sábado, 13 de janeiro de 2018

Carta a Gabriel o Pensador - "Matei o presidente parte 2"


Olá, Gabriel o Pensador, meu nome é Eduardo e já faz muitos anos que escuto tuas músicas e as aprecio. Em minha humilde opinião, uma das músicas que mais aprecio da tua obra é “Até Quando” e sua letra arrebatadora. Também gosto de “Nádegas a declarar” (música essa que depois de 20 anos continua bem atual, diga-se de passagem, tendo em vista o recente clipe da Anitta, “Vai malandra”, que é uma verdadeira ode à mulher enquanto mero objeto de satisfação sexual dos homens), “Dança do desempregado”, “Mais uma dose”, as duas partes do “Retrato de um Playboy”, “Lavagem Cerebral”, “Futebol”, “Matador”, “Porca Miséria”, entre tantas outras.
E recentemente, pude ver a segunda versão da música “Matei o presidente”, com Michel Temer (vulgo Mi$hell Temer, ou se preferir Conde Drácula) no lugar de Fernando Collor de Mello. Eu, particularmente, gostei da música e do clipe. Concordo plenamente com você que existem certos políticos que são chamados por aí de mitos, mas que em realidade são ridículos (haja vista que certo político que é comumente chamado de mito votou a favor do impeachment fraudulento e vergonhoso da ex-presidente Dilma e do projeto de lei 4567/2016, de autoria do tucano José Serra, que contempla a privatização da Petrobrás, entre tantas outras coisas lesivas à maioria da população). Mas não é sobre isso que gostaria de falar com você.
Pelo que li na entrevista que você concedeu ao O Globo a respeito dessa música, você fez essa música por causa do decreto da Renca, onde o presidente ladrão tentou extinguir a Reserva Nacional de Cobre e Associados, no que ia liberar a exploração privada de uma área de 4 milhões de hectares da floresta amazônica. Entretanto, o Temer não está só entregando a Amazônia para os estrangeiros pintarem e bordarem em cima do Brasil. Está é entregando o país inteiro para os gringos tomarem não só a Amazônia como também outras riquezas do nosso país, em especial o Pré-Sal que foi descoberto durante a gestão Lula e que agora está sendo vendido a preço de banana aos gringos interessados no nosso petróleo (vale lembrar que enquanto o petróleo do Oriente Médio leva de 40 a 45 dias de viagem de navio para chegar até as refinarias norte-americanas, o petróleo brasileiro leva muito menos para lá chegar dada a maior proximidade geográfica). Recentemente, o presidente ladrão deu uma isenção fiscal de R$ 1 trilhão à Shell para que ela explore os poços do pré-sal. Ou seja, o equivalente a cerca de 20 mil malas do Geddel em isenção fiscal a uma petroleira internacional (que certamente depois de sugar e explorar todo o petróleo do pré-sal e mandar o máximo de dinheiro possível para sua filial na Inglaterra irá abandonar o país a mingua e o devastar até não poder mais, tal como feito na Nigéria antes) o presidente ladrão deu. E isso sem contar que a Petrobrás teve que pagar de indenização a credores estadunidenses quase R$ 10 bilhões. Foi para isso que a Lava Jato em realidade serviu: não para acabar com a corrupção, e sim para tirar o PT do poder e abrir o caminho para a hipoteca do país nas mãos do capital estrangeiro.
E me diga uma coisa, caro e estimado Gabriel o Pensador: por um acaso você acha que basta matar o presidente ladrão e seus asseclas no Congresso e em outras instâncias de poder que os problemas do país se resolvem? Eu acho que não. O problema está muito mais em baixo do que você e a maioria da população pensam. O Temer e a canalha do Congresso nada mais são que a ponta do iceberg, visível a todos nós. Ele não passa de um pulha, um fantoche da mesa que você menciona no começo do clipe. Ele foi colocado no poder pelos representantes da mesa (dando nome aos bois: do capital financeiro e suas diversas frações [agrária, comercial, industrial, bancária, fundos de investimento e outros]), que manda na política por trás das cortinas por meio de expedientes como a compra de políticos e da imprensa com o poder e os recursos que eles têm e que se locupletam do verdadeiro assalto que é feito ao Estado brasileiro por meio das altas taxas de juros com que se paga o serviço das dívidas interna e externa. Assalto esse que a grande mídia sistematicamente oculta, já que essa mesma mídia tem bancos e fundos de investimento como anunciantes e patrocinadores. Agora, nesse momento de crise estrutural do sistema capitalista eles querem um representante orgânico deles, que não tenha o menor pudor em aplicar as mais draconianas políticas de austeridade e retirada de direitos e assim garantir seus superlucros de sempre. Quando estoura algum caso de corrupção o político é utilizado como “boi de piranha” e o verdadeiro assalto assim é ocultado à população (em outras palavras, a verdadeira corrupção está é em casos como a já citada isenção fiscal dada à Shell e a isenção de R$ 25 bilhões ao Itaú de dívidas de imposto renda, não na mala do Geddel ou nos 3% de propina do Sérgio Cabral que suposta teria levado o estado do Rio de Janeiro à ruína [e assim ocultando a todos nós o papel da Lava Jato nisso tudo por meio da destruição da infraestrutura da Petrobrás]). Como também se oculta à população quem são os senhores e quem são os fantoches: quem está no topo da pirâmide de poder de fato não é o presidente, e sim essa gente ligada ao sistema financeiro.
E para que Mi$hell Temer foi colocado no poder por aquilo que Jessé Souza chama de a “elite da rapina” e Nildo Ouriques de a “república rentista”? Para não só entregar o país para os estrangeiros como também fazer coisas como retirar os direitos trabalhistas da população, privatizar a Petrobrás e outras empresas estratégicas ainda sob controle estatal, fazer a reforma da previdência (que na prática é entrega-la aos bancos), a já citada entrega do pré-sal aos estrangeiros e rasgar a CLT, e assim desempenhar o papel que uma vez Nicolás Maduro chamou de “assassino político”, o mesmo papel que em Honduras foi desempenhado por Roberto Micheletti. Trata-se do mesmo Micheletti que deu o golpe em Manuel Zelaya no país caribenho em 2009 (golpe esse que junto com o golpe no Paraguai em 2012 e as manifestações de junho de 2013 foi o prelúdio para o golpe que levou Michel Temer ao poder). Você pode matar o Temer, mas logo a mesa vai substitui-lo por outro para continuar levando a cabo as barbaridades que o presidente ladrão vem conduzindo. Como por exemplo, o Rodrigo Maia ou o Romero Jucá. É ai que não vai mais sobrar bala ou flecha. Do que adianta matar o Temer, o Romero Jucá ou o Rodrigo Maia sem virar a mesa e botar esse sistema todo abaixo? A meu ver, nada. Talvez, só com uma revolução para acabar com essa pouca vergonha. Não é só matando o presidente ladrão que o pesadelo que o povo brasileiro vivencia no presente momento chegará ao fim. Agora, nesse presente momento de crise estrutural capitalista internacional querem um representante orgânico deles, o sistema financeiro quer no poder alguém que não tenha o menor pudor em aplicar as mais draconianas políticas de austeridade e retirada de direitos. Não querem mais saber dos petistas e suas políticas de redistribuição de renda, que até certo ponto foram interessantes a eles (ou será que o cerco jurídico-policial ao Lula é só por causa de tríplex, sítio em Atibaia e outras frívolas acusações que a ele são atribuídas? Não, muita politicagem envolvida nisso há, e acreditar que é só por causa de corrupção que ele e outros políticos estão sendo defenestrados é o mesmo assinar um atestado de burrice).
E concordo com você que, por exemplo, o foro privilegiado é um absurdo (como você disse em uma parte que se passa em Brasília). Mas e os privilégios da casta jurídica, de juízes, desembargadores e outras figuras da aristocracia do serviço público, esses que não raro se posam como as pessoas que estão fazendo a “higiene moral do país”, como esses ficam? Pois como o Osvaldo Bertolino disse no vídeo “CPMI da JBS, que desnudou os corruptos da Operação Lava Jato, marcou 2017”, “antes de nós pensarmos em foro privilegiado deveríamos pensar nos privilegiados”. Ou seja, antes de falarmos em acabar com o foro privilegiado, deveríamos primeiro acabar com os supersalários e outros privilégios de juízes como Sérgio Moro, Marcelo Bretas e Gilmar Mendes (os quais sairão lucrando com o fim do foro privilegiado na medida em que essa gente terá ainda mais poder para atacar seus inimigos políticos). Salários esses que geralmente são inflados por auxílios dos mais variados tipos (tais como moradia, luz, educação, terno, carro e tantos outros), que nós ajudamos a pagar por meio dos impostos que pagamos todo santo ano, que tornam a justiça brasileira a mais cara do mundo em comparação com o PIB e que os torna tão ou mais quanto corruptos e venais quanto o Temer e sua laia. Após o impeachment fraudulento, tal casta, que vive em uma realidade completamente distinta da maioria da população, recebeu um obsceno aumento de seus já elevados salários da parte do governo Temer.

Por fim, queria dizer algumas coisas ao Nando Moura, que dias após o lançamento do clipe postou um vídeo falando sobre o clipe. Nando Moura, apenas duas coisas: e daí que o Gabriel o Pensador não fez um matei o presidente do Lula e/ou da Dilma? Pelo menos o PT nunca ousou fazer as maldades que o Temer e sua quadrilha agora estão fazendo em nome dos superlucros dos representantes do capital financeiro. Segundo que ninguém vota em vice-presidente como se votava nos tempos de JK e Jango. E muito embora ele tenha sido de fato vice de Dilma, com quem ele está fazendo o pacote de maldades que está fazendo agora, que é o que é bem mais importante no presente momento? Está fazendo ao lado do PSDB, outro partido orgânico da classe dominante nacional, e não do PT.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

A estratégia liberal para as eleições de 2018 em três etapas (por Lucas Novaes)

2018 já começou e promete ser um ano de intensa agitação política. Afinal de contas, teremos as eleições gerais onde serão escolhidos novos deputados, senadores, governadores e presidente. Mas também existem outros fatores que tornam este ano bastante peculiar: estamos vivenciando o governo mais impopular e ilegítimo do curto período supostamente democrático do país. A impopularidade do governo Temer é justificada pelos diversos ataques aos direitos trabalhistas, privatizações, entrega do pré-sal para empresas estrangeiras, ameaças de reforma na previdência e, é claro, o fato do mesmo ter se estabelecido por meio de um golpe constitucional elaborado em conjunto por diversos partidos políticos, grandes meios de comunicação, setores empresariais e o sistema judiciário.
As eleições de 2018 então poderiam servir como um meio para que a população brasileira tenha o poder de escolher melhores representantes e coloque para fora do poder aqueles que atualmente controlam o país. Mas será que a população realmente terá poder de escolha? O Brasil, em termos geopolíticos, é um país intermediário. Não é nem de um país completamente aliado aos interesses dos países imperialistas (Estados Unidos, França e Inglaterra) nem um país que luta diretamente contra os desmandos das grandes potências, como fazem a Síria e a Coreia do Norte. Portanto, a situação política nacional é marcada por muitas contradições. Por mais que estejamos sob o domínio do capital nos impondo liberalismo econômico e da grande mídia os impondo liberalismo cultural, existem variáveis de cunho político muito difíceis de serem completamente controladas: as mudanças de cunho cultural ocorrem de maneira muito mais lenta do que o esperado (perceba as recentes mobilizações contra o banco Santander e o Museu de Arte Moderna) e o liberalismo econômico ainda é uma visão muito impopular no Brasil. O Brasil, portanto, é sempre um país alvo de uma intensa disputa entre grupos altamente dispares. 
Agora, em se tratando das eleições de 2018, particularmente as eleições presidenciais, temos um cenário muito fragmentado, comparável ao de 1989 que deu vitória a Fernando Collor de Melo. São ao todo 6 ou 7 possíveis candidatos com um certo poder de mobilização. Mas a maioria deles não são realmente interessantes para os donos do poder. O que vai tentar se impor no país em 2018 será um candidato tipicamente liberal: centrista, avesso a posições “extremadas” e aliado de grandes grupos econômicos ou da mídia monopolista. Pessoas como Geraldo Alckmin, Marina Silva ou mesmo Luciano Huck são as possibilidades que mais se adequam a este perfil. Mas dado a desmoralização do governo atual e ao fato de que todos os candidatos apoiam direta ou indiretamente o que vem sendo feito pela turma de Michel Temer, eleger um candidato liberal não será uma tarefa fácil. Apesar de não existir no Brasil um candidato viável completamente iliberal, existem diversos obstáculos que deverão ser vencidos para a vitória de um candidato puramente liberal em 2018, como ocorreu em 2017 na França, quando Macron venceu Marine Le Pen e o candidato socialista sequer chegou ao segundo turno. Para vencer esses obstáculos, será necessário o cumprimento de 3 objetivos que serão explicados abaixo.
Etapa 1 de 3: Inviabilizar a candidatura de Lula
Lula é, sem dúvidas, a maior ameaça atual para o liberalismo tupiniquim. Ele é um político com capacidade de mobilizar grandes contingentes de pessoas, é apoiado por numerosas bases sociais e sindicais importantes e é o principal nome do Partido dos Trabalhadores, que é o menos liberal dentre os 3 grandes partidos (PSDB, PMDB e PT).  Com Lula nas eleições, fica mais difícil para um candidato do PSDB ou apoiado pela Globo vencer as eleições. Mesmo que o anti-lulismo ainda seja muito forte, só o fato de Lula participar das eleições já garante que haverá uma intensa mobilização contra o candidato adversário, e isso é algo que a os antilulistas de direita querem evitar a todo custo, pois mesmo que tentem esconder, serão facilmente vistos como cúmplices de tudo o que de ruim existe no governo atual. Tirar Lula da jogada é o passo mais importante para garantir a vitória de um liberal “puro” em 2018. É também o passo mais arriscado pois poderia acarretar uma grande revolta popular.
Etapa 2 de 3: Enfraquecer ou invalidar a candidatura de Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro é um político direitista de matriz neoconservadora que ascendeu junto ao crescimento do “olavismo cultural” e da nova direita que saiu do armário. Apesar de ser de direita (ou seja, anticomunista, contra movimentos sociais, em favor do capitalismo e entreguista), Bolsonaro não é um candidato ideal por dois motivos principais: 1 - está diretamente ligado a interesses corporativistas militares (o que suja a sua imagem de liberal, principalmente por ter defendido diversas vezes a memória do período militar) e 2 – tem posições muito conservadoras com relação aos costumes (vide acusações constantes de racismo, machismo e homofobia). Bolsonaro defende o liberalismo econômico com conservadorismo social. Portanto, poderia ser considerado um republicano nos Estados Unidos. Este perfil se contrasta com os políticos do Partido Democrata, que são progressistas ou, no máximo, moderados na questão moral e moderadamente liberais na economia. Portanto, ele também se contrasta com os políticos que ainda dominam o PSDB. Além disso, os eleitores de Bolsonaro são, em sua maioria, pessoas que votavam ou votariam nos tucanos pela falta de uma opção mais alinhada com suas opiniões. Portanto, apesar de parecer contraditório, Bolsonaro é uma ameaça para o liberalismo. Não só por ser muito mais conservador social do que os liberais estão dispostos a aceitar, mas porque, caso ele vá para um eventual segundo turno contra um candidato de esquerda, seria muito incoerente da grande mídia, depois de passar anos promovendo progressismo social apoiar alguém tão conservador. Uma disputa entre Bolsonaro e Lula seria o pior cenário, pois a grande mídia não teria um candidato para apoiar (vide recentes capas da Istoé e Veja colocando Lula e Bolsonaro como extremistas).
Etapa 3 de 3: Garantir a vitória do candidato mais liberal no segundo turno
Caso a retirada de Lula das eleições tenha de fato ocorrido e a candidatura de Bolsonaro tenha se desidratado ao longo do ano a ponto de não colocá-lo no segundo turno, teríamos o seguinte cenário provável: um candidato liberal contra algum candidato de centro-esquerda que teria apoio de Lula e do PT. Ciro Gomes é um nome provável que se encaixaria nesse cenário. A etapa final do liberalismo seria garantir a derrota deste candidato de centro-esquerda em favor de um liberal puro que teria chegado ao segundo turno. Claro que só o fato de termos um candidato do sistema no segundo turno e Lula não estar nas eleições já seria uma grande vitória independentemente do resultado. Mas a cereja do bolo seria, de fato, a vitória de um candidato que não tem relações com a esquerda econômica nem com a direita cultural.
Se todas essas etapas se cumprirem, o liberalismo terá, de fato, triunfado em 2018. Será que os brasileiros deixarão que isso aconteça?
Fontes:

domingo, 7 de janeiro de 2018

Anatomia da rendição de Jair Bolsonaro ao liberalismo econômico.


Foto – Usina do Senhor Burns x Kwik-E-Mart do Apu.
Em 11 de agosto de 2015, Jair Bolsonaro foi entrevistado pelo canal voz da cidade Xaxim a respeito do PL 3722/2012 na cidade de Chapecó. Nessa entrevista ele solta algumas pérolas, sintomáticas do fato de que há tempos o político carioca aderiu ao liberalismo econômico que ele outrora abominava (a ponto de ter votado a favor do projeto de lei 4567/2016, que contempla a privatização do Petrobrás, velho sonho dos tucanos privatistas. E assim contradizendo o próprio Bolsonaro que 20 anos antes disse que FHC deveria ser fuzilado por ter privatizado a Petrobrás). Tendo em vista que recentemente li o livro “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, de Jessé Souza, no embalo resolvi falar a respeito dessa curta entrevista e tecer algumas considerações a respeito.
Após ser perguntado pelo repórter sobre os protestos da esquerda, o político carioca afirmou que “eles sofrem uma lavagem cerebral de décadas. Professores sempre demonizando o capitalismo e endeusando o socialismo”. Diz em seguida que em países como Cuba, Coreia do Norte e China não há qualquer liberdade, que o povo está lá para ser sugado e explorado pelo Partido governante, e que a esquerda não admite a propriedade privada por supostamente nunca terem trabalhado, que sempre foi preguiçosa e sem vergonha e que por isso eles ódio de quem trabalha e tem propriedade privada.
O que será que Bolsonaro entende por propriedade privada? Propriedade privada do que, para começo de conversa? O que Marx e Engels falam em suas obras é acabar com a propriedade privada dos meios de produção. Ou seja, que indústrias, usinas, bancos teriam de ser estatizados. Não o mercadinho ou a banca da esquina ou a tua casa. Ou seja, coisas completamente distintas e que pessoas como Bolsonaro ajudam a confundir a cabeça das pessoas ao jogar tais ideias de forma vaga, imprecisa e indefinida. E como se essas tais “pessoas que trabalham e tem propriedade privada” não fossem o sujeito que não raro vampiriza e torna um inferno a vida daquelas pessoas que não tem simpatia alguma por elas. Como se o ódio que essas pessoas que não tem simpatia alguma por esses endinheirados seja algo gratuito e sem motivo algum de existir. Talvez justamente por causa desses vampiros que concentram a maior parte da renda global em suas mãos que hajam pessoas que não gostem do capitalismo e prefiram o socialismo.
O fato é que quando uma pessoa de esquerda fala em capitalismo não se está falando da padaria, do mercadinho ou da banca mais próxima da casa onde você mora, e sim de pessoas infinitamente mais poderosas, que acumulam em suas mãos fortunas milionárias ou mesmo bilionárias. No universo Simpsons, está se falando não do Kwik-E-Mart do Apu, e sim da usina nuclear do Senhor Burns. E no mundo real, de pessoas como o João Paulo Leman da Ambev, os barões do agronegócio, do rentismo financeiro, dos fundos de investimento e da indústria farmacêutica, da família Marinho que comanda a Rede Globo, o Joesley Batista da JBS e o Roberto Setúbal do Itaú a nível nacional. Ou mesmo os donos do poder mundial, tais como o clã Rothschild, os irmãos Koch, o Rupert Murdoch, o J.P. Morgan, o George Soros e o clã Rockefeller a nível internacional. Em outras palavras, aqueles que pertencem ao 1% que controlam a maior parte da riqueza mundial e que mandam na política por trás das cortinas do poder.
Ao final dessa entrevista, Jair Bolsonaro, após ser perguntado sobre o que acha do liberalismo econômico, solta a seguinte pérola, aquela que para mim é a fala mais emblemática e interessante: “O Estado, só o essencial, nada mais, além disso. O resto tem que deixar para a iniciativa privada e que para o mercado aqui se acomode. Tem que ser assim. Quanto mais Estado, mais corrupção, mais tristeza para o povo brasileiro e menos esperança”. Tal fala nos sugere que para Jair Bolsonaro apenas há corrupção na esfera pública e que o “impoluto” mercado é o espaço virtuoso por excelência. Sendo que na realidade o real assalto ao Estado, que movimenta quantias bilionárias para cima, é feito por agentes privados. Afinal, o que são os 51 milhões da mala do Geddel, os 3% de propina do Sérgio Cabral e os dólares na cueca do José Adalberto Vieira da Silva perto dos R$ 25 bilhões que o governo Temer deu de isenção fiscal ao Itaú de dívidas do imposto de renda, dos US$ 10 bilhões da Petrobrás doados aos fundos abutres dos EUA pelo governo Temer e dos R$ 1 trilhão que o mesmo governo Temer deu de isenção fiscal à Shell na exploração do pré-sal? Ou do tanto que os super-ricos brasileiros sonegam anualmente de imposto e/ou remetem a paraísos fiscais? Achar que o centro da corrupção está em coisas como a mala do Geddel é assinar atestado de burrice. Atestado esse que Bolsonaro assina ao pensar e olhar a questão da corrupção dessa forma. Tais didáticos exemplos mostram que os políticos nesses casos de corrupção são os sócios menores dessas figuras do “impoluto” mercado que ficam com as sobras do espólio e que quando estoura o escândalo são as peças do esquema que são descartadas e posteriormente trocadas por novas.
E o curioso disso tudo é que nessa maneira de se ver a questão da corrupção ele bebe do conceito do patrimonialismo, postulado por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra “Raízes do Brasil”, publicado originalmente em 1936. Algo no mínimo paradoxal e irônico, tendo em vista que Jair Bolsonaro em seus discursos se mostra um raivoso anti-petista e anti-esquerda de modo geral e que no final de sua vida Sérgio Buarque de Holanda foi membro fundador do PT, que cujo nome é o do salão nobre e de um dos centros de pesquisa da Fundação Perseu Abramo (espécie de think thank petista, fundado em 1996 em homenagem ao jornalista homônimo) e que é o pai de Chico Buarque de Holanda, uma figura simpática ao partido de Lula, Dilma, José Dirceu, Gleisi Hoffmann e José Genoíno.
Segundo o conceito de patrimonialismo, haveria uma elite política incrustrada no Estado e que dele se apodera em benefício próprio, a ponto de privatizá-lo e gerar uma má delimitação entre as esferas pública e privada. De acordo com o pai de Chico Buarque, esse é o grande problema que tem afligido o Brasil ao largo de sua história. Entretanto, tal ideia é errônea e imprecisa. Parte de uma premissa verdadeira, de que há uma elite que se apropria do aparato estatal em benefício próprio, mas chega a uma conclusão errônea e imprecisa ao atribuir tendências patrimonialistas (no sentido de se apropriar do aparato estatal em benefício próprio e em prejuízo do resto da sociedade) apenas entre políticos e nunca em agentes do setor privado. Isso acaba implicando em um sistemático ocultamento do papel do “impoluto” mercado nos esquemas de corrupção da parte de veículos como a grande mídia (a qual tem como anunciantes justamente frações do capital envolvidas no verdadeiro assalto ao Estado, entre eles bancos e fundos de investimentos). No que acaba sendo muito conveniente para aqueles que comandam esse processo, na medida em que a corrupção envolvendo políticos acaba servindo de cortina de fumaça para esconder o verdadeiro assalto ao Estado.
E assim políticos entram e saem de cena, as peças da engrenagem são trocadas em meio à esses escândalos e essa gente continua assalto o Estado impunemente, sem ser importunada por ninguém e sem dar satisfação alguma à população. Assim como é junto com a noção de populismo usado como porrete linguístico e cavalinho de guerra para desmoralizar eventuais governos populares perante a opinião pública, na medida em que eles são associados a tudo de ruim que existe em matéria de política. Assim foi na história do Brasil com Getúlio Vargas, Jango, Lula e Dilma. Dessa forma, graças a toda essa operação, o cidadão médio tende a olhar como bandidos apenas os políticos envolvidos em escândalos de corrupção, ao passo que de modo geral o mesmo olhar de reprovação não é destinado ao presidente do Itaú ou ao dono da Ambev, que por sua vez podem muito se posar de pessoas respeitáveis perante a sociedade.
Segundo Jessé de Souza em sua obra “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato”, a Operação Lava Jato e a maneira como seus juízes e procuradores olham a questão da corrupção igualmente provêm do conceito de patrimonialismo de Sérgio Buarque de Holanda. E igualmente bebem dessa concepção do patrimonialismo na maneira de ver essa mesma questão muitos dos liberais brasileiros da atualidade, entre eles o MBL e Rodrigo Constantino. Gente essa que advoga, entre outras coisas, que o Estado deveria ser o menor possível e que a solução para a economia do país é “mais mercado” (sendo não foi com “mais mercado e menos Estado” que as grandes potências chegaram ao patamar que chegaram). Talvez, noções como a do patrimonialismo e do populismo ajudaram a criar o terreno fértil para que as ideias de pensadores como Ludwig von Mises e outros da chamada Escola Austríaca de Economia proliferem no país (a ponto de haver pessoas falarem em “mais Mises, menos Marx”).

Foto – Sérgio Buarque de Holanda (1902 – 1982).
Fontes:
Souza, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.
Jair Bolsonaro Estado Mínimo. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=07cmQvXuONs&ab_channel=JohnReilly


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Considerações a respeito do ouro de Tripoli e o imbróglio de Teerã.


Foto – Lula ao lado de Muammar al-Kadaffi.
Saiu na capa do último número da Revista Veja uma notícia falando a respeito de que Palocci (o mesmo Palocci que antes de se voltar contra Lula e o PT chegou a sinalizar que ia espalhar merda no ventilador em bancos, sistema financeiro e empresas de telecomunicação [e assim contar a respeito de como a Rede Globo foi salva no começo do governo Lula] e que certamente está fazendo um acordo com Moro e sua camarilha para sair das masmorras de Curitiba [diga-se de passagem, quando será que vão investigar a respeito da prática de tortura da parte da Operação Lava Jato?]. E para isso está falando algo para se safar daquele inferno o mais rápido possível, por mais mentiroso e fantasioso que seja) disse que Lula teria recebido em 2002 cerca de um milhão de dólares do finado Muammar al-Kadaffi. Algo que segundo a Constituição Brasileira configura como crime eleitoral e passível de cassação e perda da sigla eleitoral da sigla do partido fundado em 1979. Já na Argentina, mais uma vez o caso AMIA, ocorrido em 1994, é exumado pelo juiz Carlos Bonadío e foi ordenada pela justiça argentina um pedido de prisão da ex-presidente Cristina Kirchner por ter supostamente protegido cidadãos iranianos envolvidos no atentado em troca de vantagens comerciais com a nação persa. O que falar a respeito não só do caso envolvendo Lula como também do caso envolvendo a viúva de Nestor Kirchner?
Primeiro que se de fato Lula recebeu dinheiro do finado líder líbio, ele não foi o único. Nicolas Sarkozy recebeu cerca de €50 milhões para se eleger presidente da França em 2007. E o que são US$ 1 milhão dado a Lula perto de €50 milhões dado a Sarkozy? E não duvido nem um pouco que outros premiês europeus com os quais Kadaffi se relacionou em seus últimos anos de vida e tirou fotos ao lado também possam ter recebido algum dinheiro líbio (entre eles o italiano Silvio Berlusconi e o inglês Tony Blair). Entretanto, bem provavelmente, o caso do ex-presidente francês (que em 2011 apunhalou Kadaffi pelas costas junto com Hillary Clinton durante a invasão da OTAN à Líbia) não vem ao caso para os chamados coxinhas que odeiam o PT raivosamente.
Segundo que uma acusação dessas me lembra muito as acusações que pesam sobre o também finado Leonel Brizola de que ele teria recebido dinheiro cubano para iniciar um movimento de resistência ao regime civil-militar nos anos 1960 e 1970 na Serra Gaúcha, no que teria dado origem a lenda de que Fidel Castro teria o apelido de “El Ratón”. Ou mesmo acusações de que o próprio PT teria na mesma época recebido dinheiro cubano.

Foto – Kadaffi e Sarkozy.
Terceiro que no nível da política interior uma acusação dessas serve para ajudar a direcionar a opinião pública em favor de partidos como o PMDB e o PSDB e contra grupos políticos do campo progressista (em especial o PT, que durante os 13 anos em que ocupou o Palácio de Planalto adotou uma política externa menos alinhada com os Estados Unidos e o dito “Mundo Livre e Democrático” e de maior aproximação com países como a própria Líbia, o Irã, Angola, Rússia, China e Venezuela), na medida em que esse campo passa a ser associado com o famigerado terrorismo islâmico (e nisso se aproveitando do desconhecimento da maior parte da população quanto ao assunto. A ponto de muitos acharem que Islã é sinônimo de terrorismo e wahhabismo, que no Mundo Islâmico só existem regimes como o da Arábia Saudita e sem levar em consideração que tais regimes são os amiguinhos do Ocidente “livre e democrático” que eles tanto adoram. E desconhecendo também o fato de que em 1998 o próprio Muammar al-Kadaffi fez um pedido de prisão internacional de Osama Bin Laden à Interpol).
Quarto que em nível de política exterior, acusações como as que Lula e Cristina Kirchner servem para justificar um direcionamento da política externa tanto do Brasil quanto da Argentina em favor não só dos Estados Unidos como também de Israel (os mesmos EUA e Israel que não tem o menor pudor em se relacionar com as mais retrógradas e espúrias monarquias do Mundo Islâmico, como também em financiar o terrorismo islâmico de matiz salafista-wahhabita há muito tempo). Particularmente, eu não duvido nem um pouco que possa haver algum interesse não só de Washington como também de Tel-Aviv em uma eventual condenação e prisão de Cristina Kirchner, na medida em que ajudaria a direcionar a política argentina em favor de Israel (e é para isso que a polêmica nesses anos todos em torno do caso AMIA tem servido), como também em mudanças de regime em outros países da América Latina. Ainda mais levando em consideração que nos últimos anos muitos dos governos de esquerda, em especial a Venezuela sob Hugo Chávez, adotaram posturas contrárias a Israel.
O fato é que no Brasil Lula desponta como favorito nas pesquisas de opinião para vencer a eleição presidencial de 2018, assim como Cristina Kirchner na Argentina. E os grupos políticos que estão no poder tanto no Brasil quanto na Argentina estão desesperados diante disso. Sabem que nas eleições não tem chances contra os referidos políticos e para isso recorrem a esses expedientes baixos. Também serve para ajudar a desviar a atenção da população não apenas quanto ao pacote de maldades e medidas antipopulares do governo Temer como também quanto às denúncias feitas por Rodrigo Tacla Duran sobre esquemas de corrupção e falcatruas dentro da própria Operação Lava Jato. Denúncias essas que caso mostrem-se verdadeiras, literalmente fará a casa de Sérgio Moro e da Operação Lava Jato cair e que inabilitará o juiz paranaense de julgar Lula, como também de mostrar a verdadeira face da Lava Jato perante todos: de que é uma operação cujo verdadeiro caráter não é de combate à corrupção, e sim politiqueiro (e não será nenhuma surpresa a mim que o que Tacla Duran disse seja apenas a ponta do iceberg das sujeiras envolvendo Moro e sua camarilha). Em outras palavras, por trás das denúncias tanto contra Lula quanto contra Cristina Kirchner há a mais pura e deslavada politicagem, que por sua vez se utiliza de acusações como as que são feitas no presente momento tanto a Lula quanto a Cristina Kirchner como cortina de fumaça. Tem nada de combate à corrupção, restauração da moralidade ou coisa do tipo. E quem acha que há combate à corrupção e coisas afins em ambos os casos, está é assinando um atestado de burrice. Diga-se de passagem, isso acontece bem no mesmo momento em que a defesa de Lula pediu nulidade do processo pelo imparcial de Curitiba se negar a ouvir Tacla Duran.
O fato é que enquanto a boiada se diverte com esse milhão de dólares que Lula teria supostamente recebido do finado Kadaffi há uma década e meia e com a invasão promovida ao campus da Polícia Federal à UFMG (que serve basicamente para criar um clima de comoção em favor da privatização do que ainda resta da educação pública no Brasil em favor de empresas privado do ramo educativo como a Kroton e bancos), a Shell recebeu do governo Temer uma isenção fiscal de cerca um trilhão de dólares (ou seja, o equivalente a cerca de 20 mil malas do Geddel) para poder explorar os campos de petróleo do pré-sal (que mostra que por trás da ação da Car Wash não só contra a Petrobrás como também contra empreiteiras e JBS há uma briga de mercado, com empresas multinacionais desses ramos querendo sua fatia do bolo chamado mercado brasileiro). E assim continua o saqueio e a hipoteca do país nas mãos dessa quadrilha em conluio com o capital internacional, assim como se mantêm o status neocolonial do Brasil.

Foto – Lula e Cristina Kirchner.

Fontes:
A “bomba da Veja” e das ditaduras militar e midiática. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SHqljorO-Yg&ab_channel=FranciscodasChagasLeiteFilho
Biógrafo diz que Brizola devolveu dinheiro a Cuba e que não há prova de que Fidel o tenha chamado de El Ratón. Disponível em: https://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/biografo-diz-que-brizola-devolveu-dinheiro-cuba-e-que-nao-ha-prova-de-que-fidel-o-tenha-chamado-de-el-raton-1023/
Claudio Mutti – uso ocidental do Islamismo. Disponível em: http://legio-victrix.blogspot.com.br/2015/06/claudio-mutti-uso-ocidental-do-islamismo.html
Defesa de Lula pedirá nulidade do processo por Moro se recusar a ouvir de novo a ouvir Tacla Duran. Disponível em: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/defesa-de-lula-pedira-nulidade-do-processo-por-moro-se-recusar-de-novo-a-ouvir-tacla-duran-contaminacao-insanavel.html
Desmanche: MP da Shell é aprovada é dá R$ 1 trilhão a multinacionais do petróleo. Disponível em: https://www.revistaforum.com.br/2017/11/30/desmanche-mp-da-shell-e-aprovada-e-da-r-1-trilhao-multinacionais-do-petroleo/
Dinheiro do ex-ditador Kadafi assombra Sarkozy. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/dinheiro-do-ex-ditador-kadafi-assombra-sarkozy-13170552
Lula recebeu US$ 1 milhão de ditador líbio em 2002, diz VEJA. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/campanha-de-lula-recebeu-us-1-milhao-de-ditador-libio-diz-veja/
PHA: “Globo rejeita delação de Palocci na Lava Jato para não produzir provas contra si”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TjcgfnASJSc&ab_channel=M%C3%ADdiaAlternativa
Stoppa e Atuch comentam o desespero de “Veja” e os “dólares da Líbia de Lula”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3cKrtNW40ws&t=1527s&ab_channel=TV247

Tacla Duran denuncia ilícitos da Lava Jato. Disponível em: https://jornalistaslivres.org/2017/12/tacla-duran-denuncia-ilicitos-na-lava-jato/

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Os reais prejuízos da "deforma trabalhista" (por Marcus Valério XR)

Estamos oficialmente sob a vigência da Lei n° 13.467/2017, rejeitada por mais de 80% da população e mesmo assim aprovada pela Presidência da República e Congresso Nacional mais corruptos das últimas gerações, deixando absolutamente fora de dúvida de que o Governo está apartado da vontade popular e plenamente entregue aos interesses de elites econômicas e ingerências internacionais.
Uma visão pontual das mudanças, no entanto, pode não deixar clara a real dimensão deste ataque ao trabalhador brasileiro, principalmente da forma como tem sido amplamente feito pela mídia, visto que muitos dos itens podem não parecer significativos para muitos trabalhadores, podendo alguns deles, isoladamente, até mesmo parecer desejáveis. Por isso é preciso apontar onde estão os reais problemas, e aqui iremos destacar apenas alguns deles, dentro da própria nova Consolidação das Leis do Trabalho, e que se isoladamente já seriam trágicos, juntos são catastróficos.
NEGOCIADO SOBRE O LEGISLADO COLETIVO
Uma delas é a introdução do Artigo 611-A, que dá desmedidos poderes aos Acordos Coletivos, celebrados entre o sindicato de uma categoria e sua empresa, e as Convenções Coletivas, celebradas entre sindicato da categoria e sindicato patronal. Este artigo introduz que: "A convenção coletiva e o acordo coletivo de trabalho têm prevalência sobre a lei quando, entre outros, dispuserem sobre". Então enumera nada menos que 15 incisos com itens que podem ser alterados, afora o misterioso "entre outros".
É certo que o Artigo 611-B enumera 30 incisos com direitos que não podem ser afetados, mas ainda assim, podem sê-lo: jornada de trabalho, banco de horas, intra jornada, plano de cargos e salários, representação sindical, sobreaviso, trabalho intermitente, prorrogação de jornada em ambientes insalubres sem licença prévia do Ministério do Trabalho, e outros, o que associado ao parágrafo primeiro, que remete ao parágrafo terceiro do Artigo 8, e que por sua vez remete ao Artigo 104 da Lei 10.406/2002, que é do Código Civil, praticamente transforma a o Acordo Coletivo em uma forma de "Negócio Jurídico".
Até essa inovação, a CLT não permitia que um acordo coletivo subtraísse direitos previstos em lei, mas com o Artigo 611-A, associado a outras inovações, como o Artigo 444 que diz respeito a negociações individuais, possibilita por exemplo que um empregado contratado originalmente para 30 horas semanais, de repente passe a cumprir jornada de 36 / 48 horas semanais, caso da infame jornada 12x36, sem qualquer aumento de salário!
O Artigo 612 ainda enfraqueceu a exigência de quórum mínimo em assembleia para celebração do acordo, reduzindo de 2/3 dos presentes em segunda chamada, para 1/3, facilitando que uma minoria aprove acordos prejudiciais à categoria.
Considerando também a política de enfraquecimento dos sindicatos, como a nova redação dada ao Artigo 545 que elimina a contribuição sindical obrigatória, bem como o enfraquecimento generalizado da Justiça do Trabalho, que inclui até sucateamento de verbas por meio da pérfida Lei de Responsabilidade Fiscal, o resultado inevitável será a proliferação ainda maior dos ditos sindicatos pelegos, que agem contra a própria categoria em favor da retirada de direitos. Quem tiver experiência em negociações sindicais e for fiel aos interesses dos trabalhadores sabe muito bem o enorme estrago que isso irá causar.
JUSTIÇA PAGA
Passemos agora para o Artigo 790, que rege sobre as ações judiciais nos Tribunais do Trabalho, onde o parágrafo 3, que na prática garantia a justiça gratuita para qualquer trabalhador, foi alterado para agora permiti-la apenas para os trabalhadores que percebam salário até 40% do máximo benefício pago pelo INSS, que atualmente está em R$ 5.531,31, o que faz com que qualquer trabalhador com salário acima de R$ 2.212,52 perca o benefício da justiça gratuita.
Assim, caso o trabalhador perca a ação judicial, terá que arcar com as custas processuais, o que não raro é economicamente desastroso. O Artigo 789-A enumera as custas básicas de um processo, que facilmente totalizam um mínimo superior a R$ 2.800, já bem acima do salário mensal de quem tenha direito à gratuidade, mas frequentemente vão muito além disso. Já tivemos o caso onde um magistrado que, de forma controversa, baseado na recente legislação condenou um trabalhador ao pagamento de R$ 8.500.
O parágrafo 4 do Artigo 790 ainda garante o direito a gratuidade para quem comprovar insuficiência de recursos, mas essa comprovação é muitíssimo mais difícil que a anteriormente vigente, que podia ser obtida com mera declaração formal.
Quem acompanha processos trabalhistas sabe que não é raro termos decisões judiciais nada menos que surreais, tanto a favor quanto contra trabalhadores, mas outrora essa incerteza implicava no máximo em tempo perdido e desgaste emocional. Agora afetará diretamente nas economias do trabalhador, o que seguramente ira dissuadir muitos de procurarem seus direitos mesmo quando estes forem arbitrariamente violados.
FORÇANDO A DIVISÃO DE CLASSES
Existem pouquíssimos trabalhadores que possuem habilidades e conhecimentos suficientemente específicos para possuir força de negociação, e em geral esses já não costumam celebrar contratos de trabalho comuns, preferindo criar pessoas jurídicas e celebrar contratos entre empresas. Mas a falácia que embasa a Reforma Trabalhista trata milhões de trabalhadores sem qualquer especialização e com poder de negociação zero, como se fizessem parte dessa exclusiva elite, que regida pelo Artigo 444, outrora permitia apenas benefícios adicionais, mas não subtração de direitos.
Mas agora, com o parágrafo único incluído pela Lei n°13.467/2017, qualquer profissional que ganhe acima de R$ 11.062,61 (o dobro do benefício máximo do INSS), poderá "renegociar livremente" seu contrato sob as mesmas condições do Artigo 611-A, sendo então empurrado à situação análoga a de outros especialistas que em geral ganham muitíssimo acima disso, embora de modo algum isso lhe garanta qualquer acréscimo de rendimento. Pelo contrário, pois poderão até mesmo aumentar sua carga horária sem aumento de salário, (possibilidade ainda mais reforçada pela Medida Provisória 808, que visa instituir o Artigo 59-A) abrir mão de planos de cargos, banco de horas e até contrato permanente, passando a ser obrigados a trabalho intermitente.
A maioria desses profissionais está longe de possuir real poder de negociação, pois embora possa parecer muito para os que estão nivelados ao salário mínimo, fato é que um salário de R$ 12.000 pode até ser abastado para um único indivíduo, mas mantém uma família de 4 ou 5 pessoas no limiar da classe média. A simples ameaça de demissão, num mercado com milhões de desempregados, é suficiente para obrigar esse trabalhador a aceitar qualquer condição desvantajosa, até mesmo a perda de grande parte de sua renda, pelo trabalho intermitente, por exemplo, preferível a possibilidade de perdê-la toda.
Mas o ponto mais relevante não é esse, e sim que embora isso possa parecer pouco significante, ocorre que frequentemente nos períodos de Data Base, a fase de negociação entre sindicato e empresa, todos os trabalhadores costumavam estar na mesma condição independente de sua renda, de modo que em geral eram apenas os agraciados com funções especiais, cargos de confiança ou comissões tendiam ficar ao lado dos empregadores. Agora, com essa inovação, justo os trabalhadores que costumavam ficar entre a maioria e a minoria dirigente, e que possuíam melhores chances de pressionar diretamente as chefias para negociações mais favoráveis à maioria, se veem isolados, podendo ser regidos por condições diferentes da maioria.
Com isso, quebra-se a continuidade que conectava trabalhadores de menores ganhos com trabalhadores com mais ganhos, mas ainda assim, trabalhadores, e estimula-se ainda mais uma falsa ilusão de elitismo que tende a dividir as categorias em duas classes distintas, as que ganham mais, e as que ganham menos que o dobro do benefício máximo do INSS.
É um fomento direto a uma Luta de Classes! Que no caso servirá apenas como estratégia manipulatória, fazendo aos menos abastados parecer que qualquer um com um ganho acima desse limiar faça parte da elite dominante e seja visto como inimigo, e fazendo a esses um pouco mais abastados parecer que os demais sejam uma massa disposta a decapitá-los numa revolução.
DESENHANDO O QUADRO MAIOR
Se cada uma dessas mudanças já seria trágica por si só, basta notar como combinadas tendem a levar a situações desesperançadas. Sindicatos enfraquecidos e dependentes de contribuições voluntárias possuem muito menos capacidade de se organizar e pressionar as direções das empresas para conquistar melhores condições, ou mesmo para garantir as que já possuem. Trabalhadores melhor remunerados podem ser facilmente coagidos a abandonar a sindicalização, visto que os Artigos 444 e 611-A podem ser usados para que ele corte seu vínculo sindical. Com isso, os maiores contribuidores tendem a ser isolados.
Os sindicatos serão obrigados a arcar com enormes custas judiciais, devido ao Artigo 789-A, uma vez que em geral serão eles que tenderão a assumi-las quando um trabalhador perder uma ação movida por seu sindicato, o que associado à perda de receita, tenderá a sufocá-los. Com isso, ficará fácil para as organizações patronais infiltrarem seus asseclas nos sindicatos ou mesmo controlá-los totalmente, forçando a aceitação de convenções e acordos deletérios aos direitos da maioria.
Com sindicatos pelegos, a tendência é os trabalhadores irem progressivamente se desvinculando a passando a ficar por conta própria, mas mesmo assim serão submetidos as decisões de grupos que não os representam, que podem mudar radicalmente suas condições de trabalho à revelia de seu contrato original ou mesmo da legislação.
E por fim, será perigosíssimo apelar para a Justiça do Trabalho, pois o risco de perder a ação e ainda ter que arcar com os custos judiciais inibirá qualquer um que ganhe acima de R$ 2.212,52. Com isso, apenas trabalhadores remunerados abaixo desse limiar, aliás, bem abaixo, para garantir que não o ultrapassem numa alteração salarial mínima, contarão com justiça gratuita, o que dividirá ainda mais as categorias de trabalhadores.
E esses são apenas alguns aspectos da Reforma Trabalhista, ainda que dos mais graves. Há inúmeros outros pontos prejudiciais aos trabalhadores. A Consolidação das Leis do Trabalho, sancionada por Getúlio Vargas em 1943, introduziu um mecanismo inédito de proteção trabalhista numa época que as condições de trabalho não precisavam se diferenciar muito da escravidão. Desde então, ela tem sofrido inúmeros ataques, e este é seguramente o mais nocivo, pois sem revogá-la na íntegra, a enfraquece de forma a deixá-la ainda mais vulnerável a ataques futuros.
E não se iludam aqueles que pensem que o ataque esteja perto do fim. Pelo contrário. Apesar de grandemente deletéria, essa Reforma está sendo considerada praticamente um fracasso pela maior parte de seus proponentes, de Ideologia Liberal, que visavam a uma dilapidação muito maior da legislação. Por mais reprovável que seja nosso Congresso, até mesmo ele opôs alguma resistência a muitas das propostas originais, visto a tradição tipicamente não liberal de nosso país, de modo que o Capital Financeiro Globalista não se deu por satisfeito com a ainda não completa redução do trabalhador à condição de escravidão.
Escravidão que, por essência, é tanto uma relação de trabalho quanto a maior antítese que conhecemos da ideia de Liberdade, justamente aquilo que os liberais fingem defender.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Lobby inglês no Senado mudou regras do pré-sal (texto postado por Roberto Requião em seu site)

Uma potência estrangeira, a Inglaterra, se achou no direito de participar diretamente de uma sessão da Comissão Mista da Câmara e do Senado Federal para estabelecer os principais tópicos da medida provisória que visa a regular a exploração do pré-sal no país. Não só participou como  mandou na votação. E a fonte da notícia dessa aberração não é nenhum oposicionista, mas o próprio The Guardian, principal jornal da Grã-Bretanha.
Segundo esse jornal, citado pelo blog Brasil 247, o governo inglês fez lobby, com sucesso, junto ao governo golpista de Temer, apelidado de Misshell, para mudar as regras de exploração do pré-sal em favor das inglesas Shell, BP e Premier Oil. O operador externo do lobby foi o ministro do Comércio inglês, Greg Hands, que veio ao Rio de Janeiro onde se reuniu com o operador interno, Paulo Pedrosa, secretário do Ministério de Minas e Energia.
Pedrosa disse que estava pressionando seus homólogos do governo brasileiro sobre as questões suscitadas pelos ingleses, de acordo com um telegrama diplomático britânico obtido pelo Greenpeace. Essa organização acusou o Governo britânico de “agir como braço de pressão da indústria de combustíveis fósseis”, a despeito de compromissos assumidos com metas de controle ambiental defendidos em Bonn.
Como resultado, a Inglaterra conseguiu que o governo brasileiro eliminasse exigências de compra de conteúdo local nos investimentos no pré-sal, reduzisse exigências ambientais e isentasse as grandes multinacionais de pagamento de impostos. Um representante da Shell comandou pessoalmente o lobby na comissão, sendo identificado e denunciado, na hora, pelo senador Lindberg Farias.
O ministro inglês esteve no Brasil em março e não se limitou a ir ao Rio de Janeiro. Esteve também em São Paulo e Belo Horizonte. Seu foco era justamente o de ajudar empresas britânicas a ganharem negócios de petróleo e água no Brasil. Sabe-se que, na conversa com Paulo Pedrosa, levantou “diretamente” as preocupações das empresas petrolíferas Shell, BP e Premier Oil britânicas sobre tributação e licença ambiental.
A pressão para flexibilizar regras de proteção na área crítica ambiental suscitou interesse do Greenpeace, que questionou as empresas e o Ministério do Comércio. Os esclarecimentos foram vagos e escamoteados. Curiosamente, os britânicos tem posição aparentemente ativa nas discussões da ONU sobre o controle de poluição, o que pode ter suscitado a reportagem do The Guardian.
É extravagante que comissão do Senado se sujeite a pressões internacionais nesses três campos vitais para o futuro do país. Conteúdo local, tributação justa e defesa ambiental são questões ligadas à soberania nacional. É fundamental que o Ministério das Minas e Energia seja questionado sobre mais essa medida de entrega a estrangeiros de bens que deveriam ser protegidos pela soberania.
As estimativas de isenção tributária para os contratos do pré-sal já negociados se elevam a cerca de um trilhão de dólares. Abrir mão desses recursos é um crime contra as gerações atuais e futuras. Eliminar exigências de conteúdo local é abrir mão da geração de emprego nos setores industriais de maior salário e maior geração de tecnologia. Por fim, a redução das regras ambientais significa simplesmente permitir que as grandes petroleiras poluam descaradamente o nosso mar e nosso território enquanto levam para suas matrizes os produtos limpos.
É difícil classificar os senadores que votaram por essa aberração na comissão. Seriam entreguistas da soberania nacional? Seriam negocistas cooptados pelo dinheiro inglês? Ou seriam apenas ignorantes, distraídos, incapazes de compreender o processo histórico que vivemos na era Temer, o Misshell? Não consigo me inclinar por nenhuma dessas classificações. Mas ainda tenho a expectativa de que, na votação do Senado, uma maioria se coloque a favor do Brasil, sobretudo depois que veio a público essa inacreditável ingerência estrangeira em nosso processo legislativo.

Comentário meu: Será que a Inglaterra permitiria algo similar com os campos de petróleo da Escócia? Será que a Coroa britânica permitiria que os campos de petróleo da Escócia fossem entregues à empresas como a Petrobrás, a Gazprom, a PDVSA ou qualquer outra petroleira estrangeira que nem estão fazendo agora com os campos do pré-sal? Tal ato acima de tudo é a Inglaterra mais uma vez praticando o velho protecionismo de sua economia que ela pratica desde o tempo do tratado de Methuen. Ou seja, desde os séculos XVII e XVIII. Foi por meio do protecionismo de sua economia e de sua indústria que a Inglaterra se tornou a senhora dos mares no século XIX, e não por meio da falácia do livre mercado que grupos como o MBL defendem. E protecionismo esse que após impor tarifas e impostos alfandegários sobre os têxteis indianos que vinham à Inglaterra posteriormente ajudou a destruiu com a indústria têxtil indiana no século XVIII.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Geopolítica felina (por Daniel Jur).

Esse é um texto que encontrei navegando no Facebook originalmente postado pelo usuário Daniel Jur e que achei interessante postar aqui no blog. Desde tenra idade sempre tive grande fascínio por grandes felinos, os quais por seu turno exercem um fascínio no imaginário humano que remonta desde no mínimo as pinturas em cavernas rupestres tais como Chauvet e Lascaux na França e Altamira na Espanha (cerca de 35 mil anos atrás). E que trata dos grandes felinos, em especial o tigre, a onça pintada (que, diga-se de passagem, era chamada de tigre pelos primeiros colonizadores europeus das Américas) e o leão. Animais esses que dentro do ambiente em que vivem ocupam o topo da cadeia e assim neles exercem uma função muito importante (a de regular o número das populações de animais herbívoros), dentro de uma perspectiva cultural e geopolítica.

Foto – Da esquerda para a direita: leão (Panthera leo), onça pintada (Panthera onca) e tigre (Panthera tigris).
A onça pintada é pra mim o mais fascinante animal brasileiro, o terceiro maior felino, só atrás do tigre e do leão, uma onça destroçaria facilmente um leão da montanha norte americano (puma), algo que é carregado de simbolismo: a onça é a rainha da América, o Leão é o rei africano, e o tigre um grande anarca eurasiático. A priori, quando pensamos em um mundo multipolar a primeira divisão é a continental, a felina. E o maior felino de todos é o tigre siberiano, que caminha livremente na Eurásia, significando o poder máximo terrestre, dominando a Rússia e China, é definitivamente a encarnação animalesca do Heartland.

Mackinder nos diz que a conquista russa da Sibéria teve consequências quase tão profundas e drásticas quanto as grandes navegações, usando a lógica de Schmitt poderíamos dizer que aquilo que foram as Grandes Navegações para os espanhóis e portugueses, e que acarretou em uma Revolução Espacial Planetária, que mudou a forma de ver o mundo, ocorreu de forma semelhante na conquista da Sibéria, uma Revolução Espacial Regional. As grandes navegações exigiram a vitória sobre a baleia, o domínio da dominadora dos mares, a sua caça, já a conquista siberiana exigiu o enfrentamento do maior felino da Terra, a Sibéria impunha coletivismo para viver, exigia austeridade, a frieza do ambiente exige frieza psicológica, era necessário hierarquia social, heroísmo, valores solares, fidelidade e honra, resultando em uma estruturação social bem distinta da marítima. É na Eurásia Central que se funda o primado da força terrestre, local da principal disputa geopolítica na qual se debatem Brzezinski, Haushofer e tantos outros, também na Eurásia que se fez milênios atrás a rota da seda, passando pela estrada real persa e pelo baixo tigre. Hoje a Eurásia Central, pela magistral ferrovia Transiberiana, interliga Europa e Ásia, o audacioso projeto falado por Putin conectando "Lisboa a Vladivostok" significaria o reerguimento total da força terrestre, muito embora seja uma ideia Geopolítica bem mais antiga que Putin, praticamente orgânica e oferecida pela própria geografia, tal como novas rotas da seda, porém mais acima e mais diversificadas, como o monumental projeto CAREC de transporte de recursos. Uma Eurásia interligada por terra, com a gama de recursos e economia que tem, significaria instantaneamente um rival a altura e uma ferida quase mortal ao atlantismo, que tenta fazer valer sua influência estabelecendo rotas marítimas e tragando a Europa Ocidental e Oriental para si. 

Foto – Área de distribuição do tigre. Em laranja, áreas onde se encontra extinto. Em vermelho, áreas onde ainda se encontra presente.

Um outro simbolismo pode ser notado, onde persistem as Tradições, persistem os grandes felinos, a Europa Ocidental não mais os possui, estão extintos ou enjaulados, tal como as forças da Tradição, a forma de encontrar alguma vida é permitindo a fusão, permitindo o grande Tigre Siberiano caminhar sobre suas terras, para, como num sopro ou rugido, trazer novamente as antigas forças europeias, fazendo sair à luz solar o Leão da Caverna que um dia ali reinou, animal antigo e gigantesco, adorado e cultuado na pré história européia e gravado em diversas pinturas rupestres. Rapidamente o Leão da Caverna, extinto e congelado na última era do gelo, seria descongelado pelo rugido do Tigre siberiano, trazido de volta à vida com toda sua força e vigor, espantando as pilhagens e saques da águia norte americana, que não mais pousaria em tais terras, apenas sobrevoaria, como um urubu esperando novamente forças mortas, carcaças para se alimentar, porém incapaz de enfrentar vida em seu pleno vigor. 

Foto – Leões das Cavernas (Panthera leo spelaea).
Nas Américas, a Onça Pintada reinou e reina, nos antigos impérios americanos, nas civilizações Maia, Asteca e Inca sempre possuiu posição sagrada, de destaque, admiração e força. Hoje a Onça une a força Latino Americana, vivendo por quase toda essa região e fincando as garras mais fortemente no Brasil, também tivemos a nossa "conquista da Sibéria", o bandeirismo, a conquista do Oeste com as bandeiras, tal como a "bandeira de limites" de Raposo Tavares. Conquistadores que viajaram por mais de 10 mil quilômetros a pé, é aqui que ganhamos nossa força terrestre, a coroação da rainha, a conquista da Onça, esta representando o dinamismo, a adaptabilidade, a força unida à exuberância, uma certa flexibilidade e fluidez na lida com o meio, a Onça é astuta, ágil, indecifrável, camuflada e mortal. A Onça que os mitos e contos amazônicos e pantaneiros ressoam, aquela que é capaz de quebrar o mais duro casco de tartaruga com uma mordida, ela trás o espírito felino mais profundo da América Latina. Extinta na América do Norte, local do âmago das forças de dissolução, a Onça pintada é uma América Latina Unida, diversificada, fluida, exuberante e forte, que estraçalharia facilmente o Puma norte americano, caso este tentasse uma invasão, o Puma de pouca cor, massificado e homogeneizado, pode mesmo representar a diminuição das forças da Tradição nos EUA, sua sobrevida.

Por fim, o Rei da Savana, os leões Africanos fazem lembrar as disputas de clãs sanguinolentos africanos, uma África de milhares povos pulverizados, de milhares de Reis, distribuídos em pequenas povoações, hoje a África é dividida artificialmente, clãs e povos são unidos de forma forçosa, em fronteiras e linhas artificiais, os leões igualmente são restringidos e delimitados às reservas ambientais, fazendo com que destruam uns aos outros. A África é pilhada de forma condizente com a brutal diminuição das populações leoninas, o rei encontra-se ajoelhado, espremido, cercado, sem sua juba e potência. Porém, é possível um renascimento, um exército de Reis, um exército de leões novos que se juntam para expulsar o forasteiro, fazendo renascer das antigas lendas africanas o leão que sabia voar, e que assim era capaz de caçar qualquer animal, seus ossos não mais estariam quebrados pelo Grande Sapo, trazendo o leão de pele impenetrável para mortais, tal como o Leão de Nemeia, uma África impenetrável à ingerência. 

Foto – Área de distribuição do leão. Em vermelho, áreas onde se encontra extinto. Em azul, áreas onde ainda se faz presente em estado selvagem.
A Multipolaridade é em primeira instância Felina, é a América do Norte e Inglaterra cercadas ao sul por uma Onça, ao leste e sudeste por um Leão, e à oeste, leste e norte pelo Tigre Siberiano. Aqui os grandes felinos não representam forças de dissolução, mas forças caóticas originárias que formam os povos, que dão seu espírito e essência e que andam lado a lado, e só se deixam montar por aqueles o qual respeitam, para realizar ataque e defesa, a montaria no fundo sendo uma integração, o Guerreiro é então em parte Onça, em parte Tigre, em parte Leão.

Por último, uma última coisa que me fascina é a área de vida de uma onça, que pode ser muito mais que 100 quilômetros quadrados, na vida moderna estamos habituados a falar que nosso quintal é um cubículo que possui quando muito uma balança e uma árvore, é uma visão de mundo distorcida, sempre considerei meu quintal a profunda mata atlântica que começa no Horto florestal e se estica por toda Serra do Mar, a liberdade felina nos diz muito, o Sertão é o quintal do sertanejo, o mar o quintal das populações litorâneas, o interior e mata atlântica o quintal do paulista, o pampa o quintal gaúcho e assim por diante, perdemos a nossa conexão com a terra, a ligação com o espaço se dá como um visitante, um estrangeiro, um estranho, e não como alguém que domina e vive também neste ambiente, que considera a terra como sua, a terra que era pública e era nossa, a cada dia é de ninguém e das grandes corporações e nós voltamos a ficar em apartamentos, assim como bichos em suas reservas, mortos e espremidos, mas carregando sempre o vigor da terra, pronto a renascer a qualquer instante, dependendo unicamente de coisas que muitas vezes chegam a ter entonação sagrada: a vontade e a ação.

Foto – De cima para baixo: Leão (Panthera leo), Onça pintada (Panthera onca), Leopardo (Panthera pardus), Tigre (Panthera tigris), Leopardo das Neves (Panthera uncia).