sábado, 18 de fevereiro de 2017

O levantamento da direita raivosa e a miopia da esquerda "paz e amor" brasileira.


Foto – O eclipse da inocência (imagem ilustrativa).
No dia 26 de abril de 2014 publiquei o seguinte texto em uma das minhas notas do meu perfil do Facebook, intitulado “O levantamento da direita raivosa – Golpe a vista no Brasil?”:
Recentemente, vimos a Ucrânia e a Venezuela serem assoladas por manifestações contra seus respectivos presidentes, os quais foram ambos democraticamente eleitos por seus respectivos povos. O que se vê em ambos os países não são revoluções, e sim golpes de Estado orquestrados e financiados por poderosas ONGs internacionais. E uma vez consumado o golpe de Estado, os grupos que assumem o poder pouco ou nada fazem para melhorar a situação do país, não raro a piorando. Nos últimos anos a direita brasileira tem se organizado e a se fortalecido cada vez mais, a ponto de no aniversário dos 50 anos do golpe de 1964 terem sido feitas em algumas cidades do Brasil as famigeradas Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Muito embora tais manifestações tenham reunido pouca gente, ainda assim é um presságio perigoso. Estaria o Brasil caminhando para um novo golpe civil-militar como o de 1964, ou então uma Revolução Colorida, similar as que ocorreram na Sérvia em 2000, na Geórgia em 2003, na Ucrânia em 2004 e no Quirguistão em 2005?
Como todos nós sabemos 2014 é um ano eleitoral, e mais uma vez o PT vai disputar o pleito contra os partidos da tradicional direita do nosso país, como tem feito desde 1989. Há anos afastada da chefia da nação, a direita golpista de tudo fará para voltar ao poder, nem que para isso recorra a expedientes como difamações, calúnias e histórias falsas. Basta ver que em 2010 a grande imprensa nacional tratou de explorar histórias como a de uma suposta ligação do PT com as FARC, e em 2012 partidarizou o julgamento do mensalão a ponto de colocar os réus do caso como se fossem culpados antes mesmo de sair o resultado final do inquérito. A respeito disso, José Dirceu, em uma entrevista ao portal UOL no dia 9 de abril de 2013, afirmar que o julgamento do mensalão teve um caráter político e de exceção. Em outras palavras, linchamento. Mais recentemente, usou-se do episódio da vinda dos médicos cubanos para trabalhar em regiões do Brasil e agora está usando os recentes problemas na Petrobrás com o mesmo intuito, entre outros.
Mas por que será que isso está acontecendo? O que está permitindo toda essa situação pré-golpe? A grande verdade é que no Brasil a esquerda, mesmo tendo o poder político em suas mãos, ainda assim não tem o poder midiático que a direita, através de grandes veículos de comunicação como a revista Veja, possui. Muito menos possui em mãos o poder econômico do país. Assim sendo, um partido como o PT, quando assume o poder no nosso país, acaba ficando de mãos atadas diante disso tudo, e para poder governar precisa fazer uma série de conchavos com a direita. E isso implica em compromissos com tais grupos. Fora que o Partido dos Trabalhadores, desde que assumiu a chefia da nação em 2003, tem feito quase nada contra a reação direitista. De forma similar, na Ucrânia o ex-presidente Viktor Yanukovych prendeu em 2011 uma de suas principais opositoras, Yuliya Tymoshenko (recentemente libertada do cárcere), mas não fez o mesmo com gente como o líder do Setor de Direita, Dmitriï Yarosh, e nem com Oleh Tyagnybok, o líder do partido Svoboda, ambos neonazistas e russófobos convictos. E estes neonazistas, sem a devida punição, acabaram sendo decisivos para a derrubada de Yanukovych na sequência dos protestos da Euromaïdan. Talvez sem eles na linha de frente das manifestações Yanukovych estaria no poder até agora e as rebeliões não teriam chegado aonde chegaram.
Ao passo que na vizinha Belarus os golpes que se tentaram fazer em 2006 e em 2010 contra o presidente Aleksandr Lukashenko (conhecidos como Revolução Branca), fracassaram graças a enérgica ação da polícia e do KGB bielorrusso. Não obstante, em 2007, na cidade de Nesvizh[1] foram presos cinco jovens que foram até lá comemorar o centésimo aniversário de Mikhail[2] Vitushka, que nada mais foi que o equivalente bielorrusso de Stepan Bandera. Assim como o líder da OUN-UPA[3], Vitushka também colaborou ativamente com os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, a ponto de ter liderado uma tropa anti-guerrilha a serviço dos alemães, a Chorny Kot/Чорны кот[4] (Gato Negro). Aliás, vale ressaltar que durante a fracassada Revolução Branca, assim como em outras manifestações anti-governo, seus líderes usavam a mesma bandeira branca com uma faixa vermelha no meio que os colaboradores bielorrussos dos nazistas usavam. A Rússia, por vez, proibiu em 2012 a propaganda e o uso de simbologias nazistas, e a Venezuela durante as eras Chávez e Maduro também fizeram medidas contra a oposição reacionária.
E o PT, o que tem feito para conter vozes reacionárias tais como Jair Bolsonaro (notório por sua simpatia pelo Regime Civil-Militar instaurado em 1964 e condenações a política externa do governo brasileiro, entre outras), o pessoal da Revista Veja, Raquel Sheherazade, Lobão, entre outros? Nada, absolutamente nada. E também não fez nada para impedir a realização das marchas da família desse ano em homenagem aos 50 anos do golpe Civil-Militar de 1964 e que pediam intervenção militar. E o que será feito com o professor Eduardo Lobo Botelho Gualazzi, que em uma aula no dia 31 de março de 2014 na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco exaltou o golpe de 1964, alegando que teria salvado o Brasil de um suposto golpe comunista? Isso tudo mostra a falta que faz para um país a existência de um órgão de segurança interna eficaz e combativo, a exemplo da FSB na Rússia e do KGB bielorrusso.
Qual será o prognóstico disso tudo? E o que será que a direita golpista tentará fazer para retirar o PT do poder? Ainda estamos em maio e faltam cinco meses para a realização das eleições. Estamos vendo a grande mídia nacional promovendo uma campanha de ódio e desgaste da imagem do governo petista perante a opinião pública nacional e assim abrir o caminho para que volte ao poder o tucanato ou algum grupo político mais afinado com seus interesses. Em outras palavras, aqui no Brasil a direita reacionária, diferente do que acontece na Ucrânia e na Venezuela, ou mesmo na Líbia e na Síria, está tentando promover um golpe branco, de forma a derrubar a presidente dando uma aparência de normalidade institucional. Foi assim o golpe perpetrado contra Manuel Zelaya em Honduras em 2009, assim como o contra Fernando Lugo no Paraguai em 2012. E caso a direita perca para o PT nas urnas pela quarta vez consecutiva, certamente aparecerão acusações de que as eleições foram fraudadas, tal como fez Viktor Yushchenko na Ucrânia em 2004, os opositores de Aleksandr Lukashenko em Belarus em 2006 e em 2010 e os opositores de Mahmoud Ahmadinejad no Irã em 2009. Assim mais uma vez a história se repete.
Muitos dos prognósticos apontados nesse meu texto de 2014 infelizmente acabaram se tornando realidade. No fim, Dilma teve o mesmo destino que Yanukovych teve dois anos antes. E não só eu que fiz previsões a respeito de um cenário golpista no Brasil antes mesmo de 2016. Rui Pimenta Costa fez previsão similar em 2013. Na previsão que o político do PCO (Partido da Causa Operária) fez na ocasião, ele diagnosticou o seguinte: que o PT não controlava de fato nenhuma instituição (entre elas a Polícia Federal, as Forças Armadas e a ABIN), que a esquerda não vinha dando a devida seriedade quanto às ameaças golpistas da direita e que o PT e que o combate à ameaça golpista da atualidade perpassa pela punição dos torturadores da época do regime civil-militar e assim fazendo uma limpeza do entulho reacionário da época (se bem que não basta apenas punir e prender os torturadores da época. Também se faz necessário fazer o mesmo com os apoiadores civis dos torturadores). E ainda em 2012 Samuel Pinheiro Guimarães falou em entrevista que aqui no Brasil estava em curso um golpe de caráter jurídico seguindo a tendência golpista vista no Paraguai naquele mesmo ano e o crescente fortalecimento do poder judiciário. Segundo as palavras do diplomata brasileiro, “eles estão se arrogando, com o apoio fortíssimo da mídia, essa função de órgão supremo do sistema político brasileiro”, que isso é extremamente perigoso e que havia uma campanha de exaltação do judiciário e execração dos outros órgãos legislativos. Algo que a própria Operação Lava Jato mostrou ao país desde 2014.
O fato é que infelizmente a esquerda brasileira “paz e amor” está tomada por uma cegueira a ponto de achar que é com flores, corações em forma de origami que se enfrenta gente como Michel Temer, Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Paulo Skaf, Jair Bolsonaro, Sérgio Etchegoyen, Kim Kataguiri e toda sua patota do MBL e outros dessa laia. Ingenuidade essa que pode ser vista na mensagem postada pela senadora petista Gleisi Hoffmann no dia sete de fevereiro desse ano, contendo uma frase do finado cantor Renato Russo e dizendo que o amor prevalecerá. Esquerda essa acha que vive na Escandinávia e não no Brasil, um país atravessado desde os primórdios de sua história por uma grande desigualdade social entre os cima e os de baixo e um dos mais atrozes conflitos sociais do planeta. Conflito esse que a política social petista nesses anos todos anestesiou por meio de seus programas sociais e que voltou com força total a partir dos eventos de junho de 2013.
Aí eu pergunto para esses desmiolados: Nicolás Maduro na Venezuela combate os distúrbios promovidos pelos elementos reacionários de lá pedindo paz e amor a Capriles e companhia limitada? Bashar al-Assad na Síria combate a fina flor do terror wahhabita pedindo paz e amor a Estado Islâmico, Al Qaeda, Al Nusra e outros grupos que tocam o terror em seu país desde 2011? Saddam Hussein venceu os levantes separatistas que flagelaram o Iraque logo após o término da Primeira Guerra do Golfo pedindo paz e amor aos grupos reacionários al-Dawah e al-Badr no sul e aos separatistas curdos no norte? Hugo Chávez venceu o golpe perpetrado contra ele em 2002 e retomou o cargo de Presidente da Venezuela pedindo paz e amor aos golpistas? Os comunistas enfrentaram os integralistas na Batalha da Praça da Sé em 1934 pedindo paz e amor aos partidários de Plínio Salgado? Getúlio Vargas venceu as intentonas de 1935 e 1938 pedindo paz e amor a Luís Carlos Prestes e Plínio Salgado? A União Soviética venceu os brancos na Guerra Civil de 1918 a 1922 pedindo paz e amor para Kolchak, Denikin, Vrangel e as potências vencedoras da guerra que vieram em auxílio dos brancos e depois a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial pedindo paz e amor a Hitler e seus aliados? Mao Tsé Tung expulsou os japoneses da China pedindo paz e amor a Hirohito? Kim il-Sung estabeleceu a República Popular Democrática da Coréia pedindo paz e amor as autoridades coloniais japonesas lá estabelecidas? Fidel Castro e os revolucionários cubanos rechaçaram o ataque à Baía dos Porcos em 1961 pedindo paz e amor aos invasores reacionários? A resposta para essas perguntas todas é um rotundo e contundente não. Essa esquerda deve abandonar esse republicanismo e esse humanismo tacanho e medíocre e acordar para a realidade, do contrário continuará fazendo o papel de saco de pancada da direita. Há momentos em que o uso da força contra inimigos é inevitável e certa quantidade de sangue terá de ser vertida, e a esquerda brasileira parece que não se dá conta disso. Prefere viver em seu mundo colorido de suas fantasias de paz e amor. Pelo visto essa gente nada aprendeu com o martírio que a Dona Marisa sofreu diante do terrorismo psicológico-jurídico-midiático perpetrado pelo conluio mídia de massa-Operação Lava Jato.
Aliás, falando em Lava Jato e pegando um gancho na previsão de Rui Pimenta Costa feita em 2013, eu defendo que não só o período de 1964 a 1985 como também a privataria tucana, a carta aos brasileiros e a própria Operação Lava Jato também devem futuramente ser submetidas ao escrutínio de uma Comissão da Verdade. Que sejam abertos seus arquivos e que mostrem ao país a serviço de quem Moro, Dallagnol e companhia limitada agem. Que venha a tona ao país toda a cooperação que Moro e sua equipe tiveram com autoridades norte-americanas, entre tantas outras coisas. Até porque o que está em jogo aqui no Brasil, para além de um processo golpista, é um crescente processo de judicialização da política, onde os juízes exercem o mesmo papel que os militares exerceram no período de 1964 a 1985: o de capatazes da classe dominante contra as lutas populares, os quais utilizam os dispositivos legais do Estado para tal e assim dar um verniz de legalidade a tal estado de coisas. Algo que irá se consolidar caso Lula eventualmente seja preso.

Foto – A frase de Renato Russo mencionada na postagem da página do Facebook da senadora Gleisi Hoffmann. Uma parte significativa da esquerda  nacional pelo visto acha que é com uma fraseologia barata dessas que se combate os elementos reacionários da sociedade brasileira.
Fontes:
Antecipação do golpe em 2013 pelo PCO e a cegueira da esquerda. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vjd7gXmxfLA
Os aiatolás do Irã ajudaram a minar a soberania do Iraque. Disponível em: http://blogak-47.blogspot.com.br/2012/06/os-aiatolas-do-ira-ajudaram-minar.html
Samuel Pinheiro Guimarães (2012) – Há um golpe em curso: o golpe jurídico. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=NY9TLDjz3sc

NOTAS:


[1] Leia-se Niesvij, pois no bielorrusso, assim como no russo e no ucraniano, a partícula zh (cirílico ж) tem valor de j.
[2] Leia-se Mirrail, pois no bielorrusso, assim como no russo, no ucraniano, no árabe, no persa e no mongol, a partícula kh (cirílico х) tem valor de r aspirado.
[3] Em ucraniano Organizatsiya Ukraïns’kikh Natsionalistiv-Ukraïns’ka Povstans’ka Armiya (Organização dos Nacionalistas Ucranianos-Exército de Libertação da Ucrânia/cirílico ucraniano Органiзацiя Украïнських Нацiоналiстiв-Українська Повстанська армія).
[4] Leia-se Tchorny Kot, pois no bielorrusso, assim como no russo, no ucraniano, no espanhol, no inglês, no mandarim, no mongol e outros idiomas, a partícula ch tem valor de tch.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Os próximos anos da União Europeia.

Por Leonid Savin (Traduzido por Lucas Novaes)
Depois do Brexit e do avanço significativo da influência dos eurocéticos e dos populistas na Europa, a incerteza no rumo da União Europeia parece não ser mais questionada. Entretanto, o futuro permanece aberto e, portanto, há mais de um cenário possível.
O Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos propõe três opções para o desenvolvimento dessa situação: duas negativas e uma positiva.
Um Cenário de Colapso tem baixa possibilidade de ocorrer, mas implicaria altos riscos internacionais. Nesse cenário, empresas domésticas e as famílias respondem a indicações de uma iminente mudança no regime monetário com corrida para retirar seus euros depositados em empresas nacionais. Seguindo-se do contágio para outros estados-membros e dano econômico para os países principais, o euro seria a primeira vítima a cair. A União Europeia como instituição seria provável vítima colateral, porque o mercado único e a liberdade de movimento por toda a Europa ficariam ameaçados pela reinstituição de controles sobre capitais e fronteiras. Nesse cenário, deslocamento econômico severo e fratura política levariam a uma ruptura na sociedade civil. Se o colapso for repentino e inesperado, muito provavelmente disparará uma recessão global ou outra Grande Depressão.
Num Cenário de Declínio Lento, a Europa consegue escapar dos aspectos piores da atual crise, mas não consegue fazer as reformas estruturais necessárias. Como os estados-membros já vêm de vários anos de baixo crescimento, mantêm-se unidos para evitar maiores rupturas políticas e econômicas. As instituições da UE são mantidas, mas o descontentamento das populações mantém-se alto. O euro sobrevive, mas não a ponto de rivalizar com o dólar ou o renminbi. Dados os muitos anos de baixo crescimento econômico, a presenta internacional da Europa é reduzida; os países renacionalizam as respectivas políticas exteriores.
Nosso terceiro cenário, de Renascimento, baseia-se no padrão bem conhecido de crise e renovação, que a Europa já conheceu muitas vezes no passado. Tendo olhado diretamente na cara do abismo, muitos líderes concordam com promover um "salto federalista". A opinião pública apoia esse passo, dados os riscos iminentes que advêm de se manter o status quo. Uma Europa mais federal pode começar com apenas um grupo central de países da zona do euro que escolham, optem ou adotem política de 'esperar-para-ver'. Ao longo do tempo, apesar de haver uma Europa de várias pistas de velocidade, o mercado único ainda seria completado; e definir-se-ia uma política de segurança mais unida, com elementos reforçados da democracia europeia. Influência europeia aumentaria, reforçando o papel da Europa e das instituições multilaterais no palco mundial.
Ilaria Maselli, economista sênior para a Europa na The Conference Board (associação independente de pesquisa de negócios), propôs quatro cenários possíveis para a União Europeia:
Estagnação Continuada. Uma combinação de reforma inadequada e baixo crescimento global prolonga o clima presente. Esse cenário traz vantagens principalmente para empresas focadas na demanda doméstica, e muito do crescimento lento advém do gasto dos europeus em consumo. O investimento do setor privado hesita ante a alta incerteza política, enquanto o investimento público fica paralisado pelo medo de se separar com firmeza e para sempre, da 'austeridade' [de fato, é arrocho].
Um reset Uma combinação de reforma e crescimento global mais alto resulta num 'reset'. Sob o guarda-chuva da UE, os governos renovam seu compromisso com investimento futuro e removem barreiras comerciais. Renovam também a atenção à desigualdade de renda e de riqueza, dentro de cada país e entre os países. Ventos de popa de crescimento global ajudam a financiar o esforço, bem como a decisão de pôr fim ao quadro da 'austeridade' [de fato, é arrocho] e aumentar os gastos do estado mediante um orçamento único menos rígido. Porque muitas diferentes fontes e fatores contribuem para o crescimento, businesses de todos os setores beneficiam-se nesse ambiente. A vida é bela, mesmo que não seja igualmente bela em todos os pontos. Esse cenário exige também que um subconjunto dos 27 países mova-se na direção de uma união política.
Na corda bamba. Uma combinação de reforma institucional no nível europeu com fraco crescimento global leva a alta incerteza. A decisão de reformar vem em resposta a pressões por todo o continente, incluindo o Brexit. Resultado disso, os estados-membros e a União Europeia têm de andar numa corda bamba entre gerenciar aspirações e criar crescimento suficiente. Reformas demoram a gerar os resultados que se esperam, e no meio tempo, o crescimento da produtividade pode tornar-se mais lento. Por causa da fraca demanda externa, os gastos do governo desempenham papel substancial para estimular a economia. Assim sendo, esse cenário mais favorece os negócios do que garante o provimento de serviços públicos
Só Conversa (promessas verbais, mas nenhuma ação). Publicamente, os países não se cansam de 'promover' a integração europeia, mas na realidade encontram as respectivas fontes de financiamento fora do bloco. Nesse ambiente, negócios bem-sucedidos incluem principalmente os exportadores localizados na Europa Continental – seus empregados, fornecedores e também os acionistas. Numa combinação com reforma inadequada, a existência do Mercado Único só beneficia alguns países, enquanto a renda em outros torna-se estagnada; assim só crescem as fraturas que dividem a Europa.
Se a situação é considerada objetivamente, nesse caso os dois cenários positivos (um Renascimento, na versão dos EUA; e um Reset(na versão da UE) mostram-se praticamente irrealizáveis. As instituições políticas da UE estão tomadas por controvérsias. A burocracia não consegue dar conta dos desafios correntes, e o impacto das forças externas (por exemplo, a situação na Romênia) pode ainda desempenhar papel crítico. O evidente esfriamento das relações entre EUA e Alemanha, mesmo no plano retórico, além do colapso da Parceria Trans-Pacífico exacerbam a atual situação.
Quais são as expectativas russas e qual o prognóstico para o provável futuro da Europa? Ironicamente, a Rússia está interessada numa Europa unida e estável. Mas só há uma condição: tem de ser ator independente, mesmo sendo coletivo. Até agora Bruxelas tem sido uma das peças com que Washington joga no tabuleiro de xadrez da Eurásia. As sanções contra a Rússia, o Projeto da Parceria Ocidental, a Operação "Decisão Atlântica" [Atlantic Resolve] da OTAN – nenhum desses arranjos ou combinações são decisões autenticamente europeias.
Mesmo que se considere uma possível melhora nas relações Rússia-EUA, é indispensável alguma espécie de revisão da integração euroatlântica, para que possa haver relação de confiança entre Moscou e Bruxelas. Idealmente, a integração euroatlântica tem de ser substituída pela integração eurasiana.
Mas a Rússia deve estar preparada para o cenário possível do colapso da UE.
Nesse caso, relações bilaterais com países chaves na região têm de ser intensificadas, embora isso não signifique que as preferências se façam à custa de outras partes. Antes da imposição das sanções, o principal núcleo das relações de exportação-importação entre Rússia e a UE estava na Alemanha, Países Baixos e Itália. As novas condições dos tempos (segundo Fernando Braudel) podem alterar o equilíbrio do poder e as preferências.
Além disso, a base demográfica da UE mudou. Os problemas dos refugiados e migrantes dificilmente serão resolvidos no futuro próximo. Enquanto dentro da UE há algumas ilhas liberais, africanos e asiáticos continuarão a entrar na península europeia e a ali criar seus ghettos e enclaves étnicos. Isso, por sua vez, afetará as políticas sociais e econômicas em vários países. Como a experiência já mostrou, a assimilação baseada no multiculturalismo não é viável. Mas a liderança da UE não parece pronta a tomar quaisquer medidas radicais, por causa da natureza das culturas políticas da UE. Basta isso para levar ao poder na UE novas forças da contra as elites? No mínimo, essa parece ser a tendência. Esse cenário pode, talvez, ser alcançado mediante procedimentos democráticos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A verdadeira face do juiz Sérgio Moro e o perigo da judicialização da política no Brasil.


Foto – Juiz Sérgio Moro, o falso herói (imagem ilustrativa).
Na última quinta-feira, dia 2 de fevereiro de 2017, a ex-primeira dama do Brasil, Dona Marisa Letícia, veio a falecer aos 66 anos de idade, após ter sofrido um AVC na semana anterior seguido de alguns dias de internamento no Hospital Sírio-Libanês. Presto aqui minhas condolências a Lula e toda sua família e que a Dona Marisa agora descanse em paz nas mãos do Criador.
Algumas pessoas em redes sociais colocaram na conta do juiz Moro a morte da esposa de Lula. Entretanto, há de se ressaltar que as ações do juizeco provinciano (o qual no ano passado divulgou ilegalmente na mídia uma conversa da ex-primeira dama com seu filho onde ela demonstra indignação com os paneleiros. Tal áudio foi depois utilizado pela imprensa golpista de forma a constrangê-la e humilhá-la) em conluio com os veículos da grande imprensa nacional não criaram do nada magicamente os problemas de saúde que a Dona Marisa tinha. Ela já tinha tais problemas de saúde há 10 anos. Em outras palavras, a bomba já estava lá há algum tempo. Entretanto, para que uma bomba exploda, ela precisa ser acionada. E quem a acionou foi justamente as ações da República de Curitiba (obviamente em conluio com a grande imprensa) ao exercer tamanha pressão psicológica e emocional sobre ela e sua família. Também vi algumas pessoas em redes sociais ridicularizando as afirmações de que as investigações da República de Curitiba teriam levado a Dona Marisa para a cova. A essas pessoas, só lhes digo o seguinte: ponham-se no lugar do Lula e seus familiares. Por um acaso vocês acham que é brincadeira a pressão psicológica e emocional e todo o desgaste dele advindo que o conluio mídia de massa-República de Curitiba lhes infligiu acusando-lhes de tudo quanto é coisa frívola, perseguindo-lhes ferozmente e querendo a todo custo prender o Lula (vale ressaltar que o golpe, para sua consolidação, precisa que Lula seja preso ou então inabilitado de disputar as eleições 2018), com direito a seus nomes aparecendo nos jornais praticamente que o tempo envolvido em escândalos esdrúxulos? Não se esqueçam de que foi sob uma pressão desse tipo que Getúlio Vargas se matou em 1954.
Aproveito esse momento não só para deixar minhas condolências a família Lula, mas também para falar a respeito de certo personagem (o qual com o poder e o prestígio que tem agora não vai parar por aí) e sua real face. Na semana retrasada, tive uma discussão no Facebook com alguns indivíduos, que postaram uma notícia a respeito do recente discurso da presidente deposta Dilma Rousseff na Espanha. Lá eu disse que o juiz Moro não é flor que se cheire, e um deles me perguntou se eu pertencia a alguma quadrilha criminosa ou coisa do tipo por ter dito aquilo. Outro disse que o juiz Sérgio Moro, por supostamente ser um herói que combate o flagelo da corrupção no Brasil, não pode ser criticado. Ou seja, fui apedrejado verbalmente por esses indivíduos só por ter ousado criticar o juizeco de Maringá (e ainda bloqueado por um deles).
Mais uma vez estou usando o espaço do blog para lavar roupa suja de discussões de fóruns e redes sociais. Como dito em um artigo anterior, não acho que aqui seja o espaço adequado para tal, mas levando em consideração a veneração que o juiz paranaense tem entre parte significativa da população brasileira e vendo o grau de bovinidade da população quanto a isso (que se manifesta, por exemplo, nas manifestações de rua verde-amarelas em que eles prestam apoio ao juizeco), resolvi tratar disso no presente artigo. Por várias razões o juiz Moro, ao contrário do que a boiada pensada, não é o herói e o paladino que eles pensam que é. E por que não é? Abaixo serão listadas algumas razões pelas quais essa imagem que se criou em torno dele e da Operação Lava Jato não passa de uma farsa, uma ideologia barata criada pelos grandes meios de comunicação como a Rede Globo e a Revista Veja. Esse artigo é destinado especialmente a você, plebeu, que apoia de forma incondicional as ações do juiz Moro, Dallagnol e companhia limitada e que fica jogando confete para ele em manifestações de rua e em redes sociais, para lhe mostrar o que você está apoiando com isso e a que está levando.

Foto – Marisa Letícia Lula da Silva (1950 – 2017).
Caráter de classe elitista da justiça brasileira – Para começo de conversa, a justiça brasileira possui um caráter de classe elitista muito forte. A boiada, do alto de sua mediocridade, pensa que gente como Moro, Dallagnol e companhia limitada são como se fossem paladinos da justiça e da moralidade e que legislam pelo bem comum da sociedade brasileira de forma abnegada. Nada mais falsa tal imagem. Gente como Moro, Dallagnol e companhia limitada acima de tudo defendem os interesses de classe de sua categoria e legislam em favor da classe dominante. Ou seja, a justiça que eles exercem está muito mais voltada para atender aos interesses de FIESP, FEBRABAN, Itaú, Santander e bancada ruralista que aos favelados do Rio de Janeiro ou os retirantes nordestinos. Ou será que é por um mero acaso que o Maluf dizia “eu confio na justiça brasileira”? Pois se há algo que a Operação Lava Jato escancarou ao Brasil a respeito do judiciário é justamente tal fato.
Para uma pessoa poder se tornar juiz aqui no Brasil, o indivíduo precisa, além de fazer um concurso público e estudar direito durante muitos anos em uma faculdade de magistratura, fazer uma entrevista pessoal onde tem grande peso fatores como o fato de a pessoa pertencer a uma família tradicional e ter amizades com autoridades constituídas do status quo vigente, entre elas políticos tradicionais e grandes empresários. Isso para não falar do fato de que não existem eleições para a ocupação de cargos dentro do Judiciário. Tudo isso visando à perpetuação ad eternum do status quo privilegiado da classe dominante nacional.
Segundo matéria do site DCM a respeito das raízes familiares do juiz Moro, filho de professores reacionários de Maringá, só foi andar de ônibus pela primeira vez aos 18 anos e até próximo aos 30 anos não sabia o que era um pobre. Seu pai, Dalton Áureo Moro (falecido em 2005), teria sido segundo a mesma matéria ocupado um cargo público nomeado por políticos da ARENA (o partido de sustentação ao Regime Civil-Militar), era frequentador do Country Club da cidade (clube de elite onde o título hoje custa cerca de R$ 30 mil) e um dos fundadores do núcleo tucano de Maringá. Em 2002, Dalton Moro teria ido a uma locadora de Maringá e ao saber que seu dono ia votar no Lula no pleito presidencial daquele ano, disse que nunca mais entraria naquele estabelecimento por causa de sua opção política. Ou seja, o background social e ideológico perfeito para ser aceito como juiz pela elite brasileira.
Vida nababesca – A coxinhada gosta de falar que Lula, Dona Marisa, Dilma e outros petistas (e que a mídia de massa vive reverberando periodicamente) desfrutaram de supostas mordomias enquanto estiveram no poder, a tal ponto que nas redes sociais alguns desses elementos que torceram pela morte da ex-primeira dama do Brasil após a notícia que ela teve um AVC tem que se tratar no SUS. Mas e o paladino deles, cuja categoria é notória por seus salários altíssimos, geralmente muito acima do salário da maioria da plebe do país e levar uma vida cheia de mordomias, como fica? Segundo dados do site TRF4, em janeiro último o juiz Moro recebeu no total a quantia de R$ 61.056,61, e em dezembro do ano passado R$ 102.151,58. Ou seja, ele é um parasita que vive à custa do Estado Brasileiro.
O Brasil possui uma das justiças mais caras do mundo (para além de ineficaz, classista e partidária até a medula), que anualmente consome cerca de 2% de todo o orçamento da União (isso ao mesmo tempo em que o Bolsa Família só consume 0,47% e as Forças Armadas 1,40% do mesmo orçamento). Também é comum juízes ganharem salários acima do teto permitido por lei, que é de R$ 33.763,00. Uma breve pesquisa no TRF4 mostra bem isso.
Caso Banestado – O Caso Banestado foi um caso que envolveu o envio ilegal de US$ 124 bilhões para o exterior por meio do sistema financeiro público brasileiro na segunda metade dos anos 1990. Em 2003 foi feita uma investigação federal, seguido da instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito.
E sabem quem foi o juiz desse caso? Sérgio Fernando Moro. E sabem quem era o doleiro desse caso? O mesmo Alberto Yousseff que se encontra sob a mira da República de Curitiba. Entretanto, tal caso não teve a mesma repercussão que o Petrolão teve. Apurou-se que cerca de US$ 124 bilhões foram enviados e depois lavados no exterior e que estiveram envolvidas grandes empresas como a Rede Globo e políticos de alto escalão (entre eles tucanos de alta plumagem). Entretanto, as investigações desse caso terminaram em pizza. Ou seja, deram em nada. Como sempre acontece em casos de corrupção tupiniquins, se jogou pesado contra laranjas e apenas bodes expiatórios foram presos. Mas os chefões do esquema não foram pegos. Tucanos e aliados foram denunciados pelo procurador Celso Três e pelo delegado José Castilho, que por sua vez se deram mal, tiveram suas carreiras encerradas e desde então se tornaram críticos das instituições em que trabalham. Esse foi o primeiro grande caso que esteve nas mãos de Moro.
Partidarismo – Se há algo que o juiz Moro demonstrou ao longo das investigações da Operação Lava Jato é que ele é um sujeito extremamente partidário. Haja vista que ele, ao mesmo tempo em que persegue ferozmente os petistas e seus aliados, passa a mão na cabeça dos tucanos deletados, alguns deles de alta plumagem (entre eles José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e Geraldo Alckmin). Além disso, ele já deu palestras para João Dória, o atual prefeito de São Paulo. No que o torna em nada mais que um político togado.

Foto – Moro e Dória.
A própria família de Moro, diga-se de passagem, possui estreitas ligações com o tucanato (o qual é o partido favorito da maioria esmagadora dos juízes e magistrados do Brasil). O seu pai, como dito no primeiro item, teria sido um dos fundadores do núcleo tucano de Maringá. Sua esposa, por sua vez, segundo matéria originalmente publicada em 2014 no i9, é assessoria jurídica de Flávio José Arns (o vice do governador do Paraná, o tucano Beto Richa e sobrinha de Zilda Arns e Dom Paulo Evaristo Arns) e é membra do escritório de Advocacia Zucolotto Associados de Maringá, o qual defende várias empresas do ramo petrolífero (entre elas a INGRAX e a Helix da Shell Oil Company [subsidiária nos EUA da Royal Dutch Shell, multinacional petrolífera de origem anglo-holandesa, uma das maiores do ramo no mundo e uma das principais concorrentes de mercado da Petrobrás] e do ramo de farmácias e clínicas médicas). Ou seja, ela é ligada a uma das principais concorrentes de mercado da Petrobrás. Além disso, seu irmão César é igualmente raivosamente anti-petista.
O surgimento da Operação Lava Jato – Segundo o jornalista Pepe Escobar, a operação Lava Jato começou da seguinte forma: os EUA precisavam escolher uma parte do sistema judiciário brasileiro para que pudesse se acomodar a seus interesses, e assim escolheram o juiz Moro, que já tinha trabalhado no Departamento de Estado dos EUA anos antes e que já estava em sua lista de contatos, para iniciar tal operação. De um dia para outro, caíram nas mãos do juizeco paranaense uma quantidade gigantesca de informações obtidas sobre tudo o que acontecia nos altos escalões da Petrobrás. De onde veio essas informações? Por meio dos dados obtidos por meio da espionagem feita pela NSA (National Security Administration) sobre a Petrobrás (que como todos nós sabemos existe todo um interesse dos grandes conglomerados petrolíferos internacionais em se apoderar do pré-sal). Tal espionagem, que também se estendeu ao governo brasileiro, foi denunciada por Edward Snowden e pelo Wikileaks, mas não teve a devida atenção da parte da presidente Dilma (a qual teve seu celular espionado na época). Um de seus informantes era um sujeito que fazia mercado negro de dólar, que era a cobertura dessa operação toda. Assim teve início a Operação Lava Jato, cujo objetivo inicial era supostamente desmontar uma “célula criminosa” dentro da empresa estatal. Acompanhado de vários procuradores regionais e alguns outros nacionais, identificaram suspeitos dentro da Petrobrás e fizeram toda uma ligação entre Petrobrás e várias empreiteiras. E assim a Operação Lava Jato deu seus primeiros passos, ainda em 2014.
Ilegalidades – Por muitos juristas, o juiz Moro cometeu uma série de ilegalidades no curso de suas investigações, e a mais notória delas foi a divulgação na imprensa de conversas telefônicas entre Lula e Dilma. Posteriormente, ele, que vive falando que os Estados Unidos são um exemplo a ser seguido pelo Brasil, foi questionado pelo deputado petista do Rio Grande do Sul Paulo Pimenta, que lhe perguntou o que aconteceria com um juiz de primeira instância de um Estado dos Estados Unidos caso divulgasse na imprensa uma conversa telefônica por ele captada entre Bill Clinton e Barack Obama ou de uma condução coercitiva como a feita contra Lula para gerar manchetes na mídia de massa. Diante dos questionamentos de Paulo Pimenta, o juizeco de Maringá se esquivou de respondê-lo. Também fez o mesmo com a já citada conversa entre Marisa Letícia e seu filho onde ela se indigna diante dos paneleiros.
O que ele tem feito contra Lula e sua família é algo que alguns especialistas chamam de lawfare. Law em inglês significa lei, e fare vem de warfare, que significa guerra, estado de guerra. Em outras palavras, lawfare consiste do uso de dispositivos legais para atingir um determinado alvo político, e tudo isso com um verniz de legalidade para justificar tal ato perante a população acompanhado de ampla cobertura da imprensa, de forma a constranger o inimigo diante das acusações (por mais fajutas, ridículas e sem provas que sejam). Procedimento semelhante tem sido feito na Argentina contra Cristina Kirchner e no Paraguai contra Fernando Lugo, os quais tal como Lula aqui no Brasil despontam como líderes em intenções de votos em pesquisas eleitorais.
Vende-Pátria – Segundo documentos do Wikileaks, o juiz Sérgio Moro, junto com outros de seus colegas da Operação Lava Jato, participou do seminário “Projeto Pontes: construindo pontes para a aplicação da lei no Brasil”, realizado no Rio de Janeiro em outubro de 2009, que contou com a presença de membros seletos da Polícia Federal, Judiciário, Ministério Público e autoridades norte-americanas. Juízes e promotores federais de todos os estados brasileiros, além de 50 policiais federais, participaram desse seminário, que também contou com participantes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai. Tal seminário buscava consolidar treinamento bilateral de aplicação das leis e habilidades práticas de contraterrorismo. O que mostra as ligações de Moro, Dallagnol e companhia limitada com o imperialismo das nações hegemônicas. Algo que deveria ser posto a escrutínio público.
Isso para não falar do caso do almirante Othon Pinheiro da Costa, o pai do programa nuclear brasileiro e em 2005 assumiu a presidência da Eletronuclear. Em sua gestão, as obras da usina Angra 3, que estiveram paralisadas por 23 anos, foram retomadas. Até que em abril de 2015 foi afastado de seu cargo depois que apareceram denúncias de pagamento de propina a dirigentes da empresa e preso em 28 de julho por causa das investigações da Operação Lava Jato, voltando a ser preso novamente pela PF em seis de julho de 2016. Por causa disso recebeu 43 anos de prisão por decisão de Marcelo Bretas (o qual foi descrito por Osvaldo Bertolino como “cópia piorada de Sérgio Moro”), juiz da 7ª Vara Federal Criminal do Rio. Com tal pena ele, que já tem 77 anos de idade, só sairá de lá aos 120 anos. Ou seja, quando já estiver morto. Ele, que, além disso, também teve sua filha condenada a uma pena de 14 anos. Não duvido nem um pouco que Moro e sua trupe, levando em consideração suas ligações com o imperialismo e o que tem feito desde que Operação Lava Jato teve início, fariam o mesmo com Bautista Vidal, o pai do pró-Álcool e falecido desde 2013, caso ainda estivesse vivo.

Foto – Othon Pinheiro da Costa, o pai do programa nuclear brasileiro.
A crise na engenharia brasileira – Moro e seu séquito se gabam de terem recuperado aos cofres da nação cerca de R$ 2 bilhões. Entretanto, suas ações ao mesmo tempo causaram um dano na economia brasileira muito maior, avaliado em cerca de R$ 140 bilhões, como mostra o documentário do You Tube “Destruição a Jato”. Ou seja, um saldo negativo de R$ 138 bilhões. E isso para não falar do desemprego causado pelas ações de Moro e companhia limitada por causa da interrupção de empreendimentos, alguns deles em estágio avançado de execução, tais como as obras do COMPERJ, Angra III, o submarino a propulsão nuclear, a refinaria Abreu e Lima no Nordeste, o estaleiro Enseada do Paraguaçu em Maragogipe na Bahia (que em fevereiro de 2015 tinha mais de 80% de suas instalações concluídas e que em seu ápice chegou a empregar 4000 operários), o estaleiro Mauá em Angra dos Reis no Rio de Janeiro (o qual teve que demitir 2500 operários de suas obras) e outras tantas. Por causa das ações do juiz Moro e sua gangue, a engenharia brasileira se encontra sob uma forte crise devido às paralisações decorrentes dos processos jurídicos a que estão respondendo, e assim são demitidos milhares de profissionais (principalmente engenheiros) e obras são suspensas. Calcula-se que os processos das Operações Lava Jato e Zelotes geraram cerca de um milhão de desempregados (sendo 140 mil deles na construção civil, mais de 170 mil na Petrobrás e cerca de 50 mil na Odebrecht[1]), segundo matéria do Estadão.
Ou seja, as vidas de milhões de pessoas foram afetadas pelas as ações de Moro, Dallagnol e companhia limitada. E com isso se segue um grande desmonte da infraestrutura econômica brasileira, levando adiante assim o sonho de Fernando Henrique Cardoso quando disse que queria enterrar com a Era Vargas. E, após o fim do desmonte, ocorrerá aqui no Brasil o mesmo que aconteceu no Iraque após a queda de Saddam Hussein e na Líbia após a queda de Muammar al-Kadaffi: multinacionais como a Halliburton ocuparão o espaço antes ocupado pela Odebrecht e outras empresas da engenharia nacional, no que implicará uma transnacionalização ainda maior da economia brasileira (segundo o documentário “Destruição a Jato”, empresas chinesas já estão ocupando o espaço antes ocupado pelas empreiteiras nacionais no Brasil e na América Latina). E o mais trágico de tudo é que enquanto que empresas como a Halliburton tiveram que recorrer a invasões militares para meter a mão na infraestrutura do Iraque e da Líbia, aqui no Brasil foi preciso apenas a ação de um judiciário vendido a interesses internacionais em conluio com a mídia de massa, igualmente vendida a interesses internacionais.
Moro e seus sequazes gostam muito de citar os Estados Unidos como um exemplo de país a ser seguido pelo Brasil. E aí eu pergunto será que lá, na Alemanha ou no Japão seria permitido a ele fazer o que tem feito com empresas como a Odebrecht, Andrade Gutierrez, Engevix e outras (ou seja, investigar os corruptos, prendê-los e em seguida fazer tábua rasa das empresas, reduzindo-as a escombros)? A resposta para essa pergunta é não. Se o dirigente de uma empresa como a Wolkswagen, a Mercedes Benz, a Halliburton, a Mitsubishi ou a General Motors é indiciado e preso por causa de alguma falcatrua, apenas ele é preso, ao passo que o corpo e o conjunto da empresa, como uma entidade que gera tecnologias, divisas e empregos para o país, é mantida intacta. É o que foi feito na Alemanha no pós-guerra com algumas empresas que estiveram envolvidas com o regime hitlerista. Como foi o caso da indústria química IG Farben, que no pós-guerra ao invés de ser dissolvida foi dividida em quatro firmas: Henkel, Hoechst, Bayer e a Basf. Caso ele resolvesse fazer o que faz com a Odebrecht com alguma grande empresa da Alemanha, dos EUA ou do Japão, certamente teria suas asinhas cortadas e seria exonerado de suas funções, no mínimo. Pelo visto, ele, Dallagnol e companhia passam suas temporadas de estudos nos Estados Unidos e depois de um voltam abobados (se é que já não o eram antes) a respeito do que são os Estados Unidos e seu funcionamento, a tal ponto de o fundamentalista religioso Dallagnol ter dito uma vez que a diferença de desenvolvimento entre Brasil e Estados Unidos se deu por causa do fator religioso dos colonos que povoaram os dois países durante o período colonial (assim não levando em consideração, por exemplo, o fato de que os EUA, desde que se tornou independente da Inglaterra, sempre praticou um forte protecionismo de seu mercado interno).
Mãos Limpas – Em 2004, o juiz Moro escreveu um artigo de sete páginas a respeito da Operação Mãos Limpas (em italiano Mani Puliti), ocorrida na Itália nos anos 1990. Essa operação policial é a grande inspiração da Lava Jato. E qual foi o resultado prático dessa operação policial, que em dois anos expediu 2993 mandados de prisão e colocou 6059 pessoas sob investigação? Economicamente, foi desastrosa para a Itália, já que fez uma devassa em empresas nacionais e ao mesmo tempo não tocou em multinacionais. E hoje vemos a Itália como sendo um dos países periféricos da União Européia que periodicamente se encontram sob situação de crise econômica e submetidos às políticas de austeridade impostas pela Alemanha. A tal ponto que hoje em dia o país peninsular, junto com Espanha, Portugal, Irlanda e Grécia, faz parte daquilo que a imprensa anglófona chama de PIIGS, como uma referência ao péssimo desempenho econômico dos cinco países desse grupo, cujas economias foram consideradas particularmente vulneráveis por causa do alto endividamento e do alto déficit público em relação ao PIB. E politicamente, abriu o caminho para Silvio Berlusconi se tornar o poderoso chefão da Itália, na medida em que enfraqueceu as principais forças políticas do país que lhe poderiam fazer frente em termos eleitorais. E de cereja do bolo, segundo artigo publicado no Esquerda Diário, os procuradores de lá também tinham seus contatos com magistrados norte-americanos.
Conclusão
Esse é um momento em que o vulcão da luta de classes que permeia a sociedade brasileira desde os primórdios de sua história está mais ativo que nunca, expelindo lava para tudo quanto é canto (vulcão esse que até os eventos de junho de 2013 estava adormecido). A idolatria que os coxinhas tem para com o juiz Moro nada mais é que uma manifestação disso, a tal ponto de tratá-lo como se fossem um herói de moral ilibada. É uma imagem que os grandes veículos de comunicação nacionais criaram em torno dele e que é tão verdadeira quanto uma nota de 1000 reais. Mas, como visto nos casos das obras citadas no penúltimo item, ele e sua equipe não tiveram a menor consideração pelos empregos daqueles que trabalhavam em empresas como a Odebrecht e a Camargo Correa e que estavam empregadas em várias obras. E que certamente não terá a menor clemência na hora em que ele resolver investigar o teu empregador por supostamente receber alguma propina do Marcelo Odebrecht ou do Eike Batista. Vai passar o lança-chamas na empresa onde você trabalha, a reduzirá a cinzas e você ficará sem teu ganha-pão diário tal qual tem feito com a Odebrecht. E se ele pinta e borda em cima do Marcelo Odebrecht, do Othon Pinheiro da Silva e do Eike Batista, o que dirá do teu empregador caso ele resolva investigá-lo? Na certa o olho da rua o aguarda.
E, se o juiz Moro faz o que faz para cima do Lula, da Dona Marisa e outros petistas, o que dirá de você, pobre mortal, quando resolver te mover alguma ação penal ou judicial? Acha que o juiz Moro, Dallagnol e companhia limitada terão clemência de você, que tanto jogou confete para eles em manifestações de rua, que tanto inflou bonecos do Lula e da Dilma com roupa de presidiário e colocou adesivos em seu carro dizendo que apoia a autonomia da Polícia Federal? Não, você, que no fim não passou de massa de manobra dele e dos grandes meios de comunicação, não terá clemência alguma. Não terão pudor algum em te colocar na prisão por 30 anos ou mais e sentirá na pele o mesmo que o Lula e a família dele, o Othon Pinheiro da Costa, o José Dirceu e tantos outros sentiram diante do lawfare deles. Além disso, você acha que ele, do alto de suas mordomias, constantes idas aos EUA e vida nababesca regada a salários muito acima do teto permitido por lei, se importa de verdade com você? Ele, que é um sujeito reacionário até a medula e que mal sabia o que era pobre até próximo dos 30 anos de idade? Não, ele está nem aí para você. Ele é uma pessoa que vive em sua redoma particular, isolado totalmente do mundo em que você vive. Ele está pouco se lixando se você está desempregado ou não, ou qualquer outro problema que o flagele. Até por que isso não é problema dele.
Ou seja: vocês, ao jogar confetes para esses juízes e promotores e pedindo impeachment da Dilma, Lula na cadeia, morte a Dona Marisa e fora PT, estão é chocando o ovo da serpente que mais cedo ou mais tarde irá lhes picar. E essas picadas serão recheadas do mais letal veneno, cujo sabor será o mais amargo possível. Apenas lhes peço uma coisa: acordem para a realidade antes que seja tarde demais. Caso contrário, a Ditadura do Judiciário, que Ruy Barbosa classificou como a pior ditadura existente, lhe aguarda ali na esquina. E antes que o Brasil, que antes da Lava Jato começar passava por um momento de otimismo econômico, se torne economicamente a Itália latino-americana.

Foto – A frase atribuída a Ruy Barbosa sobre a ditadura do judiciário.
Fontes:
A justiça mais cara do mundo. Disponível em: http://oglobo.globo.com/opiniao/a-justica-mais-cara-do-mundo-19689169
A Lava Jato destrói empresas nacionais e desemprega milhões! Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wPqMlVmrlG4
A verdade sobre a Operação Lava Jato. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PifSN8mVMh4
Bandeira de Mello: morte de Marisa foi só celebrada pela escória humana. Disponível em: http://www.brasil247.com/pt/247/sp247/278579/Bandeira-de-Mello-morte-de-Marisa-s%C3%B3-foi-celebrada-pela-esc%C3%B3ria-humana.htm
Banestado: ali começou o “não vem ao caso”. Disponível em: https://www.conversaafiada.com.br/politica/banestado-ali-comecou-o-nao-vem-ao-caso
Como foi a Operação italiana que teria inspirado a “Lava Jato”? Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/11/141115_maos_limpas_italia_ru
Documentário: “Destruição a Jato”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=o_c_-9uso4c
Empresas investigadas na Lava Jato e Zelotes equivalem a 14% do PIB. Disponível em: http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,empresas-investigadas-na-lava-jato-e-zelotes-equivalem-a-14-do-pib,10000057996
Engenheira brasileira vive a maior crise. Disponível em: https://www.conversaafiada.com.br/economia/engenharia-brasileira-vive-a-maior-crise
Escândalo do Banestado. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Esc%C3%A2ndalo_do_Banestado
Judiciário, reacionário por sua própria natureza. Disponível em: http://causaoperaria.org.br/judiciario-reacionario-por-sua-propria-natureza/
Juízes estaduais e promotores: eles ganham 23 vezes mais do que você. Disponível em: http://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/juizes-estaduais-e-promotores-eles-ganham-23-vezes-mais-do-que-voce.html
Justiça condena ex-presidente da Eletronuclear a 43 anos de prisão. Disponível em: http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,justica-condena-ex-presidente-da-eletronuclear-a-43-anos-de-prisao,10000066863
Lawfare à brasileira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=x9HkUSSABms
Lista com salários de juízes e desembargadores cai na net e causa indignação. Disponível em: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/lista-com-salario-de-juizes-e-desembargadores-cai-na-internet-e-causa-indignacao/
Mãos Limpas quebrou a Itália, Lava Jato quebrou o Brasil. Disponível em: http://www.dm.com.br/geral/2015/04/maos-limpas-quebrou-a-italia-lava-jato-quebra-o-brasil.html
Moro aos questionamentos de Paulo Pimenta: “não vou comentar”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TlNC5RFmLew
O plano “Mãos Limpas” de Sérgio Moro e os interesses dos EUA. Disponível em: http://esquerdadiario.com.br/spip.php?page=gacetilla-articulo&id_article=11749
Pessoas torcem pela morte de Dona Marisa após AVC. Disponível em: https://conexaopol.blogspot.com.br/2017/01/pessoas-torcem-pela-morte-de-dona.html
Quanta coincidência! Quem julga o julgador? Disponível em: https://theotoniodossantos.blogspot.com.br/2016/03/quanta-coincidencia-quem-julga-o.html
Sérgio Moro e Marcelo Bretas, comportando-se como crianças, comandam jogo mortal para o Brasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PW4E-5dp_io
TRF4 – Acesso à Informação – Consulta Remuneração. Disponível em: http://www2.trf4.jus.br/trf4/controlador.php?acao=contracheque_transparencia#
Wikileaks: EUA criou curso para treinar Moro e outros juízes. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Wikileaks-EUA-criou-curso-para-treinar-Moro-e-juristas
Wikileaks vaza bilhete sobre cooperação entre Sérgio Moro e EUA. Disponível em: http://www.ocafezinho.com/2016/03/23/wikileaks-vaza-bilhete-sobre-cooperacao-entre-sergio-moro-e-eua/



NOTA:

[1] Leia-se “Odebrerrt”, pois no alemão (o sobrenome Odebrecht é de origem germânica) a partícula ch tem o mesmo do j no espanhol, do kh no russo e do h no inglês e no húngaro: r aspirado.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Globalização, Globalismo, Globismo.


Por Marcus Valerio XR (com adaptações)
Vejamos um esforço de diferenciação destes três termos, que estão em ordem inversa de popularização, pois Globalização tem sido uma palavra exaustivamente repetida nas mídias, Globalismo tem se popularizado recentemente, e Globismo permanece como um termo exótico e de nichos específicos, além de ser utilizado apenas no Brasil.
A confusão entre os dois primeiros já é constante na língua inglesa, sendo que globalization e globalism por vezes são vistos como sinônimos, por vezes como antagônicos ou mesmo como termos hierarquizados, onde globalization seria uma medida de globalism.
Em português também tem havido confusões similares e por vezes em sentido contrário, e uma simples busca no Google há de mostrar opiniões largamente distintas. No entanto, parece haver um meio de compreendê-los que resiste à maior parte das confusões.

GLOBALIZAÇÃO:
Seria qualquer forma de internacionalização de coisas e procedimentos, em especial comércio, trocas e deslocamento de pessoas. A ideia de uma "aldeia global", hoje amplificada graças aos novos meios de comunicação e transporte, mas que já ocorre em escala menor há milênios, e exemplo da expansão dos impérios antigos, da Rota da Seda, de desbravadores como Alexandre Magno ou Marco Polo, bem como as grandes navegações e descoberta do Novo Mundo.
Frequentemente é vista de forma neutra, como um fenômeno espontâneo e inevitável, com benefícios e malefícios intrínsecos. Por um lado, facilita o comércio e acesso a bens de consumo mesmo por parte de populações mais pobres, por outro dificulta o desenvolvimento devido a dificuldade de competição que favorece os países mais ricos. Políticas protecionistas são vistas como opositoras da globalização, que em geral pressupõe o Liberalismo tanto Econômico quanto social, visto que costumes e culturas também se misturariam e transitariam pelo globo.
GLOBALISMO:
Quase sempre visto de forma pejorativa pelos usuários do termo, muitos dirão que é o lado ruim, ou mesmo a verdadeira face, da Globalização, pois enquanto a primeira parece apenas afirmar uma dissolução de barreiras entre os povos em função de um "livre mercado", o Globalismo seria a imposição de um modelo único por parte de uma força central específica que submete todo o planeta.
Assim, embora haja utilizações diferenciadas e por vezes mesmo invertidas destes termos, em geral os usuários dirigem suas críticas ao Globalismo, pois se há pouca disposição em criticar a simples abertura comercial, que pode ser tanto benéfica quanto maléfica mesmo para alguns países menos desenvolvidos, por outro lado sobra disposição para criticar qualquer forma de imposição dos mais desenvolvidos sobre os ainda em desenvolvimento. Nesse sentido, o Globalismo é visto como uma forma de Imperialismo.

Figura 1 - Globalização: expectativa vs realidade
No entanto, pode-se afirmar que o Globalismo seria o resultado inevitável da Globalização, visto que os países mais desenvolvidos inevitavelmente levam vantagem na "livre" competição internacional, terminando por dominar os mercados. Mas também é possível reverter o enfoque e dizer que grande parte dessa vantagem deriva justo de uma má globalização, que por vezes se dá de forma assimétrica, com os países mais desenvolvidos forçando a abertura dos países menos desenvolvidos, mas eles próprios se abrindo pouco em contrapartida.
Via de regra, costuma-se dar um forte enfoque “culturalista” na reação ao Globalismo, que evidentemente teria como maior foco de irradiação os EUA, impondo seus consensos culturais liberais a todos os povos com um farto arsenal de rótulos depreciativos contra qualquer resistência, embora seja bom notar que a própria cultura norte-americana é em larga parte também refratária a esses valores, o que leva a inevitável conclusão de que o Globalismo não é ditado pelo país, mas pela elite financeira internacionalista, sem vínculos reais com o povo.

GLOBISMO:
Por fim, apesar das confusões, talvez este terceiro termo exclusivo de nosso idioma venha ajudar no esclarecimento. Esse neologismo tem sido usado para se referir aos interesses e sistema de pensamento das organizações Globo, em especial da Rede Globo de Televisão.
Por uma feliz coincidência, o nome dessa cadeia empresarial, pertencente a um seleto grupo da elite bilionária brasileira, se encaixa perfeitamente com o tema em questão. A Rede Globo seria então o maior representante do Globalismo no Brasil, replicando os interesses não exatamente dos EUA, mas da elite econômica internacionalista que de fato impõe o globalismo imperialista.
É perfeitamente evidente que a Globo defende valores alheios ao da maior parte da população, se posicionando sempre de forma liberal a respeito de temas polêmicos como aborto, homossexualidade, Feminismo e outros, ainda que em geral de forma sutil visto depender da audiência de uma população sabidamente conservadora.
Da mesma forma, também se posiciona favorável ao liberalismo econômico por meio do apoio, por vezes nem tão sutil, a ideologias e partidos políticos com propostas de desregulação privatistas e rentistas. Visto tudo isso ser de perfeito interesse das elites financeiras, as maiores beneficiárias do ambiente liberal.
São exatamente estes os interesses do Globalismo, que visa impor o liberalismo econômico e o liberalismo cultural ao máximo possível ao redor do mundo, embora com largo sucesso apenas no ocidente. Assim, a Globo é um exemplo perfeito desse alinhamento ideológico.
Por fim, ainda que se possa distinguir o Globalismo da Globalização, não muda o fato de que este último é do interesse do primeiro, visto ser no ambiente globalizado do mercado "livre" internacional que o Globalismo usufrui das vantagens de atender aos interesses de quem já possui muito poder e encontra maior facilidade de, em geral de forma sutil, impô-lo à toda parte da mais ampla forma possível. E se necessário, apelando ao uso da força para impor a "democracia" e a "liberdade" mesmo aos povos que não estão interessados nela, característica indelével do Imperialismo.