domingo, 21 de agosto de 2016

Os titereiros do capital e as marionetes da esquerda.

Em 18 de Abril,1 logo após a aprovação do Impeachment de Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, escrevi que o fato de quase nenhum deputado ter citado os supostos motivos técnicos do pedido de Impeachment mas terem vastamente feito referências aos ataques promovidos pelo PT contra os valores tradicionais familiares, religiosos, morais e éticos, deveria servir de lição para o que ainda resta da Esquerda original aprender que as pautas da Nova Esquerda devem ser abandonadas pelo bem de qualquer projeto de governo popular, trabalhista e nacional.
Semanas atrás a mesma coisa se repetiu no Senado. Discursos inflamados em defesa da família praticamente emudeceram os discursos técnicos, e fraquíssimos, sobre pedaladas fiscais, agora ainda mais debilitados após a temerosa "pedalada prévia"2 do governo interino ter superado colossalmente as pedaladas de Dilma, e Temer, que já superavam em muito as dos governos anteriores. Ainda mais vexaminoso foi ver os discursos em defesa do governo terem sido bastante bem fundamentados na crítica aos pressupostos do Impeachment, não tendo sido sequer confrontados pelos discursos da oposição, mas ao mesmo tempo não se ter visto uma única frase que tentasse ao menos apaziguar as verdadeiras motivações culturais e morais que de fato moveram a maior parte do "golpe" ao menos do ponto de vista popular.
O PT e seus aliados se tornaram totalmente insensíveis para a sensibilidade do povo, e o governo ainda coroou o abandono da Luta de Classes e dos ideias originários da Esquerda com a proposição do famigerado PL 257/2015, que serve como um golpe final no resto de Trabalhismo que o partido ainda tinha enquanto governo.
De certo isso irá se repetir quando os senadores se pronunciarem nova e definitivamente. As ingerências administrativas e econômicas do governo são apenas o pretexto, as motivações reais são outras, e é evidente que mesmo que a inocência de Dilma fosse cristalinamente provada com as mais retubantes e incontestáveis evidências, não faria qualquer diferença. Até por se tratar de ambiente político com seus francos interesses lobistas independente dos fatos, e não jurídico onde a imparcialidade e racionalidade tem que ser ao menos simuladas.
O partido que nasceu como uma defesa dos trabalhadores, assim que assumiu a presidência, acelerou o processo de abandono de seus ideais de Esquerda originais rumo ao ideais da Nova Esquerda, ativando um verdadeiro Hiper Drive no Governo Dilma. Saíram as lutas trabalhistas e ficaram as feministas, homossexualistas, racialistas, abortistas e até "droguistas"! Tudo isso, muitíssimo bem financiado por milhões de dólares de Fundações Internacionais controladas pelas oligarquias máximas norte americanas, esbanjando "progressismo" e seu aberto apoio a tudo menos o que verdadeiramente interesse à totalidade dos trabalhadores.
Não parece que a Lição será aprendida, como questionei em 6 de Maio de 2015 3 ao comentar o Caderno de Teses do PT. Legiões de esquerdistas nos mais diversos partidos, grupos de estudo e até mesmo sindicatos parecem continuar completamente ávidos a abraçar causas de gênero, sexualidade e outras na pauta trabalhista. E o simples apontamento de que tais pautas são claramente financiadas pelas suas nêmesis ultra capitalistas em pessoa parece ter pouco ou nenhum efeito na crença de são perfeitamente bem intencionadas e funcionais, em geral por pensarem que se trata de um mero "oportunismo" das elites financeiras em bancá-las, mas que, no âmago, elas permanecem perfeitamente sãs e compatíveis com a pauta dos trabalhadores apesar de todas as evidências ao contrário.
Cabe então explicar melhor o porquê dessa incompatibilidade extrema.
TRANVERSALIDADE
As pautas da Neoesquerda são essencialmente diferentes da pauta Trabalhista da Esquerda original, mesmo a dos socialistas e comunistas revolucionários que já eram um tanto mais abrangentes, visto que buscavam não apenas o interesse mais direto dos trabalhadores, mas a transformação radical de toda a sociedade. No entanto, essa transformação, por mais exagerada e ingênua que fosse, ainda tinha como objetivo primordial o pleno interesse e bem estar do trabalhador.
Mas as pautas da Nova Esquerda são transversais, atendendo o interesse de um segmento da sociedade que pode ou não ser trabalhador. A pauta feminista defende o interesse mesmo das mulheres de alta classe, rentistas e que jamais trabalharam na vida, e aliás foram justo as mulheres burguesas que movimentaram o Feminismo como o conhecemos hoje. Não tem a ver com ser trabalhadora, mas com ser mulher independente de ser trabalhadora ou não. Ela pode se voltar contra trabalhadores em favor de grandes empresárias, investidoras da bolsa, proprietárias de grande capital. Coisa que jamais, sob hipótese alguma, poderia ocorrer numa pauta trabalhista.
O mesmo ocorre com pautas de raça, sexualidade, pautas ambientais, que invariavelmente prendem trabalhadores que vivem da caça ou agricultura de subsistência. E ainda que tais casos possam ser mais raros e o mais comum seja a defesa da mulher trabalhadora, inclusive a trabalhadora do lar, ou do negro trabalhador, ou do homossexual que trabalha etc, isso ocorre por contingência. A maior parte das ações policiais contra crimes também vão em defesa de trabalhadores vítimas, nem que sejam de criminosos também trabalhadores. Mas ninguém diz que o combate aos assaltos, aos homicídios, ao tráfico de drogas etc, sejam pautas da Esquerda! Pelo contrário! São antes vistas mais como meios de repressão do que de justiça.
Então porque o racismo, os ginocídios, ou os crimes ambientais o seriam? Estes são crimes a serem combatidos pelo aparato estatal, judicial e policial, não por sindicatos e estudantes de esquerda!
O que nos leva ao segundo ponto.
INVERSÃO DE MENTALIDADE
Um dos conceitos mais cruciais das pautas trabalhistas é o da solidariedade de classe, que visa proteger o trabalhador dos abusos das classes dominantes e é em especial refratária a intervenção estatal, judicial e policial. Há uma mentalidade de severa desconfiança em relação a essas instituições que são consideradas como instrumentos de opressão a serviço do Capital, e com bons motivos, uma vez que é fato que os poderes financeiros tem imenso controle sobre o aparato estatal.
No entanto, essa mesma mentalidade, tão cara à Esquerda originária, é completamente invertida no momento em que entra uma pauta neoesquerdista, que imediatamente demanda a ação das mesmíssimas instituições consideradas como instrumentos da opressão capitalista. Delegacias da Mulher, do Meio Ambiente, Ministérios da Igualdade Racial, Secretaria de Políticas para Mulheres, Legislações e mais Legislações, órgãos do governo, ONGs bancadas com dinheiro do grande capital estrangeiro, e todo o aparato de repressão judicial e policial que quase sempre levará à punição e encarceramento de trabalhadores.
Ou seja, num único estalar de dedos toda a mentalidade estrutural esquerdista de coesão trabalhista é virada do avesso! E o hábito de fazer essa inversão regularamente não demora a enfraquecer a própria consciência de classe.
DIVISÃO DE CLASSE
Potencializada pela Inversão, as pautas neoesquerdistas promovem a divisão da classe trabalhadora, que de meros trabalhadores passam a se subdividir por raça, gênero, credo, preferência sexual e uma séria de outras posturas e mentalidades. A luta dos trabalhadores dá lugar à lutas das mulheres, e contra quem as mulheres poderiam lutar senão contra os homens? Da mesma forma que os trabalhadores lutam contra os proprietários do capital, que são seus diferentes, contra quem mais negros iriam lutar senão contra os brancos, quer sejam trabalhadores ou não?
O simples fato de todas essas pautas serem amplamente financiadas por grupos econômicos elitistas deveria ser evidência cristalina de que não são aliadas na luta dos trabalhadores, pelo fato de que geram divisão, e o simples fato de serem abraçadas inevitavelmente fará com que consumam tempo e recursos que deveriam estar indo para a Luta de Classes, e não para uma luta dentro da classe. E isso se torna ainda mais grave dado o fato seguinte.
PROGRESSO INVERTIDO
Uma das mais marcantes características das pautas neoesquerdistas, principalmente a Feminista, é que na exata e inversa medida da pauta esquerdista original, quanto mais "avanços" se consegue, mais elas se revestem de urgência e mais o discurso se torna radical e agressivo. Se num determinado contextos as condições de trabalho estão melhoradas, com bons salários e benefícios, a tendência é os trabalhadores arrefecerem e se acalmarem. Até mesmo se acomodarem. Mas nas pautas da neoesquerda ocorre o exato contrário.
O Feminismo é praticamente inexistente nos países de real opressão a mulheres, em geral os de predominância islâmica, mas nos países mais igualitários e liberais do mundo, o Feminismo é vastíssimo, ostensivo, extremamente atuante e muitíssimo mais agressivo. Suécia, Islândia, Austrália, Inglaterra etc, são justos os países onde feministas declaram em alto e bom som um intenso ódio contra o gênero masculino, a família, a sociedade, e onde mais proclamam que mulheres são oprimidas e vítimas de uma Patriarcado opressor.
A "Dívida Histórica"4, ao pior exemplo das taxas de juros abusivas do sistema bancário, cresce infinitamente se tornando cada vez mais impossível de "pagar" quanto mais é paga! Assim, a tendência é a pauta neoesquerdista, da qual a Feminista é inquestionavelmente a mais ampla, crescer mais e mais tomando cada vez mais tempo e recursos da Esquerda, ao passo que as pautas trabalhistas legítimas ficam periodicamente adormecidas e não demoram a ser paulatinamente abandonadas.
Não é por outro motivo que em todos os países onde governos de esquerda chegaram ao poder, à medida que foram implementando pautas neoesquerdistas de demanda crescente, foram abandonando a causa trabalhista ao ponto da reversão, e após aprovar toda a sorte de "progressismos", terminam passando a atacar e reverter os direitos trabalhistas mais básicos.
Aprendendo a Lição
Quem quer que ainda acredite na luta dos trabalhadores ou mesmo almeje uma revolução socialista tem obrigação de, no mínimo, ter conhecimento do onde provém as causas neoesquerdistas, e em especial o dinheiro que as financias. Organizações sustentadas pela nata do Capitalismo Global como Open Society Foundations, W.K.Kellog Foundation, Rockefeller Family Fund, Rockefeller Foundation, David Rockefeller Foudation, Ford Foundation, Bill & Melinda Gates Foundation, 5 para citar só algumas, não estariam investindo bilhões de dólares em causas da Nova Esquerda se achassem que essas contribuiriam para uma revolução que socializaria seus meios de produção.
Embora a pauta Feminista tenha tido sim algum papel na Esquerda original, o fez quando este realmente tinha algo a ver com Igualdade de Gêneros, algo que no nosso contexto atual somente uma absoluta ignorância no assunto permite ainda acreditar. Mesmo assim, nos processos revolucionários, este antigo feminismo legou apenas uma igualdade formal de Direitos E Deveres em alguns segmentos da sociedade. Na URSS, por exemplo, houve um inédito contingente de mulheres combatentes, desde infantaria atá aviação de caça. Mas as pautas Feministas da Neoesquerda passam longe disto, estando focadas sobretudo num combate cultural contra as tradições familiares e morais. Essa guerra cultural em parte também foi tentada nos primeiros anos da URSS 6 ou da Coréia do Norte, mas afora a flexibilização de alguns papéis mais tradicionais, foi rapidamente abandonada num prazo de menos de uma década, assim que se verificou o estrago que fazia em qualquer projeto de sociedade minimamente são, especialmente nas taxas reprodutivas e nos índices de violência e pobreza ocasionados pela dissolução familiar.
Exatamente tendo aprendido essa lição da história, aqueles que mais teriam a perder numa revolução socialista descobriram uma excelente forma de sabotar as pautas trabalhista e revolucionária,7  passando a estimular pautas que sabem serem deletérias a qualquer movimento que ponha em risco os seus privilégios.
Sua atuação é discreta e JAMAIS mencionada na grande mídia. Mas não é secreta, exigindo poucos minutos de pesquisa para ser conhecida. E mais e mais pessoas estão denunciado essa interferência na Esquerda, não devendo demorar muito para que nenhum esquerdista minimamente engajado possa alegar ignorância.
Daí, o mínimo que se pode esperar é uma análise crítica e um sério ceticismo com relação as intenções dessas instituições, caso contrário, estará configurada evidente aceitação da participação ativa justo daquilo que esquerdistas ao menos um dia juraram combater, e o abandono confesso de qualquer esperança revolucionária trabalhista, deixando-se comprar pelo liberalismo econômico a assumindo de vez seu papel de marionete nas mãos dos titereiros do poder financeiro global.
As plutocracias financistas aprenderam a lição que a realidade tinha a lhes ensinar. Passou da hora do que resta da Esquerda séria fazer a mesma coisa.

Marcus Valerio XR
20 de Agosto de 2016
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5. Links correspondentes:



sexta-feira, 19 de agosto de 2016

A ingenuidade de Letícia Sabatella.




Foto – Letícia Sabatella.
Em 12 de agosto de 2016, Letícia Sabatella, a qual foi agredida por uma turba da direita raivosa na Praça Santos Andrade em Curitiba durante uma manifestação a favor do impeachment de Dilma que teve lugar no dia 31 de julho, publicou uma carta onde ela repudia o golpe judiciário-policial-midiático desse ano e faz toda uma defesa da democracia. Ao final da mesma carta, ela disse que “A democracia é nossa única chance de convivência saudável. Ninguém precisará ser impedido de caminhar na rua de sua casa, de conversar com um adversário de ideias, ninguém precisará mais sumir, ser exilado, preso, assassinado por seus posicionamentos, na história de nosso país, se a democracia for preservada”.
Em que mundo será que a atriz global vive para ter dito algo assim? As falas dela nos sugerem que ela não entende o país onde vive. Para começo de conversa, a atriz global não deixa claro que tipo de democracia ela defende: se é a democracia ocidental vigente nos dias de hoje (democracia essa que aqui no Brasil é defendida tanto por gente como Jair Bolsonaro e seus filhos quanto por gente como José Serra), que Alain Soral define como o “governo dos mais ricos” e onde a participação do povo se limita a votar em um candidato em eleições que acontecem a cada quatro ou cinco anos (e que quando o mesmo chega ao poder acaba governando muito mais para os reais donos do poder que para seu eleitorado) ou se é uma democracia participativa, como a que os finados Hugo Chávez e Muammar al-Kadaffi defendiam, onde o peso da decisão popular no exercício do poder de um país é muito maior?
As falas da atriz global também nos sugerem que ela ignora o fato de que vivemos em um país atravessado por um dos mais terríveis e ferozes conflitos de classe da face da Terra (se não o mais) entre o andar de cima e o andar de baixo da sociedade, que remonta desde os tempos coloniais. Tal conflito o PT escamoteou nesses anos todos através de sua política de conciliação de classes e agora está ressurgindo sob as mais diversas formas, tais como as manifestações de rua da direita raivosa a favor do impeachment de Dilma (incluindo aquela em que a atriz foi agredida), o Escola sem Partido (que é usado por muitos políticos conservadores como instrumento para fazer valer suas agendas político-ideológicas), a maneira extremamente seletiva como a equipe do juizeco provinciano Sérgio Moro tem agido desde o início das investigações da Operação Lava Jato, as vaias e xingamentos à presidente Dilma no jogo de abertura da Copa 2014, a crescente popularidade de figuras como Marco Feliciano, Jair Bolsonaro, Magno Malta e Marcel van Hattem e outros tantos. Fazendo uma analogia, tal conflito é como se fosse um vulcão que durante muitos anos esteve adormecido e que agora está expelindo lava, cinzas e fumaça para todo lado e em grande quantidade. Esse é o contexto de onde surge a onda conservadora que o país tem vivido nos últimos anos, e assim sendo tais manifestações não surgem do nada como muitos ingênuos pensam (onde ela certamente se enquadra).
No andar de cima, há uma elite dominante que historicamente sempre tratou o Estado brasileiro como seu balcão de negócios particular (a ponto de usar os endividamentos interno e externo do país como forma de assalto ao Estado), é e sempre foi mancomunada com negócios internacionais e que em 1964, ante as reformas de base do presidente João Goulart, não hesitou em se valer dos militares para a salvaguarda de seu status quo privilegiado. E que mesmo após o fim do regime civil-militar continuou sendo o poder por trás do trono da política nacional (ou seja, a redemocratização dos anos 1980 não passou de uma troca dos fantoches que estão à vista de nossos olhares). Agora que a política de conciliação de classes dos governos Lula e Dilma não mais interessa a essa elite (que foi classificada por Darcy Ribeiro em entrevista ao programa Roda Viva em 1988 com adjetivos tais como azeda, ranzinza, medíocre e cobiçosa e como a responsável pelo atraso do Brasil em relação às Grandes Potências), está se valendo dos juízes e promotores da Operação Lava Jato (vulgo República de Curitiba), tão ou mais reacionários quanto os militares que deram o golpe civil-militar de 1964, para tirar o PT do poder.
E não é só isso: a serviço dessa mesma classe e seus interesses também estão órgãos como a mídia de massa (incluindo a Rede Globo onde ela trabalha, a Bandeirantes, o SBT, a rádio CBN, a Revista Veja e jornalões como o Estado de São Paulo e a Folha) e os tribunais, os quais como a própria história mostra nunca tiveram simpatia alguma por governos de caráter mais popular. Haja vista o que foi feito com Getúlio Vargas em 1954, com Jango em 1964, com Brizola em seus dois mandatos como governador do estado do Rio de Janeiro e mais recentemente o que tem sido feito com Lula e Dilma desde que estourou o escândalo do mensalão em 2005 (e é essa mesma mídia que no tocante à corrupção passa a mão em partidos como o PSDB e ao mesmo tempo joga todas as pedras possíveis e imagináveis no PT, pois o tucanato, na condição de um partido de caráter elitista, é mais afinado com seus interesses de classe). Ou mesmo o já mencionado comportamento extremamente seletivo da Operação Lava Jato (e o pior de tudo é ver os partidários do Escola sem Partido acharem que só há direcionamento ideológico na pregação ideológica de um professor de esquerda que dá aula em escolas e universidades). Resumindo a ópera: o PT, em algum momento de sua história, renunciou a luta ideológica contra os elementos reacionários da sociedade brasileira e agora está tomando uma bela punhalada nas costas desses mesmos elementos com os quais colaborou nesses anos todos. Ou seja, está colhendo o que plantou.

Foto – Alain Soral sobre a democracia dos dias de hoje.
Um pouco mais abaixo da pirâmide social, temos a classe média. Diferente do que muitos podem pensar, não é a classe dominante, e sim a classe média (ao menos parte significativa dela) que realmente tem ojeriza em relação aos estamentos menos abastados da sociedade brasileira, que costuma classificar programas sociais como o Bolsa Família com adjetivos tais como esmola e fábrica de vagabundos e vaiou a Dilma na abertura da Copa 2014. Também é essa mesma classe que periodicamente vai às ruas vestida de verde e amarelo protestar contra a corrupção (e ainda usando camisa da seleção brasileira, que carrega o emblema da CBF [Confederação Brasileira de Futebol], uma entidade extremamente corrupta e que através de seus desmandos e péssima administração tem arruinado com o futebol brasileiro) e bradar mantras como “a minha bandeira jamais será vermelha” e “não à Cubanização do Brasil”, que pensa que a corrupção mostrada na grande mídia é o maior problema que aflige o Brasil (sendo que esse é o mais baixo nível do problema), tem como heróis figuras como o político Jair Bolsonaro (não raro por eles chamado de Bolsomito) e o juiz Sérgio Moro, vaia médicos cubanos em aeroportos e que faz panelaços nos horários de programa eleitoral do PT. Segundo Marilena Chauí, tal classe tem como grande sonho, além de poder desfrutar de um padrão de consumo from United States, se tornar parte da classe dominante (o que obviamente eles jamais serão) e como grande pesadelo se tornar proletária. Ideologicamente, ela é extremamente abobada e alienada, já que vive do senso comum que a grande mídia e seus sequazes (entre eles Raquel Sheherazade, Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Joice Hasselmann, Miriam Leitão, Arnaldo Jabor e outros tantos) destilam. Em outras palavras, tais elementos da classe média se comportam como se fossem o cão de guarda daqueles que estão na copa da árvore.
E mais abaixo estão os pobres, aqueles que os elementos mais reacionários da classe média gostam de taxar de burros, alienados, analfabetos e curral eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Tal estamento social teve certa ascensão social nesses anos todos graças aos programas sociais dos governos Lula e Dilma, entre eles o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida (a tal ponto de o governo ter inventado o conto falso de uma nova classe média, assim como de ter feito alguns desses elementos da classe média acharem que “aeroporto virou rodoviária” e conversas afins). Entretanto, tais programas em momento algum mexeram com os privilégios da classe dominante, bem diferente das reformas de base de Jango. E esse é um dos motivos pelos quais durante os primeiros anos de governo petista não houve clima para um golpe como o que houve em 1964. E, além disso, a inclusão social promovida pelas gestões Lula e Dilma não foi pautada pela educação e o exercício da cidadania das massas, e sim pelo consumo (dai que nascem fenômenos como os rolezinhos em Shopping Centers – os quais de contestação ao sistema vigente nada tem, diga-se de passagem).
Segundo Jessé de Souza, a verdadeira origem do Brasil não está na corrupção existente em Portugal[1], e sim na escravidão. E o que o sociólogo potiguar quis dizer com isso? O Brasil passou quase 400 anos de sua história debaixo de escravidão legalizada e institucionalizada, e isso obviamente deixou suas marcas na mentalidade principalmente das elites dominantes (que, diga-se de passagem, é a verdadeira quadrilha-mor do Brasil), a ponto de tratar o povo como se fosse carvão a ser queimado em um forno da forma mais descartável possível. Já se passaram 127 anos desde que a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, e recentemente vimos o presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), Robson Braga de Andrade, propor aumentar a carga horária do trabalhador brasileiro de 44 para 80 horas semanais. Diga-se de passagem, o ataque que o governo Temer está promovendo aos direitos trabalhistas nada mais é que uma manifestação do pendor escravocrata da parte da classe dominante nacional, que em nome de seus lucros pode até jogar no lixo a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) e a lei Áurea.
Entendam uma coisa: quando a nossa classe dominante está decidida a derrubar um governante que não é de seu agrado, ela irá fazer todo o possível para defender seu status quo privilegiado, nem que para isso tenha que usar militares, juízes, promotores, jornalistas ou o que mais tiver a seu dispor. E nem que para isso ela tenha que instituir um estado de exceção como o que foi feito em 1964, com direito a censura da imprensa, tortura, Operação Condor, prisões e perseguições de seus inimigos de classe. E não serão os apelos por democracia como os de Letícia Sabatella que irão impedir que um episódio como o que aconteceu no Brasil em 1º de abril de 1964 ou no Chile em 11 de setembro de 1973 se repita.

Foto – Jessé de Souza a respeito do conflito de classes inerente à sociedade brasileira.
Fontes:
As abominações da classe média – Marilena Chauí. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=3MX5b3EfMAw
Darcy Ribeiro, sobre a elite. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SX5O-IAyO38
Coxinhas – quem são e o que pensam. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ytTcp6s8Zno
Jessé de Souza: impeachment é mentira das elites para enganar pobres e classe média. Disponível em: http://www.ocafezinho.com/2016/04/13/jesse-de-souza-impeachment-e-mentira-das-elites-para-enganar-pobres-e-classe-media/
Nildo Ouriques – os três níveis da corrupção. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=xbgVmPeVn08
Para Jessé de Souza, classe média é sadomasoquista ao apoiar as elites. Disponível em: http://jornalggn.com.br/noticia/para-jesse-de-souza-classe-media-e-sadomasoquista-ao-apoiar-elites
Sabatella – democracia é nossa única chance de convivência saudável. Disponível em: http://www.brasil247.com/pt/247/cultura/249297/Sabatella-democracia-%C3%A9-nossa-%C3%BAnica-chance-de-conviv%C3%AAncia-saud%C3%A1vel.htm



[1] Segundo Jessé de Souza, tal mito se originou na sequência da derrota de São Paulo para Vargas em 1932 e o posterior intento da elite paulista em criar uma intelectualidade liberal que batesse de frente com o pensamento nacionalista varguista, e teve entre seus principais difusores figuras como Sérgio Buarque de Holanda. Objetiva, acima de tudo, demonizar o Estado quando ele é ocupado por seus inimigos de classe, assim como o desejo de em detrimento do Estado montar a ideia igualmente falaciosa de que o mercado reúne todas as virtudes enquanto que o Estado é o espaço das mazelas, de forma a justificar o Estado enquanto balcão de negócios particular do poder econômico (parafraseando Karl Marx) e assim demonizar toda e qualquer tentativa deste de colocar rédeas curtas nas atividades dos grandes capitalistas. Dai que nasce a falácia de que muitos propagam de que corrupção existe apenas no Estado (sendo que em realidade os grandes corruptores não estão no Estado e sim no setor privado).

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Escola sem Partido - do que se trata? Parte 5




Foto – Logo do Escola sem Partido.
Na primeira parte da série de artigos a respeito do Escola sem Partido, falamos a respeito da ligação entre o crescimento da proposta do advogado Miguel Nagib (que existe desde 2004) e a falência político-ideológica do petismo e a onda conservadora que o país vive  no presente momento (a ponto de ter hoje aquilo que muitos chamam de “O Congresso mais conservador desde 1964”). Na segunda parte, falamos sobre a questão econômica envolvida e a repercussão que os comentários de Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido teve. Na terceira parte, falamos a respeito da questão do partidarismo da mídia de massa e do Projeto de Lei 5921/2001, de autoria de Luís Carlos Hauly (PSDB-PR), que gerou grande polêmica em 2014, quando a questão da publicidade infantil foi tema do ENEM daquele ano. Na quarta parte, falamos a respeito da questão do partidarismo dos tribunais e da Operação Lava Jato. Afinal, se os partidários do Escola sem Partido (tanto da ala socialdemocrata quanto da ala neoconservadora) fazem tanta questão de exigir isenção ideológica da parte dos professores de esquerda em sala de aula, por que não fazer o mesmo também com a mídia de massa e os tribunais, que são tão ou mais partidários quanto os primeiros? E agora na quinta parte falaremos a respeito daquilo que Nildo Ouriques e Waldir Rampinelli Júnior chamam de o sistema de produção mundial de conhecimento.
Como já mencionado nos artigos anteriores a respeito do Escola sem Partido, os elementos mais raivosos da direita (entre eles Maro Filósofo, Nando Moura, Paula Marisa e tantos outros), vivem se queixando de que nas escolas e universidades brasileiras existe um predomínio esquerdista devido ao fato de que grande parte de seus docentes terem um direcionamento ideológico mais voltado à esquerda e não a direita. Entretanto, eles, tacanhos do jeito que são, não percebem que, muito embora existam de fato esses professores de esquerda que de vez em quando fazem sua pregação ideológica, o mesmo não se verifica com a produção de conhecimento científico nas mesmas, que por sua vez está inserido e ordenado dentro da lógica de acumulação capitalista.
Para começo de conversa, o que consiste esse sistema mundial de produção de conhecimento e o que ele faz? De acordo com um trecho do texto “Ciência e Pós-Graduação na Universidade Brasileira”, trata-se de uma articulação entre o Estado nacional de um país central da engrenagem capitalista mundial, universidade e empresa multinacional, com a intenção de manter sob o controle capitalista o desenvolvimento e a aplicação tecnológica da ciência. E qual será que é a bandeira partidária desse sistema de produção de conhecimento? O partido do status quo dos grandes capitalistas, já que esse sistema, junto com outros órgãos como a mídia de massa faz parte de seu aparato de poder ideológico e que cuja produção científica de forma alguma questiona a lógica de acumulação capitalista. Assim como o fato de que as descobertas científicas que são produzidas por esse sistema posteriormente aparecem no mercado sob a forma de produtos vendidos por empresas multinacionais.
A simples existência dessa fuga de cérebros para os países centrais é extremamente danosa para os países de origem desses cientistas, podendo ser tão ou mais nocivo quanto guerras ou mesmo catástrofes naturais como furacões, terremotos, enchentes devastadoras, crises de fome ou epidemias. Mas, se esse sistema de atuação global, que visa acima de tudo perpetuar o poder das nações centrais sobre as nações periféricas, é tão danoso para as segundas, por que será que sua máscara ainda não caiu perante o mundo? Simplesmente porque os grandes meios de comunicação, que também estão a serviço do capital e seus agentes, escamoteia essa realidade a todos nós, o apresentando não como ele realmente é e suas consequências nefastas, e sim como um estímulo à meritocracia (a mesma meritocracia que a direita raivosa tanto fala em suas ilações costumeiras contra o Estado) e algo que propiciará aos cientistas das nações periféricas o acesso a tudo que há de mais moderno em termos de tecnologia e ciência. Além disso, há também aqueles que se beneficiam desse sistema, entre eles o professor individual que dele participa e o programa de pós-graduação que é avaliado pela CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior) e seu sistema de pontuação. Até hoje, o único que eu vi falando sobre esse assunto é o Nildo Ouriques em alguns textos e palestras.
Em outras palavras, isso que os países centrais fazem com os países periféricos (e com a anuência de seus governantes, diga-se de passagem) nada mais é que reproduzir a mesma lógica presente em acordos comerciais desiguais como o de Methuen entre Portugal e Inglaterra (1703), o de Eden-Rayneval entre França e Inglaterra (1786) e os tratados desiguais que a China foi submetida no decorrer do século XIX, só que aplicada para a produção científica. Nesses acordos, o país de economia mais fraca concedia a um país de economia mais forte matérias primas baratas (vulgo commodities), e em troca recebia do país de economia mais forte produtos industrializados com valor agregado muito maior. Obviamente que o país de economia mais forte saia-se beneficiado em detrimento do país de economia mais fraca, que por sua vez acumula déficits e mais déficits em sua balança comercial.
No caso específico do tratado de Methuen (também conhecido como o tratado de panos e vinhos), Portugal vendia à Inglaterra seus vinhos e em troca recebia os tecidos manufaturados britânicos (os mesmos tecidos manufaturados que mais ou menos na mesma época ajudaram a arruinar com a produção têxtil indiana), e com o tempo os rombos na balança comercial advindos desse tratado foram se acumulando para o lado de Portugal (já que os tecidos ingleses tinham um valor agregado muito maior que os vinhos portugueses), e para cobri-los a coroa lusitana utilizou-se do ouro extraído no Brasil. Isso também destruiu com as poucas fábricas existentes em solo lusitano e impediu uma diversificação da economia portuguesa, ao mesmo tempo em que grande parte das terras cultiváveis portuguesas era destinada à atividade vinicultora. Durante o reinado de Dom José I (1750 – 1777), o marquês de Pombal tentou reverter essa situação, mas seu intento não contou com o apoio da aristocracia lusitana (que era ligada à atividade vinicultora), e ao final do século XVIII, com o esgotamento do ouro no Brasil, a economia portuguesa voltou a ser assolada por uma grave crise econômica. Com o ouro vindo do Brasil através de Portugal, a Inglaterra, por sua vez, pode viabilizar sua Revolução Industrial e ainda financiar suas guerras da segunda metade do século XVIII e primeira metade do século XIX. No fim das contas, o ouro e o vinho não geraram um processo de industrialização e modernização da economia portuguesa, já que não houve o devido protecionismo ao mercado interno lusitano e os investimentos na estrutura produtiva do país. Ao final do mesmo século, houve ainda a versão francesa do tratado de Methuen, o tratado de Eden-Rayneval, o qual destruiu com a indústria francesa e através de suas consequências nefastas ajudou a preparar o terreno para a Revolução de 1789.

Foto – A negociação do Tratado de Methuen em quadrinhos.
De forma análoga ao que aconteceu no intercâmbio comercial anglo-lusitano no decorrer do século XVIII, esse sistema promove um intercâmbio científico extremamente desigual entre os países periféricos e os países centrais da engrenagem capitalista global. Os cientistas e pesquisadores de nações periféricas, do alto de sua ingenuidade, publicam seus artigos (também conhecidos como papers) em uma revista estrangeira (que não raro são chamadas de revistas internacionais, sendo que em realidade não passam de revistas de universidades dos países centrais). Todo esse conhecimento é recolhido pela já mencionada articulação entre estado, universidade e empresa multinacional. Desse trabalho se origina um produto que é vendido por uma multinacional nas farmácias da periferia capitalista e que agrega consigo uma patente onde em seu preço de mercado estão embutidos royalties. E quando esse mesmo pesquisador tem um problema como uma gripe ou uma dor de cabeça, compra na farmácia esse mesmo produto que ele ajudou a criar ao mesmo tempo em que paga royalties para o exterior. Em outras palavras, trata-se de mais uma modalidade daquilo que o finado Leonel Brizola chamava de “perdas internacionais”. O fato é que quanto mais a produção científica brasileira se internacionalizou e produziu papers em revistas estrangeiras, mais royalties o país pagou para o exterior (valor esse que subiu de R$ 260 milhões em 1994 para R$ 4 bilhões em 2014), e assim ajudando a aumentar ainda mais a sangria anual de dinheiro para o exterior, que já é enorme devido às altas taxas de juros com que se pagam o serviço das dívidas interna e externa (e para variar a gritaria em torno disso é nula, enquanto que a gritaria em torno de um político de uma cidade qualquer pego em algum escândalo de corrupção é enorme). Exemplo disso é o caso da copaíba, uma planta sul-americana com propriedades anticancerígenas e analgésicas, sobre o qual o então ministro da Ciência e Tecnologia do Brasil, Aloísio Mercadante, falou em palestra na 63ª reunião da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em 2011. Cerca de 80% das publicações sobre o óleo de copaíba são feitas por pesquisadores brasileiros, mas ao mesmo tempo o Brasil não tem nenhuma patente, já que essas publicações em sua grande maioria são feitas em papers publicados nas ditas revistas internacionais. Isso ao mesmo tempo em que os Estados Unidos possuem 17 delas, a Inglaterra sete e a China três. Se o tratado de Methuen é também chamado de o tratado de panos e vinhos, esse intercâmbio científico desigual entre nações também pode ser muito bem chamado de o intercâmbio de papers e royalties.
Nos meios científicos brasileiros, principalmente do governo FHC em diante, a publicação de papers de pesquisadores brasileiros nas famigeradas “revistas internacionais” tornou-se muito comum, ao ponto de no sistema de pontuação da CAPES valer mais pontos para um pesquisador publicar um artigo em língua estrangeira em revistas de países como Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha que em uma revista nacional. Tal sistema, que alguns chamam de “publicar ou perecer”, foi imposto pelo Banco Mundial e instituído por Paulo Renato Souza (Ministro da Educação do Brasil no governo FHC, falecido em 2011). De acordo com suas regras, a vitalidade de um pesquisador é dada não pela qualidade de seus trabalhos publicados, e sim pela quantidade de artigos/papers que publica em revistas. E ao escolher publicar nessas revistas gringas em detrimento de revistas nacionais, o professor brasileiro, além de fazer o papel de mais um operário em sua linha de produção, enfraquece o ambiente em que efetivamente trabalha, sabota o dialogo com grupos nacionais de pesquisa, debilita revistas nacionais indispensáveis em algumas áreas e não se dá conta de que agindo dessa forma está apenas fortalecendo a produção científica dos países centrais. Assim como ajuda a perpetuar a situação de atraso, raquitismo e dependência tecnológica do país em relação às grandes potências, tal qual o tratado de Methuen fez com a economia portuguesa no século XVIII e o tratado de Eden-Rayneval fez com a economia francesa às vésperas da Revolução de 1789.

Foto – Paulo Renato Souza (1945 – 2011).
Esse mesmo professor, que não raro tem o título de mestre e/ou de doutor e pensa que universidades como Harvard, Sorbonne, Yale e Cambridge são internacionais (sendo que em realidade estão a serviço dos interesses de seus respectivos países), depois fica se vangloriando perante o mundo de ter publicado artigo em revista estrangeira, em realidade é tão ou mais alienado quanto o operário que trabalha horas a fio no chão de uma fábrica de uma empresa multinacional. A única diferença entre os dois é que o professor em questão é um alienado gourmet, gerado em grande medida pela glamourização que esse sistema recebe dos grandes meios de comunicação. Em outras palavras, tais profissionais agem como se fossem parte do proletariado externo científico das nações capitalistas centrais, parafraseando Darcy Ribeiro, e o desenvolvimento da ciência brasileira do governo FHC em diante tem sido em realidade um desenvolvimento de seu subdesenvolvimento, parafraseando André Gunder Frank, na medida em que se voltou muito mais para atender às demandas vindas de fora que aos interesses reais da nação.
E a universidade brasileira, onde ela entra nessa história toda? Historicamente, a universidade brasileira sempre teve uma vocação colonial que remonta à fundação da USP em 1934 e que se agravou a partir do golpe civil-militar de 1964 com a difusão do modelo cosmopolita uspiano para todo o país e a extinção do carioca ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) e a castração da UNB (Universidade de Brasília) sob os auspícios de Zeferino Vaz, no que fez o centro da vida intelectual brasileira transferir-se do Rio de Janeiro para São Paulo. Tal tradição cosmopolita seguiu adiante após o fim da ditadura, e mesmo os petistas no governo não reverteram esse quadro. Pelo contrário, foi sob a gestão petista que o Programa Ciência sem Fronteiras foi instituído, que sob o pretexto de promover a consolidação e a expansão da ciência brasileira através do intercâmbio internacional tem promovido uma fuga de cérebros para o exterior que nós mesmos financiamos. Tanto os Estados Unidos quanto a Europa, devido a suas baixas taxas de natalidade, não produzem todos os cientistas e técnicos nos vários campos do conhecimento de que necessitam para a manutenção de suas respectivas máquinas científicas, e para suprir essa carência recorrem a programas destinados a atrair professores e estudantes dos países periféricos. E é ai que entram os programas que universidades como Harvard fazem (com a carta branca de nossas universidades) em cidades como São Paulo, onde se selecionam estudantes para as mais diversas carreiras universitárias.
Isso tudo desmonta ideias errôneas e falsas de que a universidade brasileira é uma instituição revolucionária (assim Maro Filósofo a caracterizou em seu vídeo a respeito dos comentários de Leandro Karnal sobre o Escola sem Partido). Afinal, como chamar a universidade brasileira de revolucionária sendo que ela, para começa de conversa, demonstra um silêncio tumular quanto a figuras como Ruy Mauro Marini, Alberto Guerreiro Ramos, André Gunder Frank, Álvaro Viera Pinto e outros próceres do pensamento crítico latino-americano (silêncio esse que começou a partir do golpe de 1964 e que se arrasta até hoje), além de ter sua carga colonial que remonta aos seus primórdios e da qual não se livrou até hoje, assim como o fato de estar envolvida dentro desse sistema de atuação global? Pelo visto esses neocons de plantão só têm olhares para o que se passa nos escalões mais baixos das escolas e universidades brasileiras. Ao passo que o mesmo não se verifica com o que se passa nos escalões mais altos. Sendo que problemas como a perda anual através dos pagamentos de royalties e a fuga de cérebros para o exterior são muito mais graves que a pregação ideológica de um professor de esquerda em sala de aula. Só espero que um dia a máscara desse sistema caia, de forma a fazer com que a comunidade científica não só do Brasil como também de todos países da periferia capitalista tomem a vergonha necessária e deixe de fazer o papelão ridículo (no caso específico brasileiro, desde no mínimo 1994). Assim como que todos aqueles responsáveis por essa tragédia científica (o que infelizmente não vai ser possível com Paulo Renato) sejam devidamente submetidos a julgamento público e punidos.

Foto – Charge ironizando a suposta isenção ideológica do Escola sem Partido.
Fontes:
A copaíba não é nossa. Disponível em: http://pesquisastecnologicas.com.br/site/?p=254
A falência do sistema ptucano. Entrevista especial com Nildo Ouriques. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/541200-a-falencia-do-sistema-politico-ptucano-entrevista-especial-com-nildo-ouriques
A Universidade Necessária: reforma curricular e utilidade da história – Nildo Ouriques (ENEH 2013). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qIAbNxrN8Fs
André Gunder Frank. Disponível em: http://resistir.info/mreview/gunder_frank.html
Ciência e Pós-Graduação na Universidade Brasileira – Nildo Ouriques. Disponível em: http://pt.slideshare.net/AfonsoHRAlves/cincia-e-ps-graduao-na-universidade-brasileira-nildo-ouriques
Datas inglórias e “Tratado de Methuen”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aQA-AedR6Hg
Leandro Karnal e Escola sem Partido. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=zCtKJxIoX2E
Nildo Ouriques – colonialismo mental e universidade brasileira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KrknBXm3MvA
Nildo Ouriques – O intelectual “cosmopolita” da periferia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=OqItyJR3tso
O Brasil como problema. Disponível em: http://www.casadobruxo.com.br/ilustres/darcy_prob.htm
Sobre a universidade nacional. Disponível em: https://issuu.com/ayrtoncruz/docs/subtr__picos_n001/12
Tempos, espaços e protagonistas. Disponível em: http://susanahistoriab.blogspot.com.br/2010/12/tratado-de-methuen.html
Tratado de Methuen. Disponível em: http://brasilescola.uol.com.br/historiag/tratado-methuen.htm