a postular o aborto legal, pois tendo ela engravidado aos treze anos de idade, foi vítima de estupro, na forma estabelecida no artigo 217-A do Código Penal.
Portanto, a irresignação apresentada pelo Dr. Promotor de Justiça na solenidade, dizendo que iria “ferrá-la” e não descansaria enquanto ela não dissesse quem a engravidou, e que faria o possível para colocá-la na cadeia, apresentou-se ilegal e inadmissível.
Lembremos, ela, uma menina com quatorze anos quando do depoimento, era vítima de um estupro, concorde o não o Dr. Promotor de Justiça com a figura do aborto legal.
Por fim, conclui impecavelmente o magistrado 12:
Por sua vez, o Estatuto da Criança e do Adolescente dispõe, no artigo 18, que é dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Na audiência na qual a vítima foi inquirida, quando se viu ela injuriada, caluniada, ameaçada e constrangida, percebe-se claramente que o seu direito de falar sobre a experiência não observou, em nenhum momento, o dispositivo legal acima referido.
E quando isso tudo se passou na audiência de inquirição da vítima, principalmente pela a ação do Dr. Promotor de Justiça, percebeu-se também que a magistrada que presidiu a solenidade, omitiu-se totalmente, permitindo que isso acontecesse na sua presença.
O desembargador então finaliza fazendo quatro orientações 13, que sintetizo aqui como:
a) encaminhar ao Conselho Nacional do Ministério Público para examinar a responsabilidade profissional do Promotor;
b) encaminhar à Corregedoria-Geral da Justiça para examinar a responsabilidade da Magistrada (que pecou por omissão ao não se manifestar diante das ofensas proferidas);
c) " à Procuradoria-Geral da Justiça para examinar a responsabilidade CRIMINAL do Promotor (ofensa do artigo 232 do ECA: ameaça, injúria e calúnia);
d) encaminhar por meio de oficial de justiça que a 7ª Câmara lamenta profundamente a forma como a jovem foi recepcionada pelo sistema de justiça, cabendo indenização pecuniária junto ao Promotor.
A TARDIA DIVULGAÇÃO DO OCORRIDO
Encerrando aqui essa breve exposição, que pode ser conferida ao se examinar na íntegra o Relatório em questão 02, o que temos efetivamente é que um crime de estupro foi reconhecido, levando a prisão do perpetrador, o aborto legal foi autorizado. O recurso do acusado foi em sua essência, negado, e o evidente destempero do procurador do Ministério Público devidamente apontado e já encaminhado para as medidas cabíveis.
Tal atitude, universalmente condenada por TODAS as instâncias e opiniões que se manifestaram, chegou até a ser explicada por alguns órgãos de notícias, como um artigo do Conjur 14 de deixou claro: "O recuo da vítima levou o promotor a adotar a postura condenada pelos desembargadores, acusando a menina de tentar proteger o pai."
Ou, a exemplo da boa reportagem do Jornal Zero Hora 15, a jovem: "...então obteve autorização judicial para fazer um aborto. Depois disso, quando ouvida novamente na Justiça, negou o abuso por parte do pai (supostamente pressionada pela família). Foi isso que causou a irritação do promotor na audiência, ocorrida em 2014."
A simples leitura dos fatos supracitados nos autos, devidamente documentados, mostra que por mais que tenha sido descabida a agressão verbal perpetrada pelo promotor, esta se deu pelo fato deste ter visto AMEAÇADA SUA PRETENSÃO DE CONDENAR O ESTUPRADOR! Bem como do fato de possivelmente TER HAVIDO UMA FALSA ACUSAÇÃO, pois a jovem afirmou claramente que mentira antes, e talvez ainda pior, haver tanto um inocente condenado quanto um culpado à solta. E isso sem contar na implicação dela ter mentido para justificar um aborto ainda que isso fosse completamente desnecessário, visto que teria sido estupro presumido independente de que fosse possível encontrar o culpado ou não.
Tudo isso não justifica, mas explica a reação do Promotor, mesmo que temperada por um viés severamente anti-aborto, assim como a maioria esmagadora da população brasileira, que aparentemente se viu diante de uma situação de perplexidade, de seu ponto de vista, contemplando uma possível severa injustiça associada a impunidade e oportunismo.
Apesar de todo o exposto, dois anos e meio depois, em 31 de Agosto de 2016, o fato finalmente veio a conhecimento público justo por meio deste documento publicado mais de três meses antes, em 05/05/2016, e um caso que envolve aborto, estupro e um rompante de fúria facilmente interpretável como misoginia não teria como não ser irresistível de ser feministicamente explorado.
A DELIBERADA DISTORÇÃO DOS FATOS
E assim, como portais de notícias feministas divulgaram o ocorrido? Retratando fielmente o fato? Apontando a pronta punição do abusador? Demonstrando o uso do direito ao aborto legal? Evidenciando, em conjunto com as infelizes declarações do promotor, a pronta reação dos magistrados em tomar as providências cabíveis para penalizá-lo? Ou, melhor ainda: destacando que sua infeliz postura foi universalmente repreendida, condenada, considerada inaceitável, e está isolada enquanto uma visão deturpada e ignorante dos fatos apresentados?
Claro que não. O pensamento feminista reage dizendo DELIBERADAMENTE que a jovem foi ofendida POR TER SIDO ESTUPRADA E POR TER FEITO O ABORTO! Mais uma "prova" da Cultura de Estupro, do "Machismo" SISTEMÁTICO 16 da sociedade e do Judiciário, do onipresente Patriarcado Opressor!
A Revista Fórum, além de apelar ao estúpido lugar comum de "machismo"17, disse que: "Para o promotor, a garota era culpada pelo caso, teria mentido e ‘facilitado’ o abuso." 18 E se não foi resultado de incompetência e irresponsabilidade, só pode ser canalhice, uma vez que fica claro nos autos que nesse momento a moça já havia confessado ter mentido e o promotor já pensava sob a ótica dela ter engravidado em relação consensual de um namorado que era acobertado!

Aliás, basta observar o registro dos autos originais para notar que algumas reportagens de inegável teor feminista, como o Pragmatismo Político, Fórum, Exame e outros desavergonhados sem o menor pudor em fraudar descaradamente a realidade em nome de sua ideologia psicótica, deliberadamente isolam a citação de forma a alterar o contexto.

Muitos órgãos de imprensa replicaram apenas as partes grifadas do documento, e como se vê as frases imediatamente anteriores às destacadas alteram significativamente o contexto das falas.
Já não bastassem os famigerados fanfics19, onde militantes feministas inventam estórias fajutas com narrativas que corroboram suas visões delirantes de mundo e postam diretamente nas redes sociais relatando falsos crimes que não se dão ao trabalho de denunciar à polícia, ainda temos essa disposição falsária em distorcer completamente os fatos para enquadrar em suas falsificações da realidade.
Não importa que a quase totalidade da sociedade tenha uma postura condenatória claríssima em relação ao estupro, evidente no sistema judiciário, na pronta ação policial, na aprovação popular a punições severas contra estupradores que variam desde o linchamento sumário de suspeitos, frequentemente inocentes, até o endosso a violação corretiva de presos, muitos também inocentes, nas cadeias. Basta um único caso promovido por um psicopata desviante ou mesmo uma citação fora de contexto para declarar que TODA a sociedade é conivente com a inverossímil "Cultura do Estupro". O que evidentemente demanda ONGs, secretarias, delegacias, e dinheiro, muito dinheiro, inclusive público, para abastecer campanhas e políticas absolutamente inúteis ou que até mesmo pioram o problema.
Assim vive o Feminismo fazendo o que faz de melhor, desvirtuar a realidade, insultar as instituições, pessoas e memórias. Uma ideologia nefasta financiada desde o estrangeiro por elites plutocráticas liberais que visam corromper a sociedade, trombeteando na mídia e contribuindo para o completo obscurecimento de pautas efetivamente necessárias. Bem como doutrinas nacionalistas legítimas, como a de Júlio Prates de Castilhos, que verdadeiramente representam a mentalidade do povo brasileiro, e que a partir de agora corre o risco de ter seu nome maculado pela evocação de um ocorrido relatado de forma amplamente fraudulenta e mal intencionada.
Marcus Valerio XR
xr.pro.br
Setembro de 2016
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REFERÊNCIAS
02.       http://xr.pro.br/Ensaios/Aborto/Relatorio_Caso_em_Julio_Castilhos.pdf
04.       O município hoje intitulado assim https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_de_Castilhos_(Rio_Grande_do_Sul) , deriva seu nome de Júlio Prates de Castilhos https://pt.wikipedia.org/wiki/J%C3%BAlio_de_Castilhos , que legou o Castilhismo, https://pt.wikipedia.org/wiki/Castilhismo , doutrina que teve forte influência sobre Getúlio Vargas e se caracterizava por uma visão virtuosista da política, que só poderia ser exercida por homens desinteressados de quaisquer benefícios pessoais diretos, de forte espírito público, e de influência positivista. Uma boa explanação sobre o castilhismo e sobre Júlio de Castilhos pode ser vista em http://pensadordelamancha.blogspot.com.br/2013/10/a-saga-do-castilhismo-no-seio-do-estado.html
05.       Página 3 do Relatório.
06.       Páginas 17 e 18 do Relatório.
07.       Página 5 do Relatório.
08.       Página 6 do Relatório.
09.       Página 19 do Relatório.
10.       Página 20 do Relatório.
11.       Página 21 do Relatório.
12.       Página 22 do Relatório. Grifo conforme original.
13.       Íntegra na Página 23.
16.       Assim o disse, literalmente o http://www.esquerdadiario.com.br/Promotor-do-RS-pra-da-o-rabo-tu-tem-maturidade-E-pra-assumir-crianca-tu-nao-tem
17.       O Que É Machismo? http://xr.pro.br/JULHO2016.HTML#01
18.       http://www.revistaforum.com.br/2016/09/09/vitima-de-estupro-menina-de-14-anos-e-humilhada-por-promotor-durante-audiencia/

19.       Originalmente o termo, que significa fan fiction, "ficção de fã", se refere a estórias originais criadas por apreciadores de certas obras famosas, em geral de Ficção Científica ou Fantasia, que adaptam personagens e ambientações e consagradas em novas narrativas. Nos últimos anos a palavra também passou a designar estórias falsas produzidas por militantes feministas que inventam crimes, em geral de violência contra mulher ou homossexuais, e postam nas redes sociais em busca de compartilhamentos, afim de contaminar a opinião pública com lendas que sirvam de confirmação para suas ideologias. É como inclusive postarem fotos com ferimentos e outras evidências simuladas.

domingo, 4 de setembro de 2016

Recordar é viver, parte 3 - O golpe de Estado na Venezuela em 2002 e como o Comandante Chávez a ele sobreviveu.


Foto – Comandante Hugo Chávez Rafael Frias (1954 – 2013).
Em 11 de abril de 2002, a nascente Venezuela bolivariana foi vítima de um golpe de Estado de caráter civil-militar. Quatro anos antes do evento em questão, fora eleito à presidência da Venezuela o coronel Hugo Chávez Rafael Frías, com 56% dos votos válidos, onde derrotou os políticos tradicionais representantes das elites venezuelanas. A Venezuela, embora um país riquíssimo em petróleo e outros recursos naturais, era ao mesmo tempo um país extremamente miserável socialmente falando, como se fosse uma versão sul-americana das petro-monarquias do Golfo Pérsico. Meia dúzia de famílias dominavam o país, as quais enriqueciam com a atividade petroleira (o principal produto de exportador do país, do qual a economia venezuelana era refém) que comumente faziam suas próprias compras de supermercado não em seu próprio país, e sim em Miami (no que fazia a linha área Caracas-Miami a mais movimentada do mundo). Ao mesmo tempo, a maioria da população vivia na mais extrema miséria. Também não havia preocupação alguma com o desenvolvimento interno do país, a industrialização era mínima e a produção agrícola inexistente, já que a economia venezuelana (que nos anos 1980 e 1990 conheceu os horrores das políticas neoliberais implantadas por presidentes tais como Carlos Andrés Pérez, no que gerou inflação e desemprego para o povo) era praticamente que toda voltada para os países ricos, em especial os EUA.
E é esse mesmo país de miséria e extrema pobreza que a Revista Veja afirmou, ainda durante o governo Chávez, que “A Venezuela era, até o final do século XX, uma exceção na América Latina. Durante quatro décadas, entre 1958 e 1998, o país foi um exemplo de estabilidade política e de democracia no meio de um continente mergulhado em ditaduras militares. Seu relógio político obedecia a um fuso horário diferente do que seus vizinhos”. Logo após o fim desse período, de acordo com o colunista da Veja, teria se iniciado a “ditadura chavista”. Ou seja, uma idealização do período em questão muito distante da realidade.
Pouco após sua eleição à presidência da Venezuela, Hugo Chávez decidiu assumir o controle da petrolífera estatal PDVSA (Petróleos de Venezuela) com seus próprios executivos. Ele afirmava que a renda do petróleo não deveria ser investida para o enriquecimento de uma pequena elite ligada à atividade petroleira, e sim aplicada em investimentos sociais tais como saúde, moradia e transporte. No que acabou enfurecendo muita gente poderosa, que reagiram com um locaute promovido pela Fedecamaras (espécie de equivalente venezuelano da FIESP).
Tudo começou com um protesto diante da PDVSA, pedindo a renúncia de Chávez. Logo em seguida, a oposição, desconhecendo compromisso firmado anteriormente com a polícia local, decidiu marchar com manifestantes até o palácio de Miraflores. Franco-atiradores postados sobre um prédio atiraram na cabeça de manifestantes dos dois lados. Entretanto, Chávez não estava sozinho, pois chavistas cercavam Miraflores. Tal como aconteceu mais recentemente em episódios como o Euromaidan na Ucrânia, a tática da falsa bandeira foi igualmente aplicada no episódio em questão. Através de manipulação descarada de ângulos de câmera por parte das emissoras privadas, culpou-se chavistas pelas mortes causadas pelos disparos de franco-atiradores, no que causou grande comoção internacional. Foi a senha para os rebeldes atacarem o Palácio Miraflores e prenderem Chávez, o levando de helicóptero para a prisão. No lugar de Chávez, foi empossado por um grupo de militares anti-chavistas Pedro Carmona, presidente da Fedecamaras, na presidência da República venezuelana. Os golpistas também dissolveram a Assembléia Nacional, o Supremo Tribunal e a Constituição promulgada em 1999. Entretanto, o golpe durou apenas 47 horas e Hugo Chávez foi reconduzido ao poder dois dias depois.
Em tais acontecimentos, a grande mídia, tal como aconteceu aqui no Brasil nos eventos que levaram ao suicídio de Vargas em 1954, no golpe civil-militar de 1964 que levou a deposição de João Goulart e no golpe lento e silencioso que os governos Lula e Dilma vinham sofrendo desde quando o escândalo do mensalão estourou em 2005 e no Chile no golpe que levou à queda de Salvador Allende em 1973, desempenhou papel importantíssimo. Nas semanas que antecederam o golpe, a mídia privada venezuelana (entre elas a RCTV, que cinco depois teve sua concessão não renovada pelo governo), conferiram ampla cobertura às manifestações anti-Chávez, ao mesmo tempo em que ignoraram as manifestações a favor de Chávez. Em 11 de abril, esses mesmos canais fizeram ampla divulgação e cobertura de mensagens de repúdio a Chávez e a convocação para redirecionar a marcha contrária a Chávez para o Palácio de Miraflores (palácio presidencial da Venezuela), assim como houve uma série maciça de anúncios não-pagos difundidos pela televisão convocando os venezuelanos a participarem da insurreição. Muitos jornalistas chamaram o acontecimento de “golpe da mídia”, afirmando que a mídia privada venezuelana cometeu auto-censura das informações com os golpes e até mesmo sendo os principais promotores.
Após a irrupção do golpe, militares de oposição ocuparam a rede estatal venezuelana de televisão (Venezolana de Televisión), ao mesmo tempo em que rádios e redes comunitárias eram fechadas, no que atrapalhou fortemente a difusão da notícia de que Chávez não tinha renunciado do cargo de presidente, que por sua vez era feita através do boca-a-boca. Graças à cooperação de funcionários do Palácio de Miraflores leais à Chávez, a filha do presidente deposto conseguiu falar com o pai através de um telefonema. Sabendo que Chávez não renunciou, conseguiu entrar em contato com Fidel Castro e em seguida, com a televisão cubana. O procurador-geral da República Venezuelana tentou informar ao público que Chávez não renunciou, convocando uma conferência de imprensa, mas seu pronunciamento foi cortado.
A imprensa venezuelana não informou ao público a respeito das tentativas dos militares contrários ao golpe de retomar o Palácio de Miraflores, a ponto de as quatro maiores redes de televisão pararem de transmitir quaisquer notícias sobre a situação política. Isso ao ponto de a CNN ter se mostrado surpresa com o fato de que a imprensa local não ter dito nada a respeito de que uma importante divisão das Forças Armadas venezuelanas em Maracay havia se rebelado contra o golpe e que a rede estadunidense havia noticiada. As forças chavistas emitiram uma declaração conjunta demandando a “restauração da democracia”, e tal notícia apenas foi divulgada pela CNN. Chávez apenas conseguiu informar à população do que havia ocorrido através da rede de televisão estatal por volta das oito horas da manhã do dia 13 de abril, já restituído à presidência da nação. O envolvimento da imprensa com o golpe foi tamanho que o jornalista Maurice Lemoine, em artigo publicado no Le Monde diplomatique, afirmou que “nunca, mesmo na história latino-americana, a imprensa esteve tão diretamente um golpe” e que “embora as tensões do país pudessem facilmente conduzir a uma guerra civil, a mídia ainda está encorajando diretamente os dissidentes do governo a derrubar o presidente democraticamente eleito – se necessário, pela força”.
E como Hugo Chávez sobreviveu a esse golpe? Primeiro de tudo, chamando o povo para defender seu mandato e através de informações contrabandeadas por motoqueiros e utilização subversiva da Internet. Como resultado, logo após o golpe ser consumado, um levante a favor de Chávez teve lugar em Caracas, que a Polícia Metropolitana tentou suprimir. Outros protestos de partidários do presidente Chávez se seguiram, além de pressão internacional (apenas EUA e Espanha reconheceram o breve governo de Carmona, ao passo que o golpe foi condenado pelos demais países latino-americanos). A Guarda Presidencial pró-Chávez retomou o palácio de Miraflores, sem disparar um tiro, e na manhã de 14 de abril de 2002 Hugo Chávez recuperou a presidência da República Bolivariana da Venezuela. O resto da história todos nós sabemos: Hugo Chávez, depois de reempossado em seu cargo, governou a Venezuela por mais 11 anos até vir a falecer.
E para que falar a respeito desse fato ocorrido há 14 anos? Obviamente, por causa dos eventos que temos visto aqui no Brasil desde no mínimo 2013 e que levaram à patética queda de Dilma Rousseff e do PT, assim como mostrar a diferença qualitativa entre o regime bolivariano da Venezuela de um lado e de outro os governos Lula e Dilma no Brasil em questões como a maneira como que se lida com o elemento reacionário. A começar pelo fato de que enquanto o regime bolivariano não se furtou da luta contra o elemento reacionário em seu país, o mesmo não se verificou com o PT aqui no Brasil. Pelo contrário, os petistas, antes mesmos de assumirem o Palácio do Planalto, abandonaram tal confronto.
Assim sendo, eu não derramo uma única lágrima pela patética queda de Dilma Rousseff e do PT. E muito menos não derramo lágrima alguma pela democracia brasileira como muitos fazem por ai. Pelo contrário, penso eu que essa choradeira pela democracia brasileira é tão ou mais patética quanto a queda de Dilma. Até porque a democracia vigente no Brasil e no Ocidente de modo geral, como já explicado em artigos anteriores, é uma grande e grotesca farsa. Nada mais é que a ditadura de classe enrustida do capital, onde esse faz do Estado seu balcão de negócios de particular (parafraseando Karl Marx), onde essa, na condição de máquina de governar[1], acaba fazendo com que as políticas desse Estado estejam em seu favor acima de tudo, mesmo que a cadeira presidencial venha a ser ocupada por um operário como o Lula. E nisso aqueles que choram pelo destino da democracia ante a queda de Dilma se igualam a Revista Veja quando chora o fato de que depois que Chávez assumiu o poder na Venezuela a democracia acabou na Venezuela. Ou mesmo a figuras como Jair Bolsonaro e seus filhos, que acima de tudo são defensores desse mesmo modelo de democracia burguesa. Como Gilberto Felisberto Vasconcellos disse em seu artigo publicado na edição número 230 da Caros Amigos, “Ao PT bastou a existência de uma democracia capitalista, ficou obcecado com a ditadura entendida como violência física e supressão do parlamento”. Ou seja, aos petistas e a aqueles que choram pelo destino da democracia brasileira jamais lhes passou pela cabeça que uma ditadura pode exercer seu poder de formas mais sutis (e mesmo com instituições funcionando e realizações periódicas de eleições para cargos como presidentes, senadores, governadores, deputados e prefeitos), sem se assumir enquanto tal perante a população.

Foto – “Democracia, descanse em paz (1988 – 2016)”. Imagem postada no Facebook por aqueles que choram pelo destino da democracia brasileira ante o golpe midiático-judiciário desse ano.
O que aqueles que choram pela deposição de Dilma não entendem é que ela, tal como seus antecessores, não passou de uma gestora que administrava o estado burguês em nome da classe dominante nacional. Em momento algum ela e Lula tiveram o poder de fato no Brasil. Enquanto a conciliação de classes foi conveniente para as classes dominantes e o processo de acumulação capitalista, o PT lhes foi extremamente útil. E certamente a essa mesma classe não interessou a queda do PT ainda na época do escândalo do mensalão. Mas agora os tempos são completamente diferentes. Ante os efeitos da crise internacional que chegaram ao Brasil com força principalmente a partir de 2012/2013, as águas mansas da era petista (parafraseando Gilberto Felisberto Vasconcellos) chegaram ao fim. Período esse que simbolicamente foi encerrado com as jornadas de junho de 2013, as quais destruíram o conto de fadas da paz vendido pelos petistas e mostraram ao Brasil que o conflito de classes que o próprio PT anestesiou com sua política social voltou com força. E voltou para ficar, diga-se de passagem. Agora a classe dominante interessa que a cadeira presidencial em Brasília seja ocupada por um legítimo representante seu, ainda mais afinado com seus interesses de classe e que promova os arrochos que ela exige em nome de sua acumulação de capital, ao contrário do PT, que também promoveu essa mesma política, só que não no ritmo que desejava a classe dominante. O mesmo PT que achou que durante esse tempo todo conquistou a simpatia da classe dominante, sendo que nesse tempo todo não passou do idiota útil dessa mesma classe que foi usado até o momento em que lhe foi conveniente. Nunca que um partido de origem popular como o PT seria plenamente aceito pela classe dominante, bem diferente de partidos como o DEM, o PSDB e o PMDB, partidos de elite por excelência e, portanto totalmente afinados com os interesses do poder econômico nacional.
O que as toupeiras que tanto choram pelo destino da democracia brasileira e de Dilma Rousseff precisam entender é que a classe dominante brasileira, do alto de seu pendor escravocrata e seu histórico entreguismo para as grandes potências, para atingir seus objetivos não tem o menor pudor em utilizar-se dos mais baixos e espúrios expedientes. Nem que para isso tenha que recorrer a golpes cívico-militares como em 1964 e um golpe judiciário-midiático como nesse ano, ou mesmo rasgar constituições, destituir presidentes (quer sejam eles eleitos ou não) e ações do tipo. Quem sabe até colocar na presidência do país um sujeito como o Bolsonaro.
E isso para não falar a respeito da diferença de Dilma com governantes de outras partes do mundo tais como o venezuelano Nicolás Maduro e o sírio Bashar al-Assad. O primeiro em seu país enfrenta as dificuldades que a morte de Hugo Chávez inevitavelmente trouxe, incluindo uma guerra econômica promovida pelas elites venezuelanas (em nada diferente daquela aplicada pela elite chilena contra o governo Allende nos anos 1970), terrorismo de Extrema Direita (a exemplo de episódios como as guarimbas de fevereiro de 2014, que resultaram na morte de 40 pessoas e que foram incentivadas pelo ex-prefeito da cidade de Chacao Leopoldo López, no que lhe valeu sua prisão), a difamação midiática internacional promovida por aquilo que o presidente Maduro chama de “eixo Madrid-Bogotá-Miami”, a vergonhosa cobertura que a imprensa comercial venezuelana faz (onde são ocultadas ao público fatos como as manifestações em favor do governo bolivariano) e é claro a pesada ingerência ianque em seu país, interessado no petróleo venezuelano e no realinhamento geopolítico das nações latino-americanas em seu favor (e que conta com seus quintas-colunas dentro do país, a exemplo de figuras como Leopoldo López, Henrique Capriles e Maria Corina Machado). E o segundo, por seu turno, enfrenta há meia década uma terrível guerra civil que começou com os protestos da primavera árabe em 2011 (que em realidade não passou de uma grande revolução colorida) e que já ceifou a vida de milhões de pessoas, luta contra a fina flor do terrorismo islâmico de matiz salafista (entre eles grupos como a Al Qaeda e o Estado Islâmico) e o separatismo curdo, todos eles apoiados por países como Israel, as petro-monarquias do Golfo Pérsico, França, Inglaterra e Estados Unidos. E tal como acontece com a Venezuela, também sofre com a difamação da imprensa internacional. Ou seja, uma barra infinitamente mais pesada que a que Lula e Dilma, que foram alijados do poder por um memorando do Senado brasileiro combinado com uma ação midiático-judiciária que os sangrou como se fosse um touro de tourada desde o mensalão, enfrentaram aqui no Brasil.
O que Dilma Rousseff foi fazer no Senado, para começo de conversa? Certamente esteve lá para ser humilhada por chacais como Ronaldo Caiado, Antônio Anastasia, Magno Malta, Aloysio Nunes e toda a malta golpista que queria a todo custo sua cabeça. O que houve de fato foi um julgamento de cartas marcadas, onde o resultado já estava pré-determinado antes mesmo de começar e que serviu para dar uma aparência legal ao impeachment.  Desde o início do processo ao qual foi submetida, Dilma deveria ter chamado o povo para lutar pela defesa de seu mandato, no que certamente deixaria a malta golpista intimidada. Agora, ante o resultado de um julgamento cujo resultado certamente já estava pré-definido antes mesmo de começar, espero que haja o eclipse da inocência da esquerda brasileira (parafraseando Nildo Ouriques). Pois se continuarmos a insistir na via eleitoral e em políticas de conciliação de classe, o filme dos 13 anos de PT no Palácio do Planalto se repetirá ad eternum. E por fim, queria deixar aqui nossa solidariedade não apenas para com a Venezuela e a Síria, como também a Bolívia, o Equador e a todas as nações que resistem ao cerco do poder anglo-americano e sua estratégia de caos. Assim como o total repúdio ao golpe perpetrado pelo Senado brasileiro.

Foto – Nicolás Maduro e Bashar al-Assad.
Fontes:
Acirrada luta de classes na Venezuela. Disponível em: http://www.iela.ufsc.br/noticia/acirrada-luta-de-classe-na-venezuela
Caros Amigos. Nº 230. São Paulo: Casa Amarela, 2016. Página 9.
Golpe de Estado na Venezuela de 2002. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Golpe_de_Estado_na_Venezuela_de_2002
Golpe em 2002 na Venezuela revela o que pode acontecer no Brasil. Disponível em: http://www.pragmatismopolitico.com.br/2016/03/golpe-em-2002-na-venezuela-revela-o-que-pode-acontecer-no-brasil.html
Hugo Chávez narra como fue el golpe de Estado en Venezuela (em espanhol). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f-zVAfKohqc
Venezuela, que ditadura? Disponível em: http://www.iela.ufsc.br/noticia/venezuela-que-ditadura
Willians Gonçalves – Tema: Eleições na Venezuela. Disponível em: https://soundcloud.com/programafaixalivre/fl-15042013_4-willians-goncalves-tema-eleicao-na-venezuela-1




[1] Termo muito utilizado por Muammar al-Kadaffi no Livro Verde para se referir a determinado grupo ou facção que toma o governo de uma nação e passa a direcionar as políticas em seu favor. Em outras palavras, um governo de facção.